terça-feira, 7 de abril de 2009

"Macunaíma Acorrentado" e Outros Poemas



O grande escândalo sou eu aqui só

Caetano Veloso

A perfeição é inimiga da realização

Nelson Rodrigues de Souza

Revolta

Nem mesmo orgias em cemitérios,

Nem mesmo gargalhadas em velórios,

Nem mesmo roubar doces das crianças,

Nem mesmo sórdidas e covardes vinganças,

Nem mesmo desafiar a paciência dos generosos,

Nem mesmo a arrogância dos poderosos.

Nada é mais tido como maldito

Do que o nosso amor.

Mas o que fazer?

Sofrer?

Jamais!

E sim

Amar você amor, sem fim,

Trocando o dito pelo não dito,

Mandando praquele lugar

Todos aqueles que ousam

Impedir que eu continue a lhe amar.

Renascimento

Amor,

Ressuscita-me

Pra que a partir de hoje...

A partir de hoje...

As famílias se transformem,

E os pais sejam pelo menos pouco perversos

E as mães sejam no mínimo mais ternas

E nós possamos viver

Totalmente submersos,

Nossa união fraterna

Nosso estranho amor,

Nossos desejos mais recônditos,

Nossos anseios mais legítimos,

Rechaçando a pecha de malditos,

Não desprezando nossos pactos íntimos,

Vivendo feliz apesar dos equivocados,

Com seus preconceitos extremados,

Que querem regular nossas pulsões,

Nossos ritmos, nossos sonhos, nossos corações!

(com agradecimentos a Maiakóvski, Caetano Veloso e Ney Costa Santos)

Caravana

Nem todos os orixás reunidos e seus sortilégios,

Nem todos os deuses do Olimpo e suas façanhas,

Nem todos os líderes religiosos unidos em prece,

Nem todos os presidentes, seus assessores e meganhas,

Calarão esse amor que sinto por ti.

Nem todos os escândalos que pipocam aqui e ali,

Nem todas as tragédias que acontecem no planeta,

Nem todos os especialistas da alma&corpo&mente,

Nem todos os horrores mundiais e suas várias facetas,

Calarão esse amor que sinto por ti.

Nem todas as trapaças de corruptos políticos,

Nem todos os temores inclementes,

Advindos de desígnios desconhecidos

De oráculos apocalípticos,

Nem toda loucura de seres dementes,

Nem todas as dores dos desvalidos de sempre,

Calarão esse amor que sinto por ti.

Nem mesmo tu, meu amor,

Se tu me deixares (Oh! Meu Deus!)

Calará esse amor que sinto por ti.

Ficarei aqui embasbacado com teu adeus,

Mas meu amor por ti

Eu gritarei por toda parte,

Mais fortemente do que podem os badalos de todas as igrejas,

Aturdindo até o silêncio de Deus,

E tu hás de ouvir onde quer que estejas,

Como todos ouvirão,

Até que tu voltes pra mim,

Minha oitava maravilha do mundo,

Minha obra-de-arte,

Meu desejo inextirpável mais profundo.

Mas venhas, esqueças todo esse palavrório.

Sintas logo nossa grande arte,

Uma eterna obra-prima.

Tu embaixo, eu em cima,

Tu em cima, eu embaixo,

Neste profano oratório

E em sua alma eu como que me encaixo,

De uma forma que alucina.

E todos os cães deste mundo podem ladrar

Que nossa caravana vai passar,

Carregadinha de um amor,

Que compactua com o Absoluto

Que não é maldito, é sagrado,

Ainda que seja puto, bem puto.

( agradecimentos a João Silvério Trevisan)

Meu Menino Vadio

Meu Pixote

Mame os meus peitinhos,

Que eles são todos seus.

Meu filhote, não me boicote,

Que eu vou lhe cobrir de carinhos.

Pra rua é que você não vai mais não.

Quero me agarrar aos pêlos teus.

Fica comigo todos os dias e noites,

Meu amante, amigo, irmão

Me açoite, me açoite

Com seu pau enrijecido

E depois com nossos corpos adormecidos,

Sonharemos com nossos bons eflúvios.

Você meu Pixote

Com todos os seus meneios e toques,

Me salva de tudo,

Até mesmo dos dilúvios

Que nos ameaçam até o pescoço.

Meu menino peludo,

Fico aqui roendo sua carne, seus ossos,

Roçando sua linda alma,

Com calma, com calma,

Pra nunca acabar

Essa sensação maravilhosa,

De ter encontrado

Afinal, uma criatura tão gostosa,

Um grande namorado,

Para amar, trepar, gozar.


Pixote fique! Nada de rua!

Nada de peregrinar no vazio.

Nada de vida amarga e crua,

Obedeçamos ao nosso doce cio,

Pixote fique! Não fuja!

Pra que se confinar a uma vida suja?

Fique, nada de se perder por entre trens

Vagar, vagar, como alma penada, sem nenhum vintém.

Pixote fique! Fique!

Meu menino vadio,

Maltratado, maltrapilho

Mas segundo meus olhos, bem chique.

Sofro com meus augúrios

De que você prefira uma vida bandida,

Com os perigos dessa gente tão enlouquecida,

Com roubos, achaques

E não adianta dizer que você é um dos craques

Deste covil onde não há porvir.

Eu posso lhe dar uma boa e preservada identidade.

Você comigo viverá, breve, seus vinte anos

Aproveite que não é mais flor em botão

Que tanto alegria traz ao meu coração.

Nada de desatinos, correrias e atos insanos,

Nada de um destino como o menino de Babenco.

Você já é um adulto tão bonitão.

Não faça parte desse perigoso elenco.

Meu filhote, meu alento, meu filho

Com você eu cada vez mais brilho.

Vem, vem, para nossos beijinhos

Sossega meu leãozinho,

Que meu leitinho

Agora é mais prazeroso.

Chega de marcas roxas,

Esqueça lá fora,

Viva o aqui que pode ser sempre agora!

Chega amor de enganar trouxas.

Deixa esse lamaçal perigoso,

Meu gato querido e gostoso.

Pixote, eu te imploro

Não vê como eu choro e choro,

Com tremendas infelicidades,

Angústias e loucuras,

Advindas do medo de lhe perder,

Para esse mundo onde você foi crescer,

Comendo o pão que o diabo amassou

E lhe entregavam,

Provocando no estômago gasturas.

Pixote, não dê as costas a tudo que de nós ficou.

Meu menino, chega de rodopiar

Do nada para lugar nenhum

“Como o diabo na rua, no meio do redemoinho”

Não, não fique nunca mais depauperado e sozinho.

Vida de michê achacador corta como faca, \

Mas vamos acabar

Com este acutilador pensar.

Meu Pixote, dê adeus definitivo a essa cloaca

Ao vampiro do desamor finquemos uma estaca,

Pois eu sei que já estou lhe amando e vou continuar,

Por todos os meios

A beber de sua fonte incomum,

Todos os odores, todos os devaneios,

Exorcizando toda coisa ruim.

Vivamos todos nossos doces pecadilhos

Esqueça esses trens, meu grande bem

Me ouça, vem , vem, vem meu neném

Meus braços são seus trilhos.

(com agradecimentos a Hector Babenco, Marília Pêra e Francisco Ramos da Silva)

Meu Amor Siamês

Meu amor siamês,

Coisa mais linda que Deus fez.

Você com sua pose de pensador

De Rodin.

Você com seu jeito Zen.

Você meu talismã,

Com sua alma serena,

Que não é nada pequena.

Você meu neném,

Que sobe ao meu colo,

Encaixa-se onde puder.

O ser que eu consolo

E me diz que me quer

Muito...muito.....

Com sua linguagem particular.

Como eu lhe quero,

Você que espero

Jamais fuja de mim,

Pois para mim

Seria o fim sem meu gatinho.

Não consigo jamais

Ficar bem, sozinho

Sem a sua companhia

Perdendo sua Zen sabedoria.

Meu amor siamês,

Eu sou é freguês,

Constante e viciado

Nos carinhos e pelinhos teus.

Meu amor, meu namorado,

Meu siamês taradinho,

Meus cais, meu carinho,

Te amo muito.....

Não me diga nunca adeus.

Meu Amor Aquário

Você sabe querido,

Que mergulhei em águas profundas

Nas quais você me arrastou,

Mas como você me encantou

Demais...demais..demais....

Não me preocupei,

Nunca achei que estivesse me metido

Numa barafunda!

Pelo contrário,

Agora tenho paz!

Amor querido

Com você, nadamos, nadamos,

Amamos, amamos,

Vivemos nosso amor ousado

(Dizem as más línguas:

Coisa de viados ).

Mas amor, meu aquário,

Com você não há tubarões atacando,

Nem polvos, nem arraias.

Com você só há lindos peixinhos.

Então amor, devagar, de mansinho

Meu amor aquário,

Quero ser eternamente solidário

A você,

Ao nosso amor,

Meu aquário querido,

Meu itinerário,

Meu diário amadurecido,

Águas em que navego sem medo,

Espantando o desassossego,

Sentindo uma paz grandiosa,

Gloriosa,

Misteriosa.

Aquática,

Errática,

Mas doce, muito doce.

Meu Amor, Minha Religião

Amor, você é minha religião.

Leio um pouco sobre todas elas,

Ou quase todas,

Digamos muitas,

Mas nenhuma me apetece

Nenhuma me faz ter um clic:

É essa! É essa! É essa!

Amor o que fazer?

Para onde ir?

Freqüentar Igrejas católicas?

Templos evangélicos?

Terreiros de Umbanda?

Terreiros de Candomblé?

Terreiros de Umbanda Branca?

Terreiros de Quimbanda?

Terreiros de Itaparica

Que cultuam eguns?

Maçonarias ocultistas?

Seguidores de Ramatis?

Encontros com Homens Notáveis

A la Gurdjieff?

Centros Espíritas voltados para a teoria?

Centros Espíritas voltados para a prática?

Ou as duas coisas?

Templos budistas?

Mesquitas muçulmanas?

Cabalísticas sinagogas?

O pessoal do Santo Daime?

Testemunhas de Jeová?

Templos Xintoístas?

E outros que agora não me ocorrem....

Templos...templos..templos...?

Terreiros...terreiros...terreiros...?

Casas...casas...casas.....?

Florestas...florestas..florestas....?

Matas...matas.....matas....?

Cachoeiras...cachoeiras..cachoeiras...?

O que fazer amor?

Para onde ir?

Já nem mais sei rezar,

Por tantos desenganos & desencantos.

Como elevar a Deus minha prece, meu canto?

Será que sou digno de falar com Deus

Sem intermediários?

Não sei! Não sei!Não sei!

Mas de algo eu sei!

Você no fundo, com seu sêmen sagrado

(Tudo que é criação de Deus é sagrado....)

Que jorra doce sobre os cabelos do meu peito

É minha religião particularíssima

Em seus braços me entrego com devoção,

Com fervor amoroso,

Com o coração exposto

Sangrando como o de Cristo!

Por isso amor, eu e você e nosso amor,

Somos outra santíssima trindade

(ainda que alguns a adjetivem de maldita).

Trindade amor, que singularíssima

É como se fosse,

Nossa virgem santíssima

Que adoramos,

Por mais que saibamos

Que de santos não temos nada

Então meu amor,

Minha religião,

Deixe-me ajoelhar na cama

E beijar teus pés de corpo nu

Como o meu!

Benção amor, que Deus nos proteja

A nosso imenso, intenso amor

Pois afinal não dizem eles,

(aqueles que não provam

o gosto da cereja,

por medo, por culpa, sei lá

e não querem que ninguém

ninguém...ninguém..ninguém....o faça!)

Que Deus é Amor,

Pois então você é meu Deus, minha religião!

Salvamos o nosso mundo com nosso amor!

Nelson Rodrigues de Souza

Instalação Viva

Olho sutilmente ao lado, embaixo,

E você de pau duro.

A urina já desceu há algum tempo.

Você se acha seguro,

Mas eu prefiro um quarto,

Mesmo que escuro,

Para lhe tocar, acariciá-lo, pegá-lo, senti-lo,

Por uma de suas bordas mais sensíveis.

Eu não sei o que falo,

Estupefato, diante do seu falo,

Algo inebriante que me provoca medo e audácia.

Tenho receio de que a qualquer instante,

Entre alguém com bastante perspicácia,

E entenda que estou morrendo de tesão,

Por você, por sua frenética mão,

Que envolve seu pau imenso,

Algo que me deixa muito tenso,

Pois atenção!

Pessoas de fora já chegaram,

Neste banheiro gigante.

Terá entre elas uma criança?

Observará ela nossa aliança

invisível, mental, carnal?

Será que ela alcança

O sentido do que ocorre aqui?

Eu cá, você aí,

Tontinhos, com pênis eretos,

O que pode não ser correto,

Mas é irresistível...

Minha vontade é lhe tocar

E deixar você me pegar,

Mas o infante vai nos deixar,

Com tromba de elefante,

Mortos de vergonha,

Com caras de pamonhas

E o pai o que dirá?

O que acontecerá?

Será que saberão,

Que uma criança dormindo na rua,

Esta sim é uma visão dantesca,

Algo terrível, uma aparição grotesca,

Que agride a alma de qualquer ser,

Não o nosso amor, ainda por nascer, crescer,

Com esse primeiro contacto,

Que a outros pode causar impacto,

Mas é simplesmente a natureza humana,

Que jamais mente

E se revela em qualquer parte,

Mesmo num banheiro público,

Para horror dos falsos pudicos,

Pois olhariam com a mesma nossa avidez,

Uma mulher e sua vagina,

Que estivesse ao lado, em sua nudez

Quebrando suas hipócritas disciplinas.

Você que está aí, me entenda!

Não sei até onde iremos,

Mas que está gostoso está.

Será que é só isso que queremos?

Será que acaba aqui sua oferenda?

Ou algo mais vai pintar

E não ficarei ao Deus-Dará?

Quem sabe eu ainda vou lhe amar,

Com todo aparato que merecemos,

Longe deste perigo, desta migalha,

E minha angústia amainará.

Criaremos então uma fornalha

De tal forma quente,

Que até mesmo essa gentalha,

Aqui desconfiada de nossas ações,

Sem se importar com nossos corações,

Batendo, batendo,

Cheirará grossa fumaça,

Longe daqui, nas ruas,

Numa vingança nossa, feito pirraça,

Com nossas almas nuas,

Nossos corpos viris,

Colados com paus à mostra,

Juntinhos, eu agarrado à suas costas,

Numa viagem pessoal muito feliz,

Que espero que seja como você gosta,

E eu lhe enchendo de amor, simples amostra

Do que ainda podemos fazer,

Muito além deste calor que me faz suar,

Por não poder lhe amar,

Aqui neste lugar tão devassado.

Nós, devassos num lugar estranho,

Com um medo tamanho,

De sermos escorraçados daqui,

Pelos intolerantes que nos consideram viados,

Sem amor, sem vergonha,

O que é uma mentira tacanha,

Pois simplesmente o que há,

É um primeiro sinal

De amor, de afeto, de tesão, de desejo,

Prováveis ou improváveis não importa,

Acima do bem e do mal,

Que no fundo não faz mal a ninguém,

Não justifica esta coisa banal,

De falar, xingar,

Este desdém

Pelo que é diferente,

Do que essa gente sente,

Pois não somos natureza-morta.

( No fundo nem tão diferente assim...

Eles entendem sim.

Eu pra você, você pra mim,

Faz parte do humano, demasiadamente humano,

Pulsões de vida sob um poder soberano,

Que vale tanto para fulano, beltrano e cicrano)

Agora o ambiente está novamente vazio,

Não mais curiosas e inconvenientes testemunhas,

E podemos dar trela ao nosso lado vadio,

E o mundo pode nos tiranizar com as mais torpes alcunhas.

Ái amor, devagar,

Assim, com as pernas já dormentes,

Vou gozar, vou gozar.

E vejo o líquido branco fluindo também de suas entranhas,

Comprovando como podemos ser independentes,

Imersos em sublime e suis generis perspectiva.

Olha só nossa reação

A uma autêntica e imprevista exposição.

Nós que por um triz não estivemos em palpos-de-aranha,

Compusemos para este povo que aqui circula

Uma instalação viva,

Algo que ele especula,

Mas não apreende o sentido,

Obra aberta que é de um terreno incompreendido,

Mas certamente pressentido.

Afinal, quem pode atirar a primeira pedra?

Quem pode negar o desejo que medra?

Nosso Amor Quase Budista

Meu amor, Buda nos ensinou,

Que o instrumento da vida,

Não pode ter cordas muito esticadas,

Pois senão elas arrebentam.

Mas também não podem estar frouxas

Pois então as melodias soam horríveis.

Meu amor, onde?Mas onde?

Como? Como?

Como fugir desse esconde- esconde,

Encontrar equilíbrio para nosso amor,

Tão caluniado,

Tão miserabilizado

Pelos algozes,

Pelas vozes discriminatórias atrozes?

Como navegar neste mar de rancor?

Como viver nossa lida,

Neste vendaval de imobilizações,

De gente que não aprende básicas lições

E não deixam a vida dos outros em paz?

Mas meu amor quase budista,

Você com sua alma de artista,

Sereno, simples, comedido,

Afasta de mim todo Satanás,

De dentro, de fora

E eu não me sentirei vencido.

Seguirei a vida com você,

Num tênue equilíbrio,

Fazendo do vendaval,

Um manso rio,

Um carnaval,

Bem Zen, bem Zen

Exorcizando o mal,

Que anda por aí, aqui,

Quando enfrentarmos qualquer sinal,

Que nos seja fechado.

Amor, meu budista tarado,

Vem com seu tantra,

Cantaremos juntos o mantra

Do nosso amor,

Do nosso amor.

Do nosso amor.

Nosso Amor “Monstruoso”

Amor,

Nós estamos inventando a vida,

Apesar do disse-me-disse,

Que muita gente mordida,

Contaminada de idiotice,

Dedica ao nosso gozo e afeto,

Que chamam de sem-vergonhice,

Discriminando o que seria errado do correto.

Amor, eu sou Dr. Franskenstein

Mas do Bem!

Você também.

Criamos um “monstro” como dizem,

Que é nosso amor desviante,

Que quer seguir sempre adiante.

Mas e daí ?

Não vamos deixar que nos pisem,

Porque quem renega, vilipendia, calunia,

Tem inveja, vergonha, ojeriza,

Tenta proibir, barrar leis que nos sejam favoráveis,

Esses seres que desfilam sua ignorância à luz do dia,

Que acreditam que a gente vive de brisa,

Estes sim, são verdadeiros e deploráveis

Monstros!

Nosso Amor Kafkiano

O pai de Kafka, amor,

Sobre o mapa-múndi deitava,

E assim, autoritário, delimitava

Por onde ele deveria se mover,

Num ato de autêntico horror,

Contrário ao livre-arbítrio de viver

Essa gente amor,

Que atende pelo nome de “eles”,

Quer também deitar

No nosso mapa do mundo,

Para que a gente não possa se amar

E ái daqueles,

Que ousem contrariar,

Essa turba de pensamento moribundo,

Que acredita que assim vamos parar,

De ir onde queremos,

De satisfazer nossos desejos

Como se fôssemos blasfemos,

Numa vã tentativa de castrar nossos festejos.

Eles que se deitem, sordidamente, neste mapa,

Que nós, enxeridos, atravessamos sobre eles,

Amando sobre seus corpos, à socapa,

E deixando escorrer porra...muita porra,

Que ultrapassará os limites que nos estabelecem

Mesmo que a gente “morra”,

Zombando da cara deles,

De amor, de tesão, de prazer, de loucuras,

Doces delitos que não há nada que os arrefecem

Já que seus corpanzis não passam de entulhos,

A estorvar nossas benignas aventuras,

Nossa gana de viver, nosso orgulho

De sermos o que somos, apesar do que são eles.

Vejam se nos esquecem...esquecem..

Deixe-nos amar e viver em paz.

Será que é pedir demais?

De Placentas e Desassossegos

“Já aprendi matemática,

Que é a loucura do raciocínio

Mas agora quero o plasma,

Quero alimentar-me diretamente da placenta”

Por isso meu amor, me abrace,

Cedamos à nossa particular gramática,

Ao nosso gozoso tirocínio,

Aquilo que pra muitos é um fantasma

Mas pra nós a noite fria, esquenta.

E é como se o mundo todo se calasse,

Pra ouvir, sorrateiro, nossos murmúrios,

Nossos delírios, nossas falas indecentes,

Com a benção do mensageiro dos deuses: Mercúrio.

Pois então vamos nos dar mútuos presentes:

Eu quero seu falo bem ereto,

E terá boca e língua minhas lhe acariciando,

Num frenesi de movimentos repletos,

Plenos de desejo, gozo, delícias, sabor.

Você, seu corpo, sua pele, seu amor,

São algumas das placentas divinas,

Nas quais me alimento, me sacio,

E esqueço, por exemplo, a loucura das esquinas,

Onde aqueles meninos dão um salto no vazio,

Lutam desesperadamente pela sobrevivência,

Equilibrando limões nos sinais,

Mais um caso de descaso, inconseqüência,

De uma matemática fria por demais,

Enlouquecida, que tecnocratas de “coração-de-uva-passa”,

Dia a dia nos impingem,

Cobrindo-nos com uma negra cortina de fumaça,

Que nos deixa tontos, estressados,

Enquanto eles teimam, mentem, fingem

Que tudo avança e são bem intencionados.

Mas sabemos meu amor,

“A maior astúcia do demônio,

Está em fazer-nos crer que ele não existe”

E agüentemos efeitos da camada de ozônio,

Danificada, arrasada, algo muito triste.

Mas você, meu criador de placentas,

“Clariceando o que há do bom”,

Com suas maravilhas infindas, atentas,

Me faz sentir que viver é um grande dom

Que Deus nos deu de presente

E mesmo que lá fora prevaleça o caos ostensivo,

Vivamos a felicidade, “uma arma quente”,

Contra o desespero, o medo, o veneno, o impulso depressivo.

Você é meu bálsamo, meu Deus que me acode,

E contra isso ninguém atingir pode,

Com seus ardis, trapaças e mentiras.

Eu e você, com nossa inesgotável sede de amor

Venceremos os canalhas, os vendidos, os tiras,

Enquanto nos alimentarmos mutuamente,

Enquanto mitigarmos nossa dor, esse horror

E esquecer essa gente, que rouba, mata, mente.

Para nós o amor é sempre eterno.

Gozaremos, viveremos nossos íntimos prazeres

E fugiremos desse torvelinho e inferno,

Que deprime, rebaixa e aturde os seres,

Até o juízo final chegar....

Mas enquanto isso, o que fazer, senão amar?

Nosso Máximo Amor Microfísico

Os podres poderes se instalaram,

Amor...

No Legislativo,

No Judiciário,

No Executivo,

Com honrosas exceções.

Será amor que essa gente,

Vai pensar com justiça em nós,

E ao fim e ao cabo,

Mas que diabos!

Não nos deixarão a sós?

Será que essa gente demente,

Sequiosa de grana e poder

(Seus afrodisíacos)

Legislarão,

“Judiciarão”.

“Executarão”,

Alguma coisa que seja boa realmente,

Para nós gays,

Com benignas leis,

Que protejam bem nossos direitos,

Que nos tratem com respeito?

Acredito que tão cedo não, amor,

Mas não soframos.

Lá no “não sabemos aonde”,

Está Focault que vela por nós.

Nos legou a “Microfísica do Poder”,

Que explica porque o nosso especial e legítimo

Viver...foder...viver...foder...

É tão caluniado, espezinhado,

Mas não vamos brincar de esconde-esconde,

Vivamos o que nos cabe,

Deixemos esses tolos de lado.

Vamos honrar nossos desejos íntimos,

Que não há nada que os acabe.

Larguemos para trás,

Esses animais irracionais.

Pra mim amor, acabou,

Não a esperança de sermos um dia

Considerados como semelhantes,

Mas a confiança nestes que aí estão.

Não fiquemos por eles, doentes.

Você é o que é, eu sou o que sou.

Nem tudo é para sempre:

Eles passarão

.

O que irradia,

Ao sol do dia a dia,

É nosso amor tão terno,

Que é eterno.

Identidade da Alma

O principal amor,

É assumir-se pra si mesmo.

Assumir para os outros,

Seja pai, mãe, irmãos,

Colegas, chefes, patrões...

É uma questão muito pessoal.

Cada um sabe o sofrimento e o prazer

De sua circunstância.

Assim cada um decide

Onde...

Quando....

Como...

Com quem...

Por quem...

Por quê...

Pra quê

Assumir

O importante mesmo,

É não fingir pra si mesmo,

Que se é,

O que não se é...

Ou que não se é,

O que se é....

Os outros que nos perdoem

Mas o que é fundamental é o nosso amor.

Só ele merece satisfações.

Perguntas

Macabéa pergunta em “A Hora da Estrela”

De Clarice Lispector:

“Ser feliz serve pra quê?”

Eu mudo a pergunta:

“Ter amor serve pra quê?”

E respondo logo:

Pra ser feliz,

Bem feliz!

Ao seu lado,

Meu querido namorado.

Macunaíma Acorrentado

Meu benzinho, meu amorzinho, me acuda!

( Será que estou precisando tomar banho de arruda?)

Sou Macunaíma sem tirar nem por:

“O Herói sem Nenhum Caráter”,

Vindo das entranhas da Amazônia.

Nasci preto, virei branco,

Sem sabê onde ir, onde vivê,

Banhado por águas do espanto,

Vim à cidade grande, perigosa e cruel.

Desci do caminhão com os bóias-frias,

das tão ansiadas goiabadas cascão.

Ouvi de não sei onde, algo que agora habita,

meus sonhos, meus pesadelos, meu matutar:

“Agora é cada um por si e Deus contra todos”

Nossa, isso me arrepia como um “Adeus!”

E tem sido assim minha saga,

Neste mar incessante de tentações,

Chorei, chorei, pelejei , pelejei

E depois de enfrentar carros, elevadores e até um gigante,

Procurei, procurei, procurei,

Andei, andei.

Aprontei, aprontei.

Mas quando minha muiraquitã já tinha sido recuperada,

Venceslau tornei ingrediente de feijoada,

Não sabia mais o que procurava,

Para onde andava, nem por que aprontava.

Só sei que numa noite escura,

Vislumbrei cê, lindo, onde estava.

Gente, cê não tinha medo não?

Aquela gente doida naquela escuridão,

Que confesso no começo me assustou.

Muita porra saindo de nós dois,

As coisas que você gritou.

Muito fogo, dentro do meu coração,

Ardeu, ardeu, depois me acostumei, viciei.

E lhi digo: Pra mata não volto mais não!!!

Não sei nada do que será depois.

Eu sei é que me saciei, me saciei, e ainda quero mais.

E porra! Não é que não tenho mais sossego?

Eu puxei cê lá com violência,

Com a força que empurrei o balanço,

Jogando o gigante na piscina,

Cheia de pedaços de pessoas,

Uma comida macabra que eu não lhe conto...

Acho inté que já lhi contei demais,

Pois não quero bagunçar nosso descanso.

Prefiro seu calor que alucina,

Seu tesão sem trégua que é de lascar,

Algo feito com jeitinho, manso, manso,

Continuo só pensando no seu chamego,

Juro: acabei com as mentira que sempre contei.

Por cê num tenho mesmo coragem

De continuá com essa mania que tinha, de sacanagem...

Eu quero esta, da outra forma,

Que me faz sentir tontinho

Como se tivesse me enchido de cachaça.

Eu não sou mais bobo, aprendi muito.

às vezes faz pirraça,

Mas sabe amorzinho, até isso eu acho graça.

Em cê, encontrei o verdadeiro muiraquitã.

O legítimo perto de cê, não vale nada não.

Eu que era bem louco, agora virei um pouco são.

Mas gosto de afagos, beijos, fodas, porra pra todo lado,

Continuei ainda safado, muito safado.

Mas agora é de um jeito bem diferente.

Tô inda cheio de preguiça e malícia,

Sentindo uma coisa que do meu controle foge,

Uma coisa que bole dentro da gente,

E cria um desvario, uma delícia

Que não me importa que a outros enoje.

Eu quero mesmo é me abrir todo pro cê,

Eu quero é viver muito ao seu lado,

Só cê traz no corpo o que gosto,

O que me apetece.

Adoro nós dois todo pelado.

Eu estou pro que der, vier e acontecê.

Menino, cê me acorrentou.

Me põe de tudo quanto é jeito,

A gente se deita, meu pau sobe, desce, lhe obedece..

Que eu acho que não lhi deixo mais não.

A corrente é muito forte, nunca arrebentô.

Um dia pode até mesmo arrebentá.

Eu vou chorá, chorá, chorá, muitas lágrimas soltá

Mas se cê me deixar, pra mata não volto mesmo não.

Vô esperá, doidinho cê voltá.

Mas se demorá muito, sabe o que eu faço?

Procuro um rio bem bonito e me atiro nele,

Pra correnteza levar toda mágoa,

Todos os carinho vivido,

Toda a porra desperdiçada, derramada daquele jeito.

(Olha quanto bebê que podia e não nasceu....)

Mas que valeu, valeu,valeu.

Não vou cuspi no corpo que comi e me comeu

E quando tudo de bom, de mal, de gostoso,

Que eu vivi com cê, com muito respeito,

For simbora rio abaixo, de bubuia,

Bichinho não pense que vô me afogá.

Eu sei bem o meu lugar, o meu direito.

Vou sair limpinho, branquinho.

( Preto num quero sê mais não:

aqui judiam muito deles, essa gente sem coração).

Eu vou juntar meus trapo, minhas coisinha,

De uma forma serena, delicadinha

E vô em busca doutro que sei, não vai sê igual a cê .

Vô até mesmo descê, subi, descê, subi no país

Pois pra mim num é possível que Deus não faça acontecê

De eu encontrar um cara boa praça,

Que me faça bastante feliz,

Que também me encha de alegria e de graça.

Eu mesmo com preguicinha vou a ele me acorrentá,

Igualzinho cê me fez fazê contigo,

(mas não esqueço, sendo sempre meu amigo)

E vou vivê, amá, trepá, gozá.

Ái que preguiça...

Mas disso num tenhu enfado não.

Vou seguir com esse novo amorzinho,

Té um dia a nova corrente arrebentá,

Mas vou chorá menos, vou seguir novos caminhos,

E pernas pro mundo,

Esse lugar tão vagabundo,

Em que a gente nasceu, viveu e vive.

Não vou murrê de saudade de belezas que deixei.

Vou construí uma nova lenda,

Uma lenda muito especial, mas que é só minha,

De mais ninguém, de mais ninguém

Eu apronto em qualquer lugar minha caminha.

(agora num gosto mais de rede)

Eu tenho mesmo muita sede, muita sede

De amor, carinhos, essas coisas que cê sabe bem.

Agora num perco mais tempo não,

Isto tudo ainda não aconteceu.

Vem pra mim seu putinho,

Tô cum saudade do seu jeito, seu carinho

e vamu trepá, fazê aquilo tudo:

cheirá, apalpá, chupá, gozá.

Vem, quero cê brincando, vadio.

Com os cabelinhos do meu peito.

A gente é igual a cadela no cio,

Pra que mentir, se enganar, se iludir?

É o que a gente gosta mesmo!

Vem meu bem,

Que ainda não é hora de eu fugir ou cê.

E agora chega! Silêncio!

Mas gemidos, sussurros, murmúrios, gritos,

Eu quero e muito.

Cê sabe que é muito bom!

(Tem gente que num sabe o que tá perdendu...)

E êta! Vamos fazê de tudo, mesmo ardendu.

Até punheta!

Já que a gente não gosta de buceta.

Vai sê algo muito bonito.

E não se esqueça, se controle,

Que eu quero mesmo algu que me bole!

Vamos esporrá juntinho com muito carinho.

Ah! Quanta preguiça!

Mas esse sou eu lá fora,

De cê, cê sabe, não tem preguicinha não.

Quero muito amor, enquanto cê num vai embora..

Vamos viver tudo isso mesmo na contramão,

Dessa gente tola, desinformada,

Que num sabe o que é bão.

Mas chega, cansei, vamos agi,

Vamos dar banana prô que essa gente faz!

E depois de tudo, de mansinho, devagarinho,

Vamus durmir juntinho, agarradinho.

(Talvez na madrugada eu acorde e lhi dê uns beijinhu)

Ái que gostoso! Tá gostoso coração tá?

Pra mata é que eu num volto mais não!

Como diz Dona Doida,

Com muito caráter:

Cu é lindo”!


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Nelson Rodrigues de Souza

domingo, 5 de abril de 2009

José Castello- Escrita da Solidão/Vazio que Define o Mundo-Uma crítica de “Leite Derramado" de Chico Buarque



Fazer crítica de Cinema eu ainda me atrevo. Mesmo com as carências do circuito exibidor muita coisa em diferentes graus de qualidade ainda pode ser vista. Mas eu que me atrevo a criar em Literatura com meus contos e poemas, jamais me aventuraria no universo da crítica literária, a não ser numa visão ensaística assumidamente bastante subjetiva. O número de livros lançados semanalmente e o tempo para lê-los é tão grande que jamais ficaria com a consciência tranqüila ao confrontar um livro com outros. Lacan já disse: “Quem compra um livro deve também comprar o tempo para lê-lo”. E assim, desobedecendo Lacan estou com pilhas de livros e revistas por serem lidos, o que espero sanar, em parte, num período de convalescência de uma operação que irei fazer, que não é, graças a Deus, nenhum bicho de sete cabeças. 

Inaugurando uma parte que farei com mais freqüência aqui no Blog, onde pretendo inserir artigos na linha “Vale a Pena Ler de Novo”, trago para iniciar esta proposta uma resenha/crítica que considero uma obra-prima do gênero. Depois de lê-la dá vontade de sair correndo para comprar “Leite Derramado” do Chico Buarque, interromper tudo e só sossegar quando terminar o livro. Fiz isto uma vez, quando não deveria, com “Cem Anos de Solidão” de Gabriel Garcia Marquez e de tão possuído que estava querendo ler com atenção e chegar ao fim, deixei pra lá os estudos necessários para provas no curso de Engenharia. Tive notas baixas, mas consegui me recuperar depois. 

Dentre os críticos de jornais atuantes, mesmo com o bastante respeitável e sempre presente durante anos Wilson Martins, não conheço ninguém tão interessante quanto José Castello. Leio sempre suas críticas e mesmo quando não vou à busca do livro comentado, sempre estou aprendendo muito sobre o mistério do fazer literário (e por extensão de outras artes também). 

Gostei muito de “Estorvo” de Chico Buarque” mas me irritou um pouco a adaptação que Ruy Guerra fez para o cinema, um filme exageradamente hermético, o que o livro não é. Já a adaptação de “Benjamin” por Monique Gardenberg me soou um tanto morna demais. Estou com a maior fissura para ver o que Walter Carvalho fez com “Budapeste”, que estréia em breve. Espero que Chico tenha logo seu “Leite Derramado” numa adaptação cinematográfica à sua altura. Mas vamos ao texto de José Castello, primeiro de uma série de “convidados” do Blog. 

Castello escreve tão bem que quando eu crescer, quero escrever igual a ele. Ainda dá tempo? 

Nelson

Escrita da solidão/Vazio que define o mundo 

José Castello 

O Globo- Caderno Prosa e Verso de Sábado, 28 de março de 2009 

A memória é um túnel escuro, infestado de armadilhas. É, ainda, o lugar da solidão mais tenebrosa: em seus escaninhos, o sujeito não conta com ninguém _ nem consigo mesmo. Nesse mundo pastoso, em que as coisas aparecem e desaparecem sem dar explicações, se desenrola a trama de Leite derramado, quarto romance de Chico Buarque de Holanda, que chega às livrarias com o selo da Companhia das Letras.

Trama? A narrativa de Chico se faz mais daquilo que escorre entre as palavras, do que com as verdades que elas costuram. Leite derramado é o mais hábil e inspirado romance que ele já escreveu. Por conta do papel crucial que ocupa no cenário da música popular, Chico Buarque ainda é visto, muitas vezes, como um aventureiro que se dedica, nas horas vagas, por esporte ou por vaidade, à literatura. A qualidade de Leite derramado _ um dos mais importantes romances lançados no país nessa primeira década do século 21 _ desmonta, de vez, as superstições e preconceitos que deformam sua figura de escritor. Chico não é só um músico de sucesso que faz literatura. Ele está entre os grandes narradores brasileiros contemporâneos.

No leito de um hospital, Eulálio Montenegro d’Assumpção, o narrador de Leite derramado, “dita” suas memórias para uma mulher. O vulto que se entrevê é o de uma enfermeira, mas ele se confunde ora com a filha, Maria Eulália, outras vezes com a ex-mulher, Matilde, falecida nos anos 20. O próprio Eulálio é, no fim das contas, o destinatário de seus ditados, através dos quais ele ordena não só sua história pessoal, mas o passado de seus antepassados, e, assim, a própria história do Brasil republicano.

“Estou pensando alto para que você me escute”, Eulálio diz a sua interlocutora. Nos corredores da agonia, o futuro se estreita. “Já para o passado tenho um salão cada vez mais espaçoso”, ele constata. Leite derramado é não só uma incursão pelo passado, mas uma desmontagem desse salão de lembranças no qual, como sugere o título do romance, quase tudo se perdeu.

A narrativa do centenário Eulálio vem borrada pelas deformações próprias da memória. E também pelos estragos que os sonhos nela produzem. “Dia desses fui buscar meus pais no parque dos brinquedos, porque no sonho eles eram meus filhos”, vacila. Do mesmo modo, a literatura não passa de um tapete estendido sobre um alçapão. Rombos, remendos, rasgões expõem uma verdade que se esfarela. Eulálio se torna, assim, um refém imóvel de fatos que lhe fogem. Assemelha-se a Balbino, o ex-escravo de seu avô abolicionista, um servo leal que, “fiel como um cão, ficou sentado para sempre sobre a tumba dele”.

À espera da morte, ele se parece com um objeto. Os enfermeiros o arrastam pelos corredores, submetendo-o a raios-x e tomografias cujos resultados nunca exibem. Para se conservar vivo, o narrador de Chico se apega aos últimos fios do passado que, com grande esforço, repuxa de dentro de si. Às apalpadelas, reconstitui seu primeiro encontro com o francês Jean-Jacques Dubosc, que desembarcou um dia no Rio de Janeiro para infernizar, para sempre, a sua vida. O jovem Eulálio estava no cais, à espera do futuro patrão, e aproveitou a presença de um fotógrafo para se imortalizar em um instantâneo. Quando, já velho, reencontra a fotografia, nela se vê “contrariado, parecendo quase um lacaio, carregando um sobretudo e uma pasta de couro alheios”. Jamais foi dono de si: a história _ como uma maca _ sempre o carregou.

Seu próprio nome, Eulálio, é um grilhão que o prende a uma corrente de homônimos _ pai, avô, bisavô, tetravô, todos Eulálio também. “Era menos um nome do que um eco”, ele diz. Por suas lembranças, circulam presidentes da República, como Venceslau Brás e Epitácio Pessoa. Nomes fortes que massacram o seu. Só quando dito pela falecida Matilde, o grande amor de sua vida, o nome Eulálio ganha uma singularidade e parece lhe pertencer. “Em sua voz ligeiramente rouca, parecia que meu nome Eulálio tinha uma textura”. Sem a voz do outro, um nome não é nada.

A memória o conduz a um inferno de dúvidas. O pai, o senador Eulálio Ribas d’ Assumpção, foi assassinado pelos adversários políticos, ou pelo marido de uma amante? Seu avô Eulálio, um benfeitor da raça negra que foi comensal de dom Pedro II e se correspondeu com a rainha Vitória, era um visionário? Ou foi só um derrotado, que morreu de amargura? Os médicos que agora o tratam desejam curá-lo, ou envenená-lo? A mulher que o ouve o ampara, ou o ignora?

Aos poucos, Eulálio se defronta com a inconsciência dos atos humanos. Foi ele próprio quem, pensando em vantagens materiais, entregou Matilde para o primeiro maxixe nos braços de Dubosc, o homem que a roubou. Também a cronologia não passa de um destroço, que atravanca seu acesso à história. “É esquisito ter lembranças de coisas que ainda não aconteceram”, Eulálio se intriga. A memória só se sustenta se alguém a escuta e a acolhe. É o que o próprio Eulálio diz a sua interlocutora: “Sem você meu passado se apagaria”.

O genro, Amerigo Palumba, se casou com a filha Maria Eulália por amor, ou para lhe aplicar um golpe? Eulálio d’Assumpção Palumba Júnior é o neto que se tornou pai na prisão dos militares? Ou o bisneto que ele próprio educou? “É uma tremenda barafunda”, o narrador de Chico desabafa. Grande encrenca, armada por lembranças que não se encaixam, transformando a história em uma grotesca dança de máscaras.

“A memória é, deveras, um pandemônio”, Eulálio reclama. Nela, como flashes involuntários disparados por uma câmera louca, cenas antigas, de súbito, voltam à luz. É uma danação. Só 80 anos depois, por exemplo, Eulálio se dá conta de que um vestido rodado, que o pai comprara para dar de presente, era um prenúncio de sua morte. No poço de sua mente flutua, ainda, certo chalé da Copacabana dos anos 20, entre cujas paredes a vida de Eulálio se comprimiu. Depois da morte do pai, a mãe o despachou para a Europa, para negociar com os agentes financeiros do falecido. Na Paris de 1929, encontrou um mundo adoecido de sua própria riqueza. Voltou de mãos vazias. Não existe um instrumento que recolha aquilo que se derramou. 

Como uma xícara de leite, que nos esforçamos para sustentar, mas que, à nossa revelia, se inclina, também a realidade lhe foge entre os dedos. Matilde é filha legítima de um parlamentar liberal, ou fruto de uma aventura do deputado? Por que sua filha, Maria Eulália, hoje com 80 anos, perdeu todos os traços fisionômicos da mãe? Será ela filha de Matilde ou, como dizem alguns, foi encontrada em uma lata de lixo? As despesas de hospital são pagas pelo tataraneto, Eulálio d’Assumpção Palumba Neto; mas esse dinheiro benfazejo vem contaminado pelo tráfico de drogas. O que parece bom é ruim; o ruim, bom.

Durante longos anos, Eulálio guardou os restos de seu passado em uma fazenda herdada na Raiz da Serra. A propriedade é sua, mas não é: foi desapropriada pela União. No dia em que resolve conhecê-la, encontra a sede colonial em ruínas, a capela em esqueleto, o estábulo carbonizado. Não existe uma esponja que absorva o passado e o restaure. Todo o seu esforço é inútil.

A vida, ele aprende, é um rombo. Matilde o abandonou quando Maria Eulália era um bebê, sem deixar um bilhete, ou fazer as malas. Ela morreu em um desastre de automóvel na Rio-Petrópolis? Ou de tuberculose, em um manicômio? Anos depois, seus vestidos se transformam em figurinos para uma montagem teatral que a filha Maria Eulália planeja com uma amante. Roupas vazias de qualquer conteúdo. A ficção abocanha a realidade e a devora. Nada sobra.

Leite derramado despeja sobre o leitor, é verdade, uma profunda tristeza. Mas é uma tristeza fértil, que nos ajuda a matizar os grandes atos da história. Decepção que, no fim, se transforma em leveza. É aqui que Chico Buarque se torna um grande escritor. A voz vacilante de Eulálio Montenegro d’Assumpção duplica aquela voz interior que faz de nós, homens. Todos nos contamos histórias secretas, que nos conservam de pé. A ficção é nossa espinha. Quanto à história oficial, ela não passa de um punhado de cacos a que, só por desamparo, nos apegamos.  

Quanto mais rememora, mais Eulálio se afunda em repetições. “São tantas as minhas lembranças, e lembranças de lembranças de lembranças, que já não sei em qual camada da memória eu estava agora”, ele diz. Nas páginas finais, ainda um menino de calças curtas, ele é levado pela mãe para se despedir do tetravô, que agoniza em um hospital. Um homem de rosto pastoso e memória degradada, que pode ser ele mesmo. Quem narra, afinal, o romance? E isso importa? Leite derramado destina à literatura um lugar crucial, que vai muito além das honrarias literárias: somos todos filhos de nossas próprias ficções.

Quanto à memória, ela é como uma fotografia de Matilde, tirada no ano de 1927, no pátio do colégio. Lá estão suas colegas de turma, amparadas pela severa Mére Duclerc, mas a própria Matilde não está. Essa ausência, mais gritante que qualquer presença, é o grande personagem de Chico Buarque. Vazio que define um mundo desenhado não tanto por aquilo que nos dá, mas por aquilo que, entre nossos dedos, se derrama.

(FIM) 

Nelson Rodrigues de Souza

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"Brown Bunny": Simples, Objetivo, Certeiro , Essencial



Quando foi lançado no Festival de Cannes “Brown Bunny” de Vincent Gallo foi muito mal recebido. O diretor preparou nova versão para o Cinema e aí passou a receber boas críticas. 

Godard numa entrevista ao Globo em 1985 mostrou-se bastante amargo e pelo jeito, ineroxoravelmente, estava bastante desiludido com o Cinema Contemporâneo. Dos seus colegas de nouvelle vague só Eric Rohmer não teria se vendido ao circuito comercial ( o que é, ao meu ver, um grande disparate e preconceito) . Do filmes que já tinha visto recentemente só um realmente achava grandioso: “Brown Bunny” de Vincent Gallo ( outro grande exagero de quem  vê as coisas fora de foco na vida, sem moderação). O grupo Estação chegou a tirar uma cópia do artigo e ampliou a parte que se refere a "Brown Bunny" colocando com peça de marketing ostensiva em suas vitrines. Nada contra. O cinema de “circuitinho” precisa destes estímulos. 

Fui ver “Brown Bunny” alertado por algumas pessoas de que o filme seria péssimo. Resultado: não senti o êxtase de Godard nem o incômodo de muitos, mas considerei o filme muito bom. 

Adiante vai uma pequena crítica que fiz do filme na época, com alguns acréscimos e correções. 

Simples, Objetivo, Certeiro, Essencial 

 “Brown Bunny”, escrito, produzido, dirigido, fotografado e interpretado por Vincent Gallo é uma mais uma prova da vitalidade do cinema contemporâneo com suas diversas manifestações dentro do “Infinito Cinema”. Um piloto de motocicletas (Bud) parte com sua van, com sua moto dentro, em busca de seu amor Daisy, para um ajuste de contas que não sabemos qual é. Só vislumbramos a solidão e a angústia do personagem, realçada por  paisagens desertas e algumas mulheres  também com nome de flor, que ele encontra pelo caminho, mas que não o satisfazem. O clima é de documentário: é como se os personagens estivessem respirando ali na nossa frente, comungando do nosso ar. No caminho passa pela casa dos pais de Daisy, conversa melancólica e laconicamente com a mãe dela, tendo o pai em plano mais próximo, alheio, absorto em suas inquietações. Bud se depara com um coelhinho marrom e chega a se interessar pelo bichinho: “Quanto dura a vida dele?”.

Com planos e planos seqüências belíssimos, uma música aliciante, uma segurança narrativa ímpar, vamos acompanhando com esparsos flash-backs a trajetória de Bud até um encontro que se constitue numa das mais pungentes e belas seqüências do Cinema em termos de erotismo e suas implicações. Não poderia ser de outra forma, senão seria hipocrisia do autor. Com um fellatio explícito, impregnado de raiva, amor, dor, prazer, culpa, falação, com emoção intensa (como em o genial “O Império dos Sentidos de Naguisa Oshima), com o que os filmes pornôs vagabundos ostensivamente nos negam ( pois para eles o que interessa é o atletismo sexual, a performance,  a aeróbica), com todo esse astral de contradições, temos revelações surpreendentes que redimensionam tudo que vimos antes. 

Enxuto, corajoso e vigoroso, “Brown Bunny” é um ensaio sobre a culpa e a complexidade do ser humano. Afinal Bud e Daysy são vítimas ou algozes? O inferno são os outros? São questões que o espectador emocionado deve carregar em si, para responder depois do final esplêndido. Se é que isto é possível. 

Nelson Rodrigues de Souza

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sábado, 4 de abril de 2009

Um Filme Que Enternece, Com Pudor e Tato, Sem Perder a Forte Dureza



“Diários de Motocicleta” (2004) de Walter Salles é um filme caloroso que nos mostra os impulsos generosos e de aventura do jovem Ernesto Guevara, um médico argentino recém formado que percorre de motocicleta junto a um amigo, Alberto Granado, a América Latina do seu Sul ao Norte, descobrindo suas paisagens físicas e humanas inusitadas, as mazelas e crônicas injustiças sociais, as carências abissais de cuidados. Não é nada difícil a adesão do público (e do cineasta) ao protagonista, ainda mais quando nos damos conta de que muito do que Guevara e o amigo viram nos anos 50 parece que está congelado no tempo e representa a América Latina de ainda hoje. Em suma, se percorrermos hoje a trajetória dos dois vamos nos deparar com um cenário de iniqüidades gritantes e disparidades de rendas, muito próximo ao que os personagens vivenciam. O jovem Guevara não é ainda Che e sua generosidade e entrega é contagiante e não nos provocam incômodo ao nos identificarmos com ele. 

Já “Che- O Argentino” (EUA/França/Espanha/2008), primeira parte de um díptico realizado por Steven Soderbergh nos é mostrado com razoável distanciamento quase que documental e como veremos isto foi mais do que necessário. Não estamos diante de um filme frio. A neutralidade não existe. Mas Soderbergh na composição dos planos e descrição das ações, seja nas florestas de Sierra Maestra, nas lutas nas cidades e no campo, nas entrevistas de Che nos EUA e discurso na ONU, procura manter-se um tanto distanciado, ainda que as atuações dos atores seja calorosa. Não se pode deixar de admirar a beleza do conjunto com Raul Castro (hoje comandante de Cuba), vivido com garra e talento por Rodrigo Santoro, Fidel (Demián Bichir), Aleida Guevara ( Catarina Sandino Moreno), demais coadjuvantes  e principalmente Benício Del Toro, também produtor do filme, como Che, numa interpretação impecável, que engrandece uma ótima trajetória, captando toda a dureza e ternura de que é feita a alma do revolucionário Che, uma interpretação de uma segurança e credibilidade incrível, premiada no Festival de Cannes 2008 mas que, assim como o filme, passou batida no circuito americano. O que é uma grande injustiça, pois tanto o filme como o ator deveriam ter sido lembrados nas indicações às premiações (e reparem que ainda nem vi a segunda parte, “Che- A Guerrilha”, sobre sua campanha na Bolívia, aquela onde a dramaticidade vai atingir patamares mais elevados até chegar à morte do líder em 1967). 

Che é um personagem muito controvertido, despertando grandes paixões a favor ou contra. Particularmente entendo e admiro todo seu movimento em direção a uma revolução armada para derrubar o governo ditatorial de Fulgêncio Batista que se instalou através de um golpe militar apoiado pelos EUA, mas me sinto muito mal com a idéia de fuzilar os vencidos; estes deveriam ser presos, julgados e muitos deles até anistiados, pois eram pobres-coitados que estavam recebendo ordens superiores para lutar contra a desestabilização da ditadura. Muito importante a distinção que Che faz: não estão dando um golpe militar, mas fazendo uma revolução. Nos EUA em 1964 através de inserções em preto e branco belíssimo, ouvimos Che declarar sem dó nem piedade que fuzilou sim várias pessoas e continuaria fazendo isto. 

Assim ao procurar mostrar os acontecimentos históricos e a personalidade que constitui Che, o distanciamento do diretor é mais do que necessário, pois ao deixar de fazer um filme exaltação (como é o maravilhoso “Soy Cuba”( 1964) de Mikhail Kalatozov, num outro contexto, em que isto faz sentido) faz-se a necessária diferença entre a visão de Che e a do diretor que não é necessariamente caudatário de todas as ações e falas do revolucionário. 

Uma seqüência simples e extraordinária resume o que é viver na ditadura de Fulgêncio Batista: trabalhando com o médico que é, ainda não nomeado comandante por Fidel, Che cuida de pessoas doentes e uma mulher aparece. Perguntando o que ela sentia, esta afirma que nada sente. Quando Che lhe pergunta então por que ela veio até ele, a mulher  responde algo deste teor: “Eu queria muito ver um médico. Nunca tinha visto um médico na minha vida antes”. 

Um dos grandes acertos do filme é colocar o espanhol com língua predominante, sendo que só ouvimos inglês quando Che está sendo entrevistado nos EUA. A captação da ambiência onde os fatos históricos se deram, seja no campo, florestas e cidades (com direito a potentes e convincentes descarrilamentos de trens) é excelente. Em matéria de olhar estrangeiro para uma realidade latino-americana estamos longe do fiasco de Billie August em “A Casa dos Espíritos” e Mike Newell em “ O Amor nos Tempos do Cólera”. 

O filme se desenvolve de uma forma fragmentada intercalando imagens de Cuba na época de Fulgêncio Batista, um encontro no México em 1954 para preparo da luta revolucionária, entrevista com Che nos EUA e ida à ONU em 1964, treinamento e lutas em Sierra Maestra e as investidas mais fortes nas cidades, onde soldados que serviam à Batista acabam se rendendo à força dos revolucionários, culminando com a tomada do poder em 1959, quando Batista refugiou-se em São Domingos. 

Steven Soderbergh com sua postura serena enquanto diretor corre o risco de desagradar tanto os fãs ardorosos de Che como aqueles que o odeiam.  No que me diz respeito, ainda mais agora que as crises do capitalismo estão se tornando cada vez mais agudas e algumas idéias de Che passam a ganhar mais sentido e atualidade, mesmo consciente que não se trata de um clássico do cinema político como “Queimada” e “A Batalha de Argel” de Gillo Pontecorvo, gosto muito do filme. 

Baseado em “Reminiscências da Guerra Revolucionária Cubana” escrito por Che Guevara, “Che- O Argentino” é uma peça fundamental para entendermos melhor os impasses tortuosos que a América Latina viveu e ainda vivencia. Quem se despir de preconceitos ferozes ou de idolatrias extremadas, tem diante de si um filme muito bom, um passaporte para outro universo, outra era, onde não havia o reinado de conformismo que nos paralisa e contamina, com poucas exceções. 

Nelson Rodrigues de Souza

links das imagens:

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quinta-feira, 2 de abril de 2009

Os Olhos Não Mentem- Um conto


Os Olhos Não Mentem

 

“De tanto não poder dizer

meus olhos deram de falar,

só falta você ouvir.”

Itamar Assunção/Alice Ruiz               

A rigor Ricardo desconhecia a razão de sua viagem. Sabia apenas que o movia a vontade de rever lugares por onde perambulara quando criança. Como tinha pesarosas recordações que se revezavam com as imagens mais cálidas, temia pelo balanço de perdas e danos que poderia fazer na volta. O certo é que já estava a sete horas viajando de ônibus e logo divisaria Piedade, uma pequena província intimidada, ofuscada pelas concorrentes bolinhas negras mais robustas do mapa. Os óculos escuros, a barba espessa e negra tornavam-no irreconhecível. Somente um fã mais radical, detalhista, descobriria naquele circunspeto cavalheiro, o famoso ator televisivo Ricardo Fernandes, que depois de uma trepidante e estressante fase de gravações finais de uma novela, viajava oculto para a cidade natal, sem objetivos mais palpáveis além de esquecer o burburinho da cidade grande, dado que os pais moravam agora em S. Paulo com os irmãos e os tios realmente chegados e queridos já faleceram. 

As saudades de Clóvis que ganhara uma bolsa e estudava temporariamente na Alemanha eram imensas. Por isso espantava-se com o fato de não ter viajado logo à Europa e preferido antes uma visita à sua pequenina Piedade. A certeza que tinha era que por um bom tempo não queria saber do Rio de Janeiro: tanto a paisagem urbana como as formas humanas haviam-no saturado. Os mesmos bares, as mesmas boates, os mesmos comentários ligeiros tais como “Você viu tal peça? Você viu tal filme? Você viu tal show?” provocavam-no engulhos. Só de lembrar-se que além da neurose de memorização de caudalosos textos teve que posar mais uma vez para certa imprensa “marron chic”, com parceira fictícia e casa emprestada por amigos, arrepiou-se. Os ossos do ofício estavam se tornando cada vez mais difíceis de roer... 

As incômodas lembranças recentes perderam o privilégio de ocupar-lhe a mente quando o ônibus ao percorrer sua última curva, tornou bem visível Piedade e suas extensas camadas de casas e os reduzidos edifícios que não arranhavam, simplesmente roçavam os céus. Ricardo acanhou-se com a enorme emoção que essa visão ainda lhe trazia. Envergonhou-se por se sentir ainda infantil, temeroso de enfrentar sozinho a apavorante imensidão da restrita cidadezinha. Ao pisar na cidade natal o primeiro impulso foi percorrer a rua principal que conduzia aos cinemas locais. Ao deparar-se com o templo evangélico onde outrora reinava o grande cinema Vera Cruz pensou ter-se equivocado. Não. Era ali mesmo em que se refugiava do mundo na adolescência. A saliva adquiriu sabores indesejáveis. O coração que batia já a trinta e sete anos intensificou as pulsações. Será que o Cine Ubirajara também estaria irremediavelmente banido da província? Não. Logo se aliviou ao vê-lo são e salvo, intocado. Tão satisfeito ficou em saber que o Ubirajara ainda respirava que não se incomodou com a hegemonia de filmes pornôs nos cartazes. 

Ao instalar-se no quarto do pequeno hotel, deitou-se e adormeceu sem descer para o café da manhã. Dormiu até que o sol do meio dia irrompeu no quarto por uma janela generosa e atingiu-lhe diretamente os olhos, abrindo-os prematuramente. Por um momento estranhou o ambiente, não atinou com a aventura que o trouxe até ali. Afinal decidira tudo num rompante tão rápido no dia anterior que ainda tinha a sensação de estar em casa, no Rio. Agora já estava em Piedade e como tinha de dar algum sentido à viagem, levantou-se. Após o almoço visitou a casa onde nasceu e tais foram as reformas nela efetuadas pelo novo proprietário que já estava irreconhecível. No fundo do quintal nem sinal da goiabeira em que no alto brincava sozinho inventando histórias de suspense com ganchos a serem esclarecidos no dia seguinte. Essa terna lembrança logo se dissipou quando contemplou a vizinhança. 

 Que teria sido feito daqueles garotos que tanto o atazanaram, o hostilizaram na infância? Aquele fim de tarde em que se viu envolvido numa primeira e suis-generis briga era uma lembrança ainda bastante recorrente. Naquele momento era como se ele estivesse vivendo novamente o conflito. Perturbado pelas insistentes e reiteradas insinuações de uma  trinca das redondezas que faziam da chacota o brinquedo predileto, Ricardinho nos seus dez anos surpreendentemente enfezou-se e investiu sobre os garotos com insuspeitada, inimaginável energia. Atuava-lhe no corpo uma força descomunal. Pelas veias não havia mais sangue. Só adrenalina. Os meninos espantaram-se em sentir como o outrora tão pacato, passivo alvo, agora se convertia em arma perigosa e tentaram intimidá-lo pela união. No auge da possessão o improvisado e precoce cão de palha desferiu seus golpes com mais garra e segurando um dos garotos pelos braços, girou-o e com os pés deste, em golpes certeiros, incrementou o infortúnio dos adversários até fazê-los correr. Boquiaberto, espantado com a coragem repentina que o tomou, afrouxou as mãos, permitiu que o prisioneiro se desvencilhasse e fosse se juntar aos parceiros fugitivos e ingratos. 

Alguns homens passavam por ali de volta ao trabalho, após a refeição e Ricardo olhou-os discretamente. Nos semblantes marcados, de rugas e dobras prematuras, tentou decifrar algum rosto conhecido. Em vão, pois não tinha a mais remota idéia de que pessoas se tratavam. Só se perguntasse. Mas se vencesse a timidez e os inquirisse alguém se lembraria de alguma coisa se já há dezenove anos aquela calçada não sentia o tremor de suas pernas? “Duílio sim deve lembrar-se de mim!” – pensou satisfeito, como se apenas agora esse nome lhe ocorresse. Duílio era outra imagem de sua vida, sempre recorrente, muito estimada, às vezes odiada, mas sempre reprimida. Na viagem mesmo lembrou-se de que poderia visitar o antigo amigo, mas achou a idéia ridícula. Juvenil. Mas agora em que se sentia um extraterrestre naquela cidade, o sentimento de solidão aguçou-se e não teve mais dúvidas de que deveria visitar o ex-colega de escola ainda que pressentisse perigo nestas recordações recorrentes que se confrontariam com uma prática imprevisível. 

Na viagem ao afeto de Duílio deparou-se com o jardim central da cidade todo fechado, cheio de grades. Tão satisfeito estava com a iminência de reencontrar o amigo que não quis meditar sobre as árvores e flores distantes, inacessíveis. O importante era que conforme notícias fornecidas pela mãe em S.Paulo, o amigo montara uma tabacaria na frente da casa e poderia ser visto àquela hora a não ser que estivesse à procura de algum cliente. 

Quando Duílio levantou os olhos escondidos por detrás das lentes espessas, abandonou imediatamente no chão as caixas que empilhava e dirigiu-se surpreso ao estranho que lhe parecia extremamente familiar e que lhe transmitia um caloroso e inquietante “Como vai Duílio? Não se lembra de mim?”. Ao retirar os óculos escuros o rosto do visitante abriu-se num sorriso que não mais deixou dúvidas. Os dois homenzarrões reconheceram-se como os adolescentes que foram e abraçaram-se, de início um tanto acanhados, mas logo o brilho satisfeito dos olhos colaborou para que os abraços se tornassem calorosos. “Vamos lá para casa! Já são três horas e hoje é sexta-feira. Eu posso fechar mais cedo!” Ricardo foi apresentado a Dulce e disfarçou como pode o dissabor de ser reconhecido como Ricardo Fernandes das novelas depois de algumas bem sucedidas horas de anonimato. Ainda que a mulher do amigo tenha se enfurnado na cozinha para o preparo de um café, os seus ouvidos permaneceram atentos a todas as novidades que os dois trocavam. 

 Ricardo discorreu sobre a dificuldade de arrumar trabalho logo que foi para o Rio de Janeiro após terminar a Escola de Arte Dramática da USP. Através de um amigo de um diretor administrativo de uma importante emissora conseguiu a chance de um teste e foi aceito para pequenas pontas. Duílio preparou-se para ouvir maiores detalhes sobre a trajetória profissional do amigo, mas logo se viu solicitado a falar de si. “Vamos falar de vocês! Eu estou aqui de volta a Piedade para esquecer-me um pouco do que ouço/leio sobre mim. O que você tem feito da vida? Vocês têm filhos?” – perguntou Ricardo um tanto nervoso, amplificando a sua curiosidade para não precisar falar de si. Ricardo disfarçou a decepção e enfado ao ouvir do amigo como montara com um sócio a distribuidora de cigarros após concluir o curso de administração. Ao inteirar-se que Sérgio, um rapaz já com seus dezesseis anos voltaria ao cair da tarde do colégio, o espírito do visitante viu-se tocado e excitado pela novidade. 

 Enquanto a máscara facial de Ricardo era pródiga em amabilidades com a atenção que lhes dispensavam, ele sorveu o café ansioso e trincou as bolachas com indelicado estrépito como sinais denunciadores do estado de ebulição em que se encontrava. O casal comentava cenas da última novela, mas Ricardo viajava num profundo alheamento. O ator representava para não incomodar os anfitriões com o fato de não se conformar com a “vida besta” ali encontrada. Em sua mente umas perguntas fixas agitavam-se como símios na jaula: “Esse é o meu amigo Duílio que estudou para tantas provas comigo, que quase sempre olhou para mim carinhosamente, acanhado e que apenas por um triz não quebrou o invólucro repressor que tornava nossa relação apenas platônica, apenas feitas de gestos, vontades encobertas, olhares esquivos e cuidados sutis? Duílio por que você permitiu que lhe transformassem nessa pessoa obesa, de olhos mal dormidos e escuros, “fútil cotidiano, tributável”? Duílio você era tão bonito, eu mais olhava nas aulas para você do que para a lousa...Por que Duílio essa capitulação? Se ao menos soubesse que era essa mesma a sua vontade... que não lhe empurraram conforme quiseram fazer comigo... Mas Duílio por quê? Você era muito mais talentoso do que eu. Eu sempre lhe invejei. Aprendi tanto com você...Como é que isso aconteceu?... Eu não me conformo Duílio! E você me olha assim apalermado e essa sua mulher me contempla fascinada porque assim como você deve desprezá-la por ter permitido que você a transformasse nessa desgrenhada, amarfanhada motorista de fogão, ela deve entediar-se com a sua aspereza, com o seu ar de brutamontes. Mas Duílio que peça é essa que lhe destinaram? Você merecia um papel mais gratificante Duílio! Você merecia! Nós merecíamos, Duílio! Por que nos faltou a coragem Duílio? Duílio eu me sinto culpado!... Eu fiquei preocupado tanto em fugir da arapuca em que queriam me meter que mal me despedi de você e fugi para São Paulo!... Você  sempre foi mais forte, determinado, do que eu... O que aconteceu Duílio?” 

Duílio, intuindo que as observações da mulher aborrecia o visitante, como que atendendo ao telepático chamado, convidou o amigo para abandonar o hotel e ficar no quarto de hóspedes. O ator hesitou, mas acabou aceitando. Terminado o lanche o ator manifestou interesse em visitar a escola em que estudou. Pretendia observá-la por dentro, antes de fecharem-na. A chegada do sócio de Duílio para discutirem a oportunidade de um alarme contra-roubos nas kombis deixou Ricardo aliviado,  pois poderia espairecer sozinho pelas estreitas ruas da região. Dado a proximidade da escola caminhou muito bem a pé, surpreendendo-se com a profusão de paralelepípedos onde outrora reinavam os mais desconcertantes lodaçais ou a mais deletéria dança das poeiras. Ao explicar-se com o porteiro que era ex-aluno do Instituto Wasghinton Luís, nostálgico, este velho senhor de proeminentes bochechas e olhares desconfiados, acabou assentindo que o estranho entrasse pátio adentro, sem que este precisasse se valer do álibi da celebridade. Ricardo envergonhou-se ao descobrir-se decepcionado por não ter sido reconhecido. “Mas como? O filho pródigo retorna e ninguém toma conhecimento?” – observou com seus botões, sorridente. 

 Já era quinze para as cinco e logo as crianças e os rapazes desabariam pelos corredores como uma manada incontrolável e ainda que já tivesse percorrido todas as ramificações da escola, resolveu sentar num banquinho para não perder o espetáculo das cinco. “Essas crianças são sempre danadas!” – pensava o ator numa pose digna de Hamlet.  “No meu tempo de escola elas já sentiam que eu tinha uma aura diferente e me chamavam de Terezinha sem que eu tivesse dado nenhum motivo palpável...” Ricardo lembrou-se das inumeráveis vezes em que reagiu com impropérios: “Terezinha é a mãe!”. Mas cedo compreendeu que não adiantava brigas. A corrente da infâmia na escola toda era poderosíssima para que o apelido ganho se propagasse até o final do colegial. O assustado e acuado ser enlouqueceria se reagisse sempre e não encarasse com esportiva o fato. Desde que se referissem a ele como o “Terezinha” ela já se dava por satisfeito. Mas se a mágoa com a crueldade das crianças se desvaneceu razoavelmente com o tempo por sabê-las sinceras e perspicazes em suas maldosas intuições, um episódio desencadeado pelo maquiavelismo do jovem Geraldão, que contou com a cumplicidade inclusive de Duílio, lhe deixou marcas profundas. 

Sentado ali, observando a algazarra dos rebentos em suas vertiginosas fugas para o fim de semana, Ricardo não pode deixar de lembrar-se daquela tarde dos seus dezesseis anos em que à saída do colégio caminhando com Duílio numa viela próxima, fora cercado por Geraldão e seus asseclas e em meio a uma saraivada de assobios, gritinhos e risos marotos foi colocado dentro de um carro e conduzido para um destino ignorado. O que mais decepcionou Ricardo foi observar pelo vidro que o companheiro também ria junto aos demais. Tinha sido cúmplice e o conduzira para uma cilada. Quando Miriam recebeu-o na casa de cômodos escuros e lúgubres de enormes teias de aranha pendentes e sob a excitação dos cinco seqüestradores pediu-lhe que a acompanhasse, pois nada de mal lhe aconteceria, “muito pelo contrário,uma coisa muito gostosa”, Ricardo acompanhou-a aterrado. Ciente de que os garotos esperavam-no para colher  um depoimento revelador, o ator representou o primeiro papel de sua vida como um canastrão até que passável. Miriam fez um sinal positivo aos rapazes e estes o batizaram com um borbulhante banho de cerveja. 

Naquele dia em que deitou sobre o corpo plácido de Miriam sem nenhuma emoção mais nobre que a raiva e a vergonha, fazendo o papel de “macho” mecanicamente, Ricardo teve certeza de que o caminho que queria para si divergia radicalmente da expectativa que nutriam por ele.  Por algum tempo a greve de silêncio abateu-se sobre os amigos. Duílio percebeu que se não tomasse a iniciativa o parceiro jamais lhe dirigiria a palavra e procurou-o.Desculpou-se alegando que os rapazes ameaçaram um seqüestro mais audacioso se não colaborasse e iniciariam uma campanha para rotulá-lo como namoradinhos da escola, de tal forma que não teve alternativa senão corroborar com o trote. No momento dessa revelação Ricardo esteve a ponto de virar-se do avesso, mostrar-se por inteiro ao parceiro e conclamá-lo à quebra das formalidades. 

Sentado no banco, já com a escola vazia, Ricardo reviveu as emoções do momento e lamentou que o nó do destino não tivesse sido ali desatado. Foi a grade chance perdida. E já entrava em considerações do tipo “o que teria sido de nós se...” quando o porteiro interpelou-o, pois precisava fechar a escola. 

Estando quite com o hotel o ator voltou para a casa do anfitrião onde o encontrou no banho. Convidado a entrar no banheiro, pelo espelho Ricardo observou os contornos esboçados por detrás do box e um alvoroço tomou-lhe  conta. Espremeu alguns cravos nervosamente, mas a prazerosa agonia não o abandonava. Ao ver o amigo nu em pelo, enxugando-se com a toalha felpuda, sem pudores, o ator não se satisfez com a limitação do campo visual do espelho e virou-se com descuidada discrição. Contemplou o corpo nu de baixo à cima e arriscou olhares mais indiscretos sob o pênis grande e bem torneado, enquanto falava compulsivamente da emoção que o acometeu na ida ao colégio. Quando Duílio levantou a cabeça, já enxuto e encarou o amigo, este já havia se recomposto e até arriscou um comentário de que o outro deveria fazer uma ginástica para perder as dobras salientes, principalmente a pronunciada barriga que o comerciante reconheceu dever-se a intermináveis noitadas de chope. Enquanto Duílio aparava a barba, Ricardo despiu-se para o banho e apesar de estar aguçado para detectar que emoção estampava-se no rosto do amigo deteve o ímpeto. Ricardo sabia que a cara do amigo, estava coberta de creme, mas tinha fé que os olhos não mentissem. Ao perguntar sobre a toalha que deveria utilizar, os olhares se cruzaram e o brilho no olhar do amigo pareceu-lhe especial. ”Esse é o Duílio que conheci! Eu tenho certeza! Está um pouco acabado mais ainda tem o seu encanto”. Miragem ou não, o fato é que aquele momento repercutiu intensamente no espírito do ator deixando-o embevecido e com uma esperança louca, uma alegria indescritível que só amainou quando, culpado, lembrou-se do amante Clóvis enfurnado na Universidade alemã. 

Um pouco antes do jantar a família do amigo completou-se de tal forma que o encanto e o êxtase se renovaram. Ricardo sentiu-se hipnotizado pela invulgar aparição: o jovem Sérgio na flor dos dezesseis anos, com ligeiros traços da mãe e predominância dos caracteres fortes do pai. Era o jovem Duílio do ultimo ano do colégio, após o qual se separaram, que estava ali redimido, cintilante, com o largo sorriso e a mesma petulância. Às vezes discretamente, outras nem tanto, Ricardo examinou o rapaz com a volúpia de um aficionado da pintura. A combinação de cores, o frescor, a suavidade e graça dos contornos, o ar ao mesmo tempo inocente e malicioso, o porte altivo, eloqüente, faziam do rapaz um homenzinho tal que o hóspede, ainda nos afetivos paralelismo, viu-se especialmente maravilhado, tocado por um punhal prazeroso, brilhantemente doce.  Sérgio encontrou a oportunidade de saber detalhes dos bastidores da televisão. Todo o retraimento que o visitante  manifestou em revelar maiores detalhes de sua vida profissional e afetiva, caiu por terra diante da euforia do rapaz. 

Encerrado o jantar enquanto Duílio resolvia questões de trabalho com o sócio ao telefone, Dulce recolhia a louça para lavar, insinuando indiferença, mas atenta aos detalhes revelados pelo ator ao rapaz, detalhes que a intrigaram também, mas sentia vergonha de sondá-los. Histórias pitorescas como a da atriz que quebrou objetos de cena muito mais do que deveria e teve que ser contida pelos seguranças, como a outra que se vingou dele por tê-la desprezado dando-lhe um tapa em cena mais do que real e tendo um palavrão como resposta, inutilizando a tomada, ou ainda histórias mais sérias como nas brigas com colegas que só liam a parte que lhes cabia no script e contracenavam mais com a câmera do que com ele mesmo, perturbando o seu desempenho, induzindo-o também ao monólogo, deixando-o furioso e outras pérolas de maior quilate, fizeram a delícia da noite de sexta-feira, não só do jovem estudante como dos pais que se juntaram à animada dupla. Questionado agora por Dulce sobre a razão de não ter se casado o ator discorreu sobre a vida atribulada que levava e a dificuldade em manter relacionamentos estáveis. “mas eu li que você ia se casar, montou até apartamento na Barra...” – insistiu a senhora. Ricardo titubeou um pouco mais logo as qualidades de ator prevaleceram: “Realmente D. Dulce. Estava tudo certo. Mas não é que a Heloneida recebeu uma proposta irrecusável de Nova York como modelo e acabou desmanchando tudo! Eu fiquei arrasado, nem sempre as mulheres da cidade grande têm a formação que as mulheres daqui de província tem...” Ricardo riu-se por dentro, da ultima observação. Realmente, apesar do cinismo a observação para ele era válida. Só que preferia as que se libertavam dos laços econômicos do parceiro como a hipotética Heloneida e não a inquiridora com a qual insinuava uma falsa simpatia por diplomacia. 

Sérgio lembrou ao pai que podiam muito bem levar o visitante para passear à noite pela cidade. Piedade já não era a mesma de dezenove anos atrás. Crescera bastante. Poderia trazer algumas surpresas. Convidada, Dulce alegou que não ficava bem participar dessa algazarra de homens ainda que branda. Vendo-os saírem satisfeitos, arrependeu-se, mas se conteve.           

Realmente Piedade apresentava algumas novas áreas de interesse. Não muitas. A urbanização dos bairros residenciais se intensificara. O festival de antenas salientes nos telhados impressionou-o.  “Será que essas pessoas todas me vêem na televisão? Será que muitos ainda se lembram de mim? E Geraldão que fim levou?” – não pode deixar de pensar Ricardo, enquanto percorria a cidade por trilhas originais. O contemporâneo cicerone Duílio achou-o excessivamente introspectivo e instigou-o: “Que está achando da sua velha Piedade? Não tem o apelo do Rio, mas para quem quer levar uma vida pacata como a gente, nossa cidade até que já está muito avançada: o que tem de ladrões não está no gibi! Eu e meu sócio já fomos assaltados quatro vezes!” O ator achou graça e se esclareceu: “Estive pensando nas pessoas do colégio. Que fim levaram? Aquele tal Geraldo, o Luiz Sérgio, a baronesa...”. “Eu perdi o contato com todos. O único do qual tenho notícias é do Geraldão. Mas porque li uma matéria no “Diário de Piedade”. Ele esteve envolvido num assalto. Está sendo procurado!” – discorreu Duílio, retraindo-se também um pouco, envergonhado, pois se lembrou da cumplicidade do seqüestro. Ricardo regozijou-se pela vingança armada pelas contingências da vida, mas logo se amofinou, vexado com a própria mesquinhez. Sérgio quebrou o gelo instaurado apontando um ou outro travesti que perambulava pelas calçadas. Ricardo alvoroçou-se com as imagens. “Piedade está evoluindo realmente...” – pensou consigo. Uma freada brusca na rua estreita assustou a todos. “Vê como anda, seu cavalo!” – gritou Duílio com as têmporas quentes. O motorista parou o carro transgressor e desceu com o companheiro. “Cavalo é a mãe! – revidou. Duílio insistiu nos desaforos. Ricardo exasperou-se. “Pelo amor de Deus Duílio, deixe esses caras com suas carrancas para trás! Vamos embora! Não vamos fazer o jogo deles”. Enquanto os estranhos bufavam e esboçavam um avanço para abrir a porta do motorista, Duílio meditava e acabou por fim atendendo o pedido do ator. O carro foi acelerado, dobrou a esquina e abandonou os desafiantes que proferiram palavrões a se diluírem no vento. “Eu deixei esses safados de lado porque temi pelo Serginho. Meu filho é muito novo para enfrentar esses malandros!” 

Ricardo falou um tanto timidamente sobre a necessidade de auto-afirmação que as pessoas sentem. Teve vontade de rechaçar idéias que considerava machistas, hesitou por medo de comprometer-se, mas lembrando-se que até mesmo Serginho poderia ter tido a cabeça aberta pela fúria dos modernos cowboys se expôs : “Honestamente, eu já vivi bastante para ter certeza que é de uma mediocridade de espírito sem precedentes esses arroubos e desafios!”  Sentindo o mal-estar induzido em Duílio pela crítica direta, tratou de carregar as baterias contra os estranhos: “Aqueles dois cretinos devem levar uma vida tão mesquinha, sem horizontes, que situações como essa de que nos livramos lhes fazem sentirem-se vivos! O machismo, a eterna disponibilidade para a violência é o que permite que eles não sucumbam ao tédio. Na maneira besta deles de levarem a vida, esse é o único e desesperado ponto de apoio para orgulho que encontram. ( Eu sou é muito homem! Eu faço e aconteço! – não é o que dizem?). No fundo mais que raiva eles me dão pena!” Após terminar o seu discurso, Ricardo assustou-se com as mágoas adormecidas que lhe subiram a cabeça. Diante do ar estupefato dos acompanhantes calou-se com uma ponta de arrependimento pela ousadia. Logo se sentiu bem e de certa forma purificado, satisfeito com os demônios que soltara, apesar de sentir um vulcão prestes a derramar suas lavas de contrariedades dentro do espírito silencioso e ressentido de Duílio. Este motorista limitou-se a declarar, um tanto receoso de melindrar o hóspede, que “o pior mesmo é levar desaforos para casa!”. 

Dulce entornou a xícara de café na manhã de sábado quando Serginho repetiu pela segunda vez que no ano seguinte iria estudar no Rio de Janeiro não sabia bem o quê. Dado que terminaria naquele ano o colégio, prestaria exames vestibulares no final do ano. Estava em dúvida entre Jornalismo, Teatro ou Cinema, mas até a época das inscrições tomaria uma decisão. Perguntado se o orientaria no Rio, Ricardo mesmo constrangido pelos olhares indóceis dos pais aquiesceu. A mãe reagiu, ponderando os termos empregados, mas com um visível traço de histeria: “ O que é isso, rapazinho? Quem é que vai bancar a sua estadia por lá? O Rio de Janeiro, as faculdades, é tudo caríssimo. Você sabe que os negócios do seu pai já não andam tão bem como antes... e agora não é hora de discutirmos isso”. Ricardo quis logo adiantar que ajudaria o rapaz como pudesse, dando guarida e até ajuda econômica, mas achou melhor os ânimos acalmarem-se um bocadinho. Aquele não era o momento adequado para revelar-se como um mecenas. Duílio lembrou ao rapaz que eles já haviam conversado sobre as vantagens dele estudar Economia na cidade natal. Sérgio engoliu em seco a vontade de responder de forma intempestiva,  mas calou também os sentimentos pelo pudor de ser ainda mais repreendido diante da visita ilustre. 

 Refestelados no sofá da sala, diante de um sepulcral silêncio o ator sentiu-se na obrigação de tornar o ambiente acalorado ainda que corresse o risco de torná-lo mais glacial. “Eu tenho certo prestígio na emissora, mas não posso me comparar aos medalhões. Mas enquanto estiver empregado poderei ajudar o rapaz. O importante é que ele tenha vontade de estudar. Seja o que for!”. Duílio não se deu conta de que um exarcebado ciúme moldava-lhe o raciocínio e respondeu num tom rascante, sibilando as exaltadas palavras: “Eu agradeço, mas o rapaz ainda é muito novo para decidir o que fazer da vida. Você deve lembrar-se como delirávamos na nossa adolescência com os planos mais exóticos!” “Serginho eu quero que você faça umas compras pra mim. Estas discussões me fizeram esquecer o almoço!” – insistiu a prestimosa mãe, afastando o pomo da discórdia, pelo menos naquela manhã. 

Foi difícil para Ricardo encontrar um momento em que pudesse conversar a sós com o rapaz sem os olhos vigilantes, os ouvidos apurados da mãe e a presença sempre intimidadora do pai. Por alguns minutos preciosos em que o sócio discutia encomendas com Duílio e Dulce entretinha-se com as labaredas benignas do forno, os dois conseguiram um intervalo em que pudessem se mostrar mais por inteiro. O ator tinha curiosidade em saber até que ponto sua presença ali desencadeava essas vontades do rapaz e foi incisivo: “O que está realmente lhe atraindo no Rio de Janeiro? Você tem manifestado interesse nestas áreas que mencionou? “ Sérgio reagiu, um tanto abobado, com um previsível “como assim?” “Você gosta de ler jornais, livros revistas?” – inquiriu Ricardo apreensivo pois já tinha observado a ausência de uma biblioteca por pequena que fosse naquela casa. “Ah! Eu gosto sim! Eu costumo ir muito à biblioteca local. Eu quase não apareço com muitos livros aqui em casa porque os pais vivem me chateando que eu estou perdendo tempo...” “E o que você costuma ler?”. “Olha só o que eu estou lendo...” Serginho abriu a pasta e entre os cadernos e os livros didáticos retirou “Crônica do Amor Louco” de Charles Bukovski. O interesse de Ricardo em saber o que exatamente estava atraindo o rapaz neste livro foi frustrado pela insistência de Duílio para que viessem tomar um aperitivo antes de almoçarem. 

Num passeio solitário pelas ruas, vielas e praças da cidade Ricardo imaginou-se como se fosse o mais novo morador, alguém que veio pra ficar. Que laços atávicos ou dissimuladas raízes o prenderiam ali? O que restou daquele garoto medroso, hostilizado, difamado, que a todos intrigava com o seu mutismo dominante, somente combalido por uma calculada extroversão? Entre perdas e danos Piedade ainda despertava-lhe saudades? Não divisava uma resposta que lhe satisfizesse. Tinha apenas certeza de que se estava enfastiado da neurose do balneário carioca, agora já não mais se aclimatava à “êta vida besta!” que ali na província levavam. Se houvesse ficado na cidade como seria conhecido? Terezinha, a bichinha da Rua das Mercedes? 

Examinando os rostos sóbrios que perambulavam pelas calçadas tentou o reconhecimento de “companheiros de viadagens” pelas piscadelas cintilantes de olhos, mas foi em vão o esforço. Se não risse sozinho por algum tempo do trocadilho que ocorreu no momento, talvez o amargor lhe fosse mais imediato e pungente ao descobrir-se inapelavelmente sozinho naquela localidade. Até o momento só notara como destoantes apenas os assumidamente mal-ditos e vistos travestis. “Mas onde andam os homossexuais como eu? Em que casulos se escondem, em que fortalezas se resguardam da maledicência alheia?” – indagou-se o turista angustiado e deslocado. Sem vontade de voltar para a casa que o acolheu por sentir que o apoio dado ao rapaz despertara melindrosas contrariedades, considerou que aquele era um bom momento para refugiar-se no cinema, como nos velhos tempos. 

 “Bom Apetite” era o filme pornô exibido, o único representante da cinematografia mundial na cidade. A ele pois ! Entre um bocejo e outro, Ricardo ainda se concentrava nos perfis atléticos dos rapazes com seus indomáveis falos. Quando a paisagem erótica adquiria ares de operação ginecológica, o sensível cavalheiro fechava os olhos, recriminava-se por ter se atrevido a entrar, mas não se decidia a sair. A sessão era um flagelo que se impôs para ter certeza de que ali realmente não era mais o seu lugar e que deveria voltar para a “doce vida” da metrópole tão logo quanto pudesse. 

Um pouco antes de bater na porta, Ricardo já recebeu ecos de uma inflamada contenda travada na família. O calor das cobranças e recriminações era tal que o hóspede sentiu-se tímido para entrar. Ao ouvir o seu nome incluído nas lamentações postou-se perto da grade da janela, camuflado por um generoso arranjo de samambaias. Duílio era quem mais se exaltava: “Bastou vir uma pessoa de fora que você logo se assanhou... Ir morar no Rio com ajuda de estranhos!... Tem cabimento uma coisa dessas? Olha aqui rapazinho, entenda de uma vez por todas: Ricardo foi muito meu amigo, mas hoje não é companhia para você.! “ Mas por que pai? Que preconceito bobo!...” 

O pai encarou a mulher e o filho, titubeando, com receio de se expressar. Quando retornou à reprimenda, Sérgio assustou-se com a veemência das argumentações. Dulce dispôs-se ao lado do marido para reforçar o efeito. “Você já está bem grandinho rapaz e já deve compreender toda a maldade deste mundo. Eu tenho todas as razões para acreditar que o Ricardo não é um homem como eu e você. Eu não ponho a mão no fogo por ele! Ele pra mim é bicha! Bicha! Entendeu o perigo?!” “Eu não acredito!” – reagiu o rapaz. “Só o jeito como ele me olhou no banho ontem e esse papo covarde que ele levou no carro já são sinais mais do que evidentes... e eu não quero meu filho guiado por esse tipo de gente...”- contra-atacou um pai já em desespero. 

Encurralado pelos argumentos do pai, Sérgio não se conformou com os empecilhos colocados nos planos traçados. A frustração dos desejos despertou-lhe ressentimentos encobertos: “Vocês estão inventando essa história toda porque não querem que eu os deixe sozinhos! É uma apelação! Mais eu juro! Eu vou de qualquer jeito! Arrumo um emprego, sei lá ... Eu não vou é me acabar nesta cidadezinha enfadonha! Eu não quero ficar por aqui vendendo cigarros e tendo que subornar, dar uma graninha para os fiscais para tudo correr bem...” 

Duílio ficou pasmo com o avanço crítico do filho. Dulce aplicou o clássico “você não pode falar com seu pai desse jeito rapaz!”.O pai tratou de defender-se: “Olha aqui rapaz, no colégio os comentários sobre o jeito extravagante do Ricardo eram gerais. Até sobrava pra mim. Eu não estou mentindo! Não sou homem de mentir não!... Quanto ao dinheiro que dou para os fiscais não me amolarem eu não me arrependo, entendeu! Não é nada comparável à roubalheira, à corrupção, aos crimes que tem por aí. Eu não vou permitir que o dinheiro ganho com o suor do meu rosto vá cair nas mãos desses políticos para eles desperdiçarem ou roubarem!È uma questão de justiça!” “Você conseguiu estragar o sábado do seu pai, se é isso que você queria, não é Serginho?” – colaborou Dulce com os olhos ameaçando avermelharem-se. Sérgio ainda conseguiu surpreendê-los: “Eu não estou inteiramente convencido! Esse Ricardo me pareceu boa praça. Deixem comigo que eu sei como testá-lo!” Ante o aturdimento dos pais, Serginho explicou-se melhor: “Não vai ser nenhum teste de cama não, não se preocupem! Eu sei como descobrir a verdade, sutilmente... Deixem comigo...” 

Ricardo afastou-se até o bar da esquina para meditar sobre que atitudes tomar. Por pouco não entrou na casa e sacudiu a todos contando a verdade e garantindo que suas intenções eram de simplesmente ajudar o rapaz. Não acreditou, entretanto, que o casal se sensibilizaria com a sua sinceridade e recuou. Além do mais se a notícia de sua homossexualidade se espalhasse pela cidade logo ressoaria no Rio de Janeiro. “Mesmo esses diários interioranos tem suas cobras criadas bem relacionadas “ – concluiu com um riso nervoso. Como a passagem de volta, no domingo à tarde já estava comprada achou por bem voltar para enfrentar as feras como se nada houvesse acontecido, mas com cuidados, até que a hora da nova fuga chegasse. 

O jantar transcorreu silencioso, reinando apenas as poucas palavras de praxe para o transporte das travessas, a distribuição dos pratinhos de doce... Sentados no sofá da sala, a família reunida entretinha-se com a novela, enquanto o ilustre visitante constrangido num canto, queria viajar de volta imediatamente ao útero materno tal qual o escritor bêbado do livro que folheava, emprestado do rapaz. Entre um parágrafo e outro arriscou umas olhadelas para a novela para ver se aparecia no seu papel de galã. Quando o seu personagem mergulhou num fervoroso beijo com sua amada não resistiu e olhou discretamente para a trinca no afã de colher suas reações. Como que por um pacto os três pouco se alteraram. Dulce mordeu-se, mas não fez comentário. Por alguns momentos ela acreditou que comungara com uma injustiça. Teve vontade de perguntar no ato ao marido se ele tinha certeza de tudo que declarou, mas absteve-se. 

Terminada a novela Sérgio chamou Ricardo para o quarto com o pretexto de mostrar-lhe os retratos da família. Estivera pesquisando naquela tarde e descobrira inclusive fotos do ator quando adolescente e criança. Ricardo acometeu-se de um misto de excitação e pânico. Sabia que lhe preparavam alguma cilada, mas não só não queria despertar suspeitas como se interessou vivamente pelas velhas lembranças. Após alguns momentos de tênue emoção diante dos retratos de turmas, inclusive flagrantes dele e de Duílio no fundo da classe e no pátio da escola, Ricardo acompanhou de soslaio Sérgio abrindo um gavetão embutido na cama e retirando uma pilha de revistas masculinas. “O que você acha dessa gata aqui? Em Ipanema deve haver dessas de montão, não é mesmo? “  Ricardo intimidou-se. Sérgio insistiu: “Deve haver um bocado de mulheres assim dando sopa para você, não é mesmo? E desse tipo aqui , você gosta? O que lhe atrai mais numa mulher?” O rosto do ator corou imediatamente. Por questão de segundos ele se viu esmurrando o garoto não uma, mas duas, três vezes. Escutou os gritos do rapaz e os passos do pai que veio em socorro do filho. Imaginou-se segurando Serginho pelas mãos e girando-o até desfalecer, como uma arma potente a sangrar com a força dos pés o rosto e o peito do pai. Imaginou não só a mãe berrando diante do rebento estirado no chão como o jornal da televisão anunciando no horário nobre o crime do ator homossexual Ricardo Fernandes na sua cidadezinha natal....”O que lhe atrai mais numa mulher?” – insistiu o rapaz. 

Ricardo recompôs-se e executou um convincente improviso com sua verve de ator, ainda que um pouco fora de forma. Esmerou-se na composição da cara safada, piscou os olhos e incorporou um novo personagem para a ocasião:  “Sabe rapaz, eu gosto mesmo é dessas que tem umas coxas deste tamanho! Agora, um traseiro bem grandinho, rechonchudo, uns peitinhos arrebitados são fundamentais!”  E para encerrar carregou no jeito malandro: “uma buceta gostosinha, ardente,com os pelinhos aparados também é imprescindível!” 

Sérgio confundiu-se com a postura do ator. Ensaiou perguntas mais claras, mas Ricardo tomou a dianteira: “Sabe rapaz, eu tinha me oferecido para ajudar você lá no Rio mas pensando bem eu acho que não fica bem mesmo para os seus pais  eu ajudá-lo. Eles vão se sentir frustrados nos seus esforços. Eu me precipitei, você me desculpe!” Ricardo encerrou o seu comentário sem saber até que ponto expressava realmente a sua  opinião ou ainda estava sob os eflúvios do personagem incorporado. 

As despedidas da tarde de domingo foram frias, protocolares. Os tímidos apertos de mãos e comedidos abraços encerraram a inesperada visita do venerável cavalheiro. Observando por uma janela lateral do ônibus, no alto da serra, como a cidade e suas casinhas se tornaram diminutas, perdendo-se, confundindo-se com a mata densa das montanhas, Ricardo, com óculos escuros, disfarçado, entendeu melhor a razão de sua vinda, o porquê do seu amor e ódio à Piedade: “Eu esperava que Piedade fosse para mim um refúgio, um lenitivo para o corre-corre do Rio, mas a vontade de vingança foi maior, sobrepujou a necessidade de carinho... Vingança... Vingança... Que bobagem, o tempo esse nosso mais feroz adversário, se adiantou e vingou-se por mim, levando-nos de roldão. O tempo realizou seu intento, eu não. Como poderia me vingar deles se minha alma, como todas, cariocas ou “piedosas”, se tornou também provinciana, não importando aonde eu vá! Mesmo ao seu lado,  na Alemanha, aonde vou, meu adorado Clóvis!...” 

Nelson Rodrigues de Souza

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