quarta-feira, 21 de julho de 2010

A Boa Educação, Um Conto Inédito de Victor Hugo Pereira e Pontuações Correlatas




A Argentina neste mês de julho de 2010 avançou bastante na questão dos direitos humanos do pessoal GLBT (Gays,Lésbicas,Bissexuais,Travestis e Transgêneros) com a aprovação pelo Senado do casamento gay. A proposta tem o apoio da presidente Cristina Kirchner. A Igreja Católica, evangélicos, muçulmanos, judeus, etc estão se mobilizando para deter este avanço.

O país é majoritariamente católico. Torço para que os religiosos fundamentalistas desta religião e outras não ponham a perder esta grande conquista. Uma juíza declarou que por convicções religiosas de que o homoerotismo é uma prática que vai contra as diretrizes de Deus (sic), ela não obedeceria a esta lei. Uma juíza que diz isto deve ser afastada do cargo.

E no Brasil hein? Há projetos relativos ao casamento gay, adoção de crianças/adolescentes por casais homossexuais, criminalização da homofobia explícita (o Brasil é o país onde matam mais pessoas por homofobia no mundo, segundo dados do pesquisador Luis Mott, professor universitário e presidente do grupo gay da Bahia). E nada acontece na prática neste sentido.

O presidente Lula para não desagradar a Igreja Católica e também sua enorme base evangélica não se pronuncia sobre o assunto com clareza e não toma nenhuma atitude neste sentido como Cristina tomou. O congresso é o que vemos: novos escândalos substituem os velhos escândalos. Não tenho esperança de que este congresso que aí está discuta e aprove leis desejadas pelos grupos GLBTs que favoreceriam, tirariam da marginalidade um contingente imenso de homossexuais que o país tem, que trabalha, paga seus impostos direitinho, mas tem seus direitos básicos de cidadania rejeitados, vilipendiados.

Os altos eclesiastas de Roma e seus representantes pelo mundo afora (como Dom Eugênio Sales) e principalmente o papa Bento XVI não param de fazer declarações francamente homofóbicas que podem fazer a cabeça de seus fiéis com efeitos bem daninhos. Enquanto isto, escândalos sobre pedofilia na Igreja Católica pipocam por toda parte ao ponto do papa vir a público pedir perdão por estes pecados como se isto resolvesse o grave problema.

Dom Eugênio Sales certa vez chegou ao disparate de escrever que a AIDS era um castigo que Deus impingia aos homossexuais praticantes!(sic). Este Deus de Eugênio além de ser muito cruel seria muito burro, pois discriminaria os homossexuais masculinos e privilegiaria as relações lésbicas, que a rigor, são mais seguras, excetuadas certas práticas sexuais possíveis entre elas.

Pra mim, uma das razões da pedofilia na Igreja Católica é o celibato obrigatório. Sabemos que isto surgiu historicamente porque esta Igreja (a maior multinacional de todos os tempos, resistente e forte até hoje) nunca quis que sua enorme riqueza se dispersasse entre herdeiros. Mas conforme diz Millôr Fernandes “ a maior forma de perversão sexual é a abstinência sexual”. Dado a forma como se constitui a Igreja, estes escândalos não me surpreendem e acredito que na prática sejam muito mais numerosos do que os jornais conseguem descobrir. Vemos apenas a ponta do iceberg.

Pedro Almodóvar, dentre outros temas, trata em “Má Educação” ( La Mala Educación/2004) da pedofilia num internato católico espanhol. A cena em que o padre toca violão e o menino canta “Moon River” de Johnny Mercer/Henry Mancini é uma das mais perturbadoras e perversas seqüencias do Cinema. O padre ouve o menino cantar, embevecido. E o espectador tem adiantado com muita sutileza o que virá depois.

Na Bíblia há trechos que se contradizem. Enquanto se mostra o amor de Jônatas e David, há o famigerado “Não deitarás com homens como se mulheres fossem”. Eu então pergunto: e daí? A Bíblia é Literatura como qualquer outra e Literatura sabemos nós está sujeita a muitas interpretações. Foi um livro escrito anos depois dos acontecimentos ocorridos (se é que ocorreram...) e está sujeita às idiossincrasias dos evangelistas que a escreveram.

Certa vez comprei a Bíblia da Editora Vozes para ler. Logo no prefácio um padre alertava que estava vedado interpretações que diferissem das doutrinas que a Igreja Católica prega. Ora bolas! Até nossos pensamentos e visões particulares querem controlar! Confesso que não gostei do livro enquanto Literatura. O estilo é empolado demais. Entusiasmado com o filme “O Evangelho Segundo São Mateus” de Píer Paolo Pasolini, o que li da Bíblia com maior atenção foi justamente este evangelho. Dele guardo a belíssima frase que não mais esqueço: “Sede prudente como as serpentes e leve como as pombas”.

Todo estado deve ser laico. A vida das pessoas não pode ser obrigatoriamente pautada pelo que pensam os religiosos. Isto leva as sociedades, mesmo democráticas, para o desastre. O Brasil se perguntarmos a Lula, Dilma, Serra, Marina é considerado um país laico, mas na prática não é. A Igreja Católica e os evangélicos detêm bastante poder sobre a sociedade brasileira com eleitores fiéis o que é lamentável. No documentário “Vocação do Poder”de Eduardo Escorel e José Joffily(2005) a candidata a vereador mais despreparada era a evangélica. Não apresenta nenhuma idéia política consistente. Para ela quando eleita, Deus a iluminaria e então ela saberia o que fazer! (sic).E foi uma das eleitas!

De minha parte o que posso dizer é que mesmo que a Bíblia fosse notoriamente homofóbica de cabo a rabo, eu jamais deixaria de vivenciar na prática minha condição de homossexual. Minha vida, saúde física e mental valem zilhõe de vezes mais do que qualquer livro tido como sagrado. Sagrado para quem, cara pálida? Bertrand Russel tem um livro também fundamental: “Porque Não Sou Cristão”. Não comungo do ateísmo de Bertrand, mas considero suas idéias expostas ali num debate com um religioso, fundamentais como ponto de partida para discutirmos religião.

Uma obra-prima da literatura universal que recomendo entusiasticamente a todos é o romance histórico “Juliano” de Gore Vidal (Editora Rocco). O livro é narrado pela correspondência entre dois filósofos ( Prisco e Libânio), um deles mais intrépido, o outro mais cauteloso. Juliano, com inclinações homoeróticas, foi imperador por apenas três anos e neste tempo tentou deter o avanço do Cristianismo pois no seu íntimo era adepto do paganismo. Seu pai foi morto por Constantino I e ele não queria ter o mesmo destino. Juliano fez o que pode na missão que trouxe para si, pois conhecendo na prática os rituais pagãos, tinha a convicção de que a hegemonia do Cristianismo seria um desastre como de fato aconteceu.

Se eu fosse milionário e Stanley Kubrick fosse vivo eu produziria para ele uma versão de “Juliano” para o Cinema, pois sabemos que este atinge provavelmente mais pessoas que a Literatura. Sonho com o dia em que farão uma grande adaptação deste livro essencial para as telas, mesmo que não seja com o diretor dos meus sonhos. Stanley fez o maravilhoso Spartacus, o maior épico do cinema que conheço e seria o diretor ideal para adaptar e filmar “Juliano”. Que pena que isto não aconteceu. Mas quem sabe outro grande diretor se arrisque nesta empreitada.

Com Juliano, a luz se foi e agora nada mais resta a não ser deixar entrar as trevas, e esperar por um novo sol, um novo dia, nascido do mistério do tempo e do amor do homem pela luz”

Um grande amigo, professor de Literatura, um dos maiores especialistas em Nelson Rodrigues no Brasil, autor de “A Musa Carrancuda”, obra sobre os trabalhos do escritor durante o Estado Novo, enviou-me um conto que considero excelente, sobre a questão da pedofilia na Igreja. Adiante você pode lê-lo.

Em tempo: minhas colocações não expressam necessariamente a visão que Victor tem da questão religiosa, homoerotismo, etc.

Nelson

A Boa Educação

Victor Hugo Pereira

Tudo começava com o livro. Ou antes, com o aprendizado das letras.

Vamos por ordem.

O padre convidava alguns alunos: os mais aplicados, mais asseados, mais educados, para a aula de caligrafia gótica.

Era necessário permanecer depois das aulas. Como vinha ele afirmando há algum tempo, era muito útil saber manejar as canetas especiais, trocar as ponteiras, escolher a pena adequada, molhar com a quantidade exata de tinta. Até o cuidado em mergulhar a pena no tinteiro era passível de um aprendizado.

A escrita nítida que se ia adquirindo... A arte de usar o nanquim antes que ressecasse a ponta da pena. Apertá-la contra o papel com a pressão exata – a mão experiente do padre, ainda jovem, ajudava a aprender o modo exato de segurar a haste, a medida da força a ser impressa pelo pulso, a destreza no movimento, a adequada posição dos dedos, a palma suavemente pousada no papel...

Os pais sentiam-se compensados pela espera dos meninos na volta à casa. Havia algo nobiliárquico ao acompanhar os filhos ao centro da cidade no ritual de comprar o nanquim, as ponteiras e as penas em lojas especializadas. O cheiro dos estojos de madeira e dos blocos de papel imaculado em papelarias de boa qualidade. Papel canson, papel verger... A escolha dos papéis adequados. Os pais sabiam que era uma atividade mais sadia do que estarem naquele trecho da tarde, antes do jantar, a ver televisão, escarrapachados na sala de visitas, ou a tagarelar na porta do prédio com vizinhos e vizinhas de um nível mais baixo de educação (ou de uma origem menos privilegiada).

Às vezes a aula alongava-se mais... Os exercícios duravam, porque o padre embrenhara-se pela clausura e tardava em dar por encerrados os trabalhos. Quase sempre havia se ocupado lá pra dentro com algum dos colegas do grupo de caligrafia e não voltava até que a noitinha começasse a se anunciar.

Falava-se à boca pequena do livro. Quase todos da aula já tinham sido convidados a lê-lo. Mas nem todos revelavam aos colegas tudo que se relacionava ao curto período em que eram os detentores daquela preciosidade. Havia, portanto, uma circulação do livro que se acompanhava de certos rituais. Rituais que se estendiam, em alguns casos, por uma semana inteira – enquanto dia sim, dia não, reuníamo-nos para desenhar as nossas letras. O padre não emprestava o livro para ninguém de fora do círculo das aulas vespertinas – aqueles que se dispuseram a conhecer as letras góticas. Também não emprestava o livro sem antes fazer uma pequena entrevista reservada com o beneficiário.

O que continha aquele livrinho de capa de papel pardo?

Já passara por dois beneficiários quando pude ser informado por um terceiro de seu conteúdo. O livro, em seu tamanho discreto, era, entretanto, um minucioso tratado de educação sexual. Descrevia tudo que poderia ser matéria de dúvidas ou de informações pouco sérias, enganosas sobre o assunto. Os órgãos reprodutores, masculinos e femininos. Seu funcionamento. O ato reprodutor. Tratava dos assuntos com minúcia e fornecia alguns discretos gráficos e planilhas anatômicas em preto e branco naturalmente.

Antes do empréstimo, o padre interrogava o interessado sobre o estado de seu desenvolvimento. Sabia-se que perguntava sobre a ocorrência de ereções, sobre polução espontânea, noturna, ou sobre ejaculação. Falava com termos médicos, obrigando o rapaz a ter uma atitude responsável sobre o que relatava, ensinando mesmo os correspondentes no vocabulário médico à abordagem vulgar do tema. Queria saber certas minúcias com a finalidade de julgar a situação anatômica e hormonal do rapaz antes de lhe impor um objeto que ainda, eventualmente, pudesse não corresponder a suas demandas fisiológicas por explicação. Soube-se também, no caso de alguns meninos, com menos caracteres sexuais secundários, que ele perguntava se já tinham pêlos mais abundantes no púbis ou até nas nádegas. Um deles ficou preocupado porque ainda não observara que os pêlos podiam se desenvolver em torno do ânus.

Depois dessa entrevista, o padre fornecia o livro – somente com a garantia de que seria guardado em lugar reservado em casa – caso contrário teria que ser lido na varanda da sala em que desenvolvíamos nossos trabalhos de bico de pena.

Em seguida, freqüentemente dois dias depois, na aula vespertina, o padre se afastava de nós com o detentor do livro, para a complementação de seu estudo.

Levava, então, o rapaz para o seu quarto (dele, padre), penetrando na clausura. Fechando discretamente a porta, fazia o rapaz sentar-se diante de si e perguntava sobre as dúvidas na leitura. Adiantava-se às vezes a elas interrogando sobre tópicos que o livro apresentava como fenômenos gerais – por exemplo, a masturbação, os sonhos eróticos, a ereção motivada e imotivada.

Depois de respondidas as principais questões e esclarecidas eventuais dúvidas, o padre lembrava ao rapaz que às vezes havia muita ansiedade sobre as condições em que um adolescente se desenvolvia: a maturidade sexual vinha de forma diferente, de acordo com heranças raciais e condições alimentares, emocionais e até mesmo do ambiente social. Por isso, achava adequado possibilitar a um jovem a realização de um exame de perquirição de suas condições fisiológicas. O rapaz podia compreender subitamente qual era a função de inúmeros objetos misteriosos espalhados pela mesa do quarto. Havia uma régua, um anel de papelão com marcação métrica, um pequeno capuz de pano rugoso de uns três dedos de diâmetro, com um delicado barbante ajustado em suas bordas, um vaso d’água limpa e outro vazio com medidor gravado externamente, e até mesmo uma camisinha de Vênus - que o rapaz observara, de rabo de olho, intrigado.

O padre, sério e meticuloso, propunha ao rapaz que expusesse o próprio pênis e apressava-se a tomar a régua para assegurá-lo do próximo passo dessa investigação. Media então com a régua o pênis, quando possível, em posição de repouso inicialmente. Caso o rapaz não se tivesse excitado com essa operação, pedia a ele que se excitasse... que não se inibisse mesmo de sacudir um pouco o membro com essa finalidade... para que pudesse ser medido em estado máximo de excitação. Como ele explicava, era essa a medida que mais importava porque correspondia às exigências para um coito bem sucedido e normal, para uma boa penetração na vagina ou no ânus.

Em seguida - muitas vezes, no mesmo dia; no caso de alguns dos visitantes, na próxima sessão – o padre realizava a medição do diâmetro do pênis. Aplicava, então, o anel de papelão com a escala métrica, ajustando-o por uma lingüeta saliente de um orifício lateral. Um dos colegas, soube-se um dia, havia ejaculado nesse momento, tendo que voltar para uma outra sessão, pois a medição e as etapas subseqüentes tinham sido prejudicadas.

Uma etapa seguinte era o aprendizado do uso de camisa de Vênus. Essa etapa exigia também que o membro estivesse ereto. Umas vezes, segundo se soube, devido à inibição do rapaz, foi necessário que o padre o auxiliasse a manter um nível de ereção adequado. Ele sugeriu, inclusive, que os dois rapazes com que isso sucedeu molhassem a ponta do pênis no jarro de água para auxiliar na obtenção de uma ereção mais sólida proporcionada pelo prazer da fricção assim suavizada.

Uma experiência acontecida com um dos colegas também foi comentada. Ele descobrira que tinha um excesso de peles que cobria a glande já bastante desenvolvida. O padre auxiliara-o a descobrir a glande e ensinara a realizar a higiene nas dobras interiores sob a pele. Explicara em que consistia a fimose, manipulando ele mesmo a pele excessiva do rapaz no ensino da higiene indispensável.

Costumava ser a etapa final dessa série informativa o teste de ejaculação. O padre solicitava ao jovem que com o auxílio dos dedos, movendo a pele do pênis e balançando-o chegasse enfim à ejaculação. O jato de esperma, porém, deveria ser dirigido ao jarro com medidor. Muitas vezes, errava-se a mira, impedindo a consecução do exame. Um ou outro colega declarara ter tido um certo escrúpulo por realizar a tão condenável masturbação ali diante do padre. Ele, porém, tranquilizara-os diante da finalidade do ato – que não se realizava como mero prazer solitário, mas como motivo de aprendizado e auto-conhecimento. Meticulosamente, depois da ejaculação do rapaz, o padre ajuntava com uma pequena vareta a massa de esperma espalhada nas paredes do vidro, colocando-a no fundo para a medição. Fazia uma avaliação quantitativa e da qualidade da espessura do caldo expelido. Às vezes tirava uma amostra e aproximava das narinas para fazer uma apreciação do cheiro, avaliando a densidade e a mistura com a urina.

Finalmente o padre pedia licença para tomar em sua mão o pênis do rapaz e dirigi-lo, ainda úmido e pegajoso, para o interior do jarro de vidro cheio de água limpa, assim umedecendo a glande e todo o corpo do órgão até os testículos. Para isso, algumas vezes, necessitava arregaçar a pele do órgão que, após a ejaculação, já recobrira a glande. Conhecia-se, então, a função do pequeno capuz de pano: ele era ajustado pelo próprio padre sobre o pênis molhado do rapaz e preso durante alguns minutos com a ajuda minuciosa de suas mãos habilidosas junto aos testículos. Em alguns casos, ajustara o capuz somente após descobrir a glande do rapaz, afastando a pele do prepúcio, para garantir mais perfeita higiene. Explicava minucioso a operação enquanto a realizava, instruindo sobre os termos técnicos, a terminologia médica. O padre pedia, então, ao rapaz que esperasse esses minutos para a secagem do pênis - a umidade deste embebia pouco a pouco o pequeno capuz atoallhado, afivelado desde sua extremidade - e entabulava uma conversa conclusiva de sua avaliação sobre as condições físicas do jovem.

Alguns rapazes, conforme registrado acima, foram mais de uma vez ao quarto do padre, seja porque uma das etapas não pôde ser totalmente cumprida – por inibição nos momentos anteriores de ereção ou por uma ejaculação súbita – seja porque houvera alguma dúvida a ser esclarecida pela repetição de uma das etapas, a pedido do padre ou do próprio jovem.

Houve um caso - singular talvez – em que o padre oferecera a um jovem muito aflito quanto à conformação de seu pênis (um tanto arqueado) para realizar a comparação com o próprio pênis. Visava tranqüilizar o rapaz, demonstrando detalhes que exemplificavam as variedades individuais na conformação do órgão – o padre, por exemplo, como declarara antecipadamente e o jovem pudera averiguar, tinha muitas veias salientes e a glande muito desenvolvida. Nessa ocasião, segundo se contava, enquanto o padre mostrava os detalhes da abundante irrigação venosa na pele que envolvia o seu órgão, foi levado à ejaculação.

Teria dito, em seguida, ao jovem - que esse era mais um exemplo de uma peculiaridade individual: descobrira ele próprio recentemente que sofria de ejaculação precoce. Nessa área, ninguém é perfeito, ninguém é igual.

http://unknownpoets.blogs.sapo.pt/arquivo/mala%20educacion.jpg

http://dialogospoliticos.files.wordpress.com/2008/12/dia_da_pedofilia_2.jpg

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgtVQd19qJaw324I0eFzoGJejUYf9eR0kbpMKsVteguVLRcre_tkfwqNFJvdzMEEwqdH7Z4kA6KGoKi2pskOIWekS2pngATTPSvIXEDLfEpYES8q-KjrjHiYpimNoLIboe-XCmQ3ZKjkFoV/s400/Juliano+el+apostata+-+Gore+Vidal.gif

Transcrição e texto introdutório:

Nelson Rodrigues de Souza

terça-feira, 20 de julho de 2010

Poemas do Subterrâneo- Parte 2-Ódio ao Trabalho




Poemas do Subterrâneo- Parte 2

Ódio ao Trabalho

Este trabalho tão aético

Neste ambiente anti-séptico

Faz-nos perder a calma

Faz-nos vender a alma

Ao primeiro diabo que aparece


Este trabalho tão anêmico

Neste sistema neurastênico

Faz-nos sentir covardes

Faz-nos ansiar pela tarde

Enquanto a mente demente entorpece


Este trabalho tão aviltante

Nesta prisão sufocante

Faz-nos cair em arapucas

Faz-nos sonhar com bazucas

E clamar aos céus com uma prece


Este trabalho tão mesquinho

Nesta sala em desalinho

Faz-nos entornar o caldo

Faz-nos soçobrar como rescaldo

De um eterno incêndio que acontece


Este trabalho tão deletério

Neste espaço cheio de mistérios

Faz-nos morrer de tédio

Faz-nos do salário um assédio

Que trata a fome e ao espírito empobrece


Este trabalho tão superficial

Neste refúgio banal

Faz-nos ter os nervos em frangalhos

Faz-nos funcionar como quebra-galhos

Para um fim que a gente, alienados, desconhece


Este trabalho tão subalterno

Neste pelourinho moderno

Faz-nos mergulhar em desvarios

Faz-nos ficar tão sombrios

E a memória, angustiada, só grita: Esquece!


Este trabalho tão surreal

Neste poleiro infernal

Faz-nos sair com evasivas

Faz-nos desperdiçar a saliva

E o coração, na contramão, enrijece


Este trabalho tão enganoso

Neste terreiro nervoso

Faz-nos pisar em falso

Faz-nos ascender ao cadafalso

E o capataz, falaz, nem enrubesce


Este trabalho tão infrutífero

Neste sótão soporífero

Faz-nos corroer as entranhas

Faz-nos apelar pra artimanhas

Enquanto o erário enfraquece


Este trabalho tão desgastante

Neste clima reinante

Faz-nos sofrer com trapaças

Faz-nos prever só desgraças

Enquanto o algoz enriquece


Este trabalho tão mecânico

Neste recanto satânico

Faz-nos sorrir entre dentes

Faz-nos ficar doentes

Não criando nada que interesse


Este trabalho tão lúgubre

Neste tugúrio insalubre

Faz-nos virar do avesso

Faz-nos ficar travessos

E cínicos diante do que aparece


Este trabalho tão inefável

Neste ambiente nada amável

Faz-nos levantar a lebre

Faz-nos ficar com febre

Enquanto o ânimo enfraquece


Este trabalho tão impessoal

Nesta região abissal

Faz-nos sentir malditos

Faz-nos dizer o dito pelo não dito

E a voz envergonhada enrouquece


Este trabalho....Este trabalho...

Este trabalho....Este trabalho...

Este trabalho....Este trabalho...

Este trabalho....Este trabalho...

Este trabalho....Este trabalho...

Até quando?

http://farm1.static.flickr.com/178/376327035_8683e8115e.jpg

http://ricardolombardi.ig.com.br/wp-content/uploads/2008/05/2009/02/kafka.gif

http://portalmegaphone.com.br/press/wp-content/uploads/2009/12/alienacao.jpg

Nelson Rodrigues de Souza

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Poemas do Subterrâneo-Parte 1




Sodoma e Gomorra

E aqueles olhares tão furtivos a se procurarem no escuro

E aquelas almas tão ingênuas procurando suas gêmeas

E aqueles corpos tão molhados, extenuados, exalando seus perfumes

E aquelas sombras tão anômalas requerendo suas fatias

E aquelas vidas loucas pulsando fortes como-vidas...

Lola

Lola contando histórias

Lola alucinando a memória

Relata seus doze anos de glória

Na fábrica de tecidos inglória

E a vida tecida de fios tão tênues

Tece novas vidas indecifráveis

E a esfinge-mãe se apavora

Ante os enigmas gerados

E o amor pleno de nove-horas

Escapa pelos ladrões

Não sabe pra onde vai

Se sente acuado

Queima

Meu coração descansa

Sem saber o que aconteceu

Minha mente avança

Maltratando o próprio eu

Ele agora questiona

Se ganhou ou se perdeu

Sim, com certeza

Ele se perdeu

Quem ocupará

O vazio que o devora?

Quem se aventurará

A querê-lo agora?

Quem o acompanhará

Pela vida afora?

Quem o ajudará

Nesta louca hora?

E o horizonte que o paralisa

O faz sempre sobressaltar

Do tormento que o destino avisa

É preciso não descuidar

E o coração na mão

Sofre tanto desencanto

Ansiando por razão

Bicho-Pega ou Bicho-Mata

Essa trilha que eu abro

Eu não sei onde vai dar

Será que na ponta está o mar?

Ou será que o destino é mesmo o abismo?

Eu só sei que aqui é demais o descalabro

Já é mais que tempo de acabar com este cinismo

É a hora em que a onça quer sua água

E nesta clareira onde estou

Não há fogueira que dê jeito nesta mágoa

Mais do que depressa eu me vou

E como um rei

Indo em busca de seu trono perdido

Eu só sei que vi-verei

Atrás do meu eu desaparecido

Moviver

Do motor tão recôndito que me move

Eu não sei direito que líquido sacia sua sede

Eu não sei se é o amor ou mais o medo

Eu só sei que parto louco

Em busca de algo nem que seja um arremedo

Voragem

E aquele marinheiro

De primeira viagem

Criou coragem

E embarcou

Na voragem da paixão

Alpinismo

O eu adormecido

Nos labirintos da alma

Não sabe o que quer

Simplesmente pergunta

Se ainda há tempo

De galgar as paredes

E respirar ar puro

E sentir o perfume das flores

E adquirir mais calma

E matar sua sede

E sentir um alento

Indo em busca de amores

Água-Viva

E ele atravessou os meses

Como quem dá braçadas num oceano

A procura de um cais

Engoliu muita água às vezes

Quase se afogou num ledo engano

Tentando dizimar seus ais

E agora surgiu como peixe fora d’água

Respirando num mormaço

Naufragando por cansaço

Se contendo pra não transbordar de mágoa

Neste caminho assolado por uma enchente impiedosa

Muitos sonhos se perderam na enxurrada

Mas o que era mais vital sedimentou-se na largada

E sem espinhos, do lodo profundo nasce a rosa encantada

Espírito

Esse espírito

Eternamente vagando a procura de paz

Eternamente clamando por um algo mais

Eternamente gritando que já é demais

Eternamente tentando ser mais capaz

Eternamente empurrando a dor para trás

Eternamente desconfiando daquilo que faz

Esse espírito

Eternamente explodindo, implodindo

Eternamente espírito.

Consciência

Ah! Consciência

Com que freqüência

Você me pede clemência

E me diz que é sua última demência

E pensa

Que ninguém notará sua ausência.

Feira

Cinelândia, esse templo

Em que passeio e contemplo

Os livros e os homens

Os homens e os livros

Dos livros vejo as capas, leio as orelhas

Dos homens vejo os olhos, as sobrancelhas

Dos livros sinto a cor, a textura

Dos homens o odor, a formosura

Que viagem me será mais grata?

A com seres imaginários

Ou com estes outros, temerários

Solidão, paletó e gravata?

O que importa é que estes momentos

Essa trilha, este percurso

Transformam-se em fragmentos

De um grande e amoroso discurso

Sonho

Esse sonho que nunca se acaba

E faz o coração pulsar sempre, sempre

Mesmo quando a casa faz que desaba

O amor cresce que cresce dentro da gente

Acordar

Eu quero o rumor dos ventos açoitando palmeiras

Eu quero os murmúrios de prantos contidos

Eu quero o barulho de grilos ensandecidos na noite

Eu quero os gritos das noites esmagando as tardes

Para zombar do silêncio embriagado do eu

E acordar o quanto antes

Enquanto ainda é tempo.

Medo

Medo, ora mola propulsora

Ora camisa-de-força

Fogo que ilumina

Fogo que queima

Eterno abrasivo.

Aventura

Escavando o eu à procura de tesouros enterrados?

Cuidado!

Há estágios em que a crosta é muito forte

E as lavas quietas ameaçam emergir

E o que era humano se transforma em dragão...

Mas não tem nada não!

Valerá a pena conhecer os afrescos

Abrir a arca com unhas e dentes

E revirá-la com sofreguidão

E misturar o medo, a dor e a solidão

E revelar e receber de mãos beijadas

O ouro da esperança.

Ponte

No meio da ponte

Eu não volto nem vou

Só sei que onde estou

Não há nada que aponte

Que o risco acabou

Mas olho para as laterais

E recolho meus ais

E tomo fôlego

E avanço todo trôpego

Destino lá vou eu

Mergulhando cego no breu.

Naufrágio

Esse eu que chora

Esse eu que ri

Travam luta acirrada

De vida ou morte

E ainda mais agora

Que é urgente aqui

Não ser a mente atropelada

E contar com toda sorte

Mas vai o barco alucinado

Naufragando estes dois seres

E esse eu já tão marcado

Vê minado seus poderes

Todavia estes duendes tão estranhos

Apegam-se firmes a uma ilha

Com uma força que não tem tamanho

Enlaçando as mãos tal como mãe e filha.

Desejo

Meu coração quer brincar de amor

Mas não quer amar

Está por demais atento à dor

Com medo de se deixar levar

E as mãos se tocam trêmulas

Os olhares cruzam-se como que longe

Os corpos tornam-se sombras

E o desejo apenas tinge-se de paixão

E as palavras como facas de dois gumes

Escondem mais significados do que revelam

Até que um dia o vigia adormeça

E o amor esteja pra qualquer coisa que aconteça.

Limiar

O pássaro retrocede frustrando a arapuca

A deusa desmaia retardando o sacrifício

A roleta emperra adiando o infortúnio

A sentinela distrai-se favorecendo os bárbaros

O amante adormece entristecendo o companheiro

O trabalho amplia-se reduzindo as férias

A vidraça orvalha-se ocultando a paisagem

A mão arrepende-se recusando a esmola

A voz controla-se aliviando o patrão

O corpo arrepia-se temperando a febre

A água acaba exasperando a sede

A dor arrefece possibilitando certa razão

E o amor rejuvenesce privilegiando a paixão

Dúvida

Eu acho que o que você acha

Que eu acho que você acha

Ou vai ou racha...

E antes que a gente se perca

E você e eu não se achemos

Eu sugiro que a gente tome até uma cachaça

Pra acabar de vez com toda esta pirraça

E assim a gente rechaça

Esta coisa já sem graça

E a dúvida passa

Evitando qualquer desgraça.

Natureza Viva ou Morta

O Cristo coberto sob as nuvens

O monte insinuando-se um gigante

A tarde dando seus últimos suspiros

Os barcos imóveis na tarde cinzenta

A praia com poucos seres intrépidos

A lancha cobrindo as águas de rastros

Os prédios ocultos no que resta de verde

O farol vermelho antecipando-se à noite

A polícia em busca de amantes ocultos

O monumento aturdindo nossos vivos

Os carros avançando atônitos e febris

São sinais de uma velha e cansada cidade

Que se transfigura a cada segundo

Fazendo bailar loucamente as retinas.

Solidão

Eu ando pela vida de mansinho

Tentando enganar a solidão

Mas a qualquer momento, em qualquer esquina

Ela acorda ofegante

E vem reclamar o seu quinhão.

Fagulhas

Meu amor,

Perdoe-me, por favor,

Por eu rimar mais uma vez amor com dor

Mas é que estou muito carente da sua anestesia

Vem me abraçar com seus braços feitos agulhas

E não importa que saiam até fagulhas

Eu quero mesmo é ver a noite se entregar

E dar lugar ao dia.

Vingança

Afiando as facas

Preparando as esporas

Ultimando o patíbulo

Montando o cadafalso

Atando os nós da forca

Armando a guilhotina

Abrindo o cano de gás


Preparando a carnificina oficial

O homem faz do homem

O que a natureza não quis

Supondo cortar o mal pela raiz

Mal sabendo que nada mais faz

Do que aumentar o que já é demais

E a dor se alastrando

O desamor imperando

A vingança clamando

Faz da caça o caçador

À procura do amanhã

Que se fartou da noite

E mais nenhum açoite

O demoverá deste fim

Verão

Num dia claro

Bem claro

De verão

Verão

Tudo que tenho

O amor que mantenho

Ouvirão

A voz engasgada

A dor embargada

Serão

O que nunca souberam

Ou nunca quiseram

Terão

Primavera, Verão, Outono, Inverno

Em vez deste Inferno

Num mesmo dia claro

Bem claro

De verão

Ou não?

Testemunha Ocular

Essas luzes da cidade fortaleza

Tão acesas

Dão a idéia de umas vidas

Que se esvaem muito presas

Olho o menino do patamar azul turquesa

E ele sorri pra mim

Insinuando-se como criatura indefesa

Eu subo até a janela pronto a virar a mesa

E pulo ao céu-encontro

Que beleza!Que surpresa!

É o fim das incertezas

É o tempo das sutilezas.

Crescei-vos e Multiplicai-vos

Menino do tambor de lata

Cresça e apareça

Que a festa da vida

Não pode esperar

Não tenha medo

Pois se o medo matasse

Eu não estaria aqui

Vivo a te en-cantar

Vamos em frente, tente

Já não há mais tempo

Pra se lamentar

E o que vier a gente

Grita, traça, amansa

E eu vou ver esta criança

Toda cheia de esperança

Apostando alto até no azar.

Sementes

Será que esse aprendiz

Não enxerga um palmo diante do nariz?

Será que em vez de cortar o mal pela raiz

Só lançou novas sementes?

Traição

E a fala mansa, rouca, inquieta

Como um sorrateiro e tímido beijo

Desvendava os meandros da traição

E o olhar vago, atônito, aflito

Como um dissimulado e brilhante punhal

Sangrava como se suplicasse por perdão.

Cisma

E o fantasma da criatividade

Com seu dom de criar novos fantasmas

Contorce os neurônios deixando a mente pasma

E as palavras que precipitam loucas no branco

São atos falhos de ambições, senões e veleidades

Que deixam marcas indeléveis como um cancro

E tingem nossa vida de vertigem

E nos empurra para o poço da irrealidade.

X,Y,Z

Na equação do amor as igualdades diferem

As incógnitas se multiplicam

As soluções não convergem

Métodos triviais não se aplicam

X e Y perdem seus valores

X e Y se fundem

Ambos dependem e independem

Num conjunto universo de amores

X e Y se anulam

X e Y tendem ao infinito

X e Y variam

Numa exasperada gama de conflitos

Na equação do amor

X não é igual a Y

Ainda que sejam iguais a Z.

Lacuna Para Um Patrão

A passadeira passou mal

E foi...................embora.

Travessia

Ele, pobre pedestre

Ao atravessar um cruzamento

Faz dos olhos faiscantes dos motoristas

O seu verdadeiro semáforo

Face a face com o inimigo

Ele vocifera internamente, desafiante:

“Seu empedernido quadrúpede

Vai ter coragem de avançar sobre este mero bípede

Que lhe contempla?”

Intempestivo

O tempo, este carrasco

Que bebe a nossa vida

E nos esconde o frasco

Forçando o beco a ter saída

O tempo, este insensível

Que é a tudo alheio

Que não sabe o que é freio

E nivela o possível e o impossível

O tempo, este absurdo

Que brinca com a História

Que fica quieto e surdo

E torna a glória inglória

O tempo, este arlequim

Que ri sutil e terno

Que é como um trampolim

Pra tudo que é eterno.

Aniversário

Aniversário, esse delírio do calendário

Que instiga o imaginário

A fazer um inventário

Pra mudar o itinerário.

Web Sentimental

Computador, computador

Você que tudo computa

Será que computa a minha dor?

Ali-Inação

Eu não sei se é consciência demais

Eu só sei que não sou mais capaz

De acreditar nas promessas

De perder tempo à beça

Assistindo-o dançar

Conforme a cantilena

Que nos obriga a escutar

Que pena! Que pena!


Disputa

Que tristeza!

Poetas colocando o pau na mesa,

Para disputarem

Quem reluz maior beleza.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi-I4_wp5VUP9HykS_H4ucQGkOSpOyaWvCVrchV2QxkkJCiBBoa78w8c4OvpwM0856qQUwUlhqQav0Bn6O6CqczOLgS7-Pai6bOe996zYw9HHGK2LPx0rrHKVGPyFBdOfWI9_wjSSYxnjU/s1024/notas.jpg

http://bafanaciencia.blog.br/wp-content/fiodordostoievsky.jpg

http://www.embaixadaamericana.org.br/photos/cristiano-ferreira.jpg


Nelson Rodrigues de Souza

Quando a Realidade Fala Mais Alto Que a Arte ou O Medo de Ser ou Ainda Alguma Coisa Urgentemente




Esta matéria adiante saiu em O Globo de 18 de julho de 2010. De certa forma complementa meu post anterior “Por Que Me Identifico Tanto Com o Cinema de Roman Polanski”. O jornalista, crítico de cinema e teatral Jefferson Lessa narra um caso de bullying que está sofrendo. Eu que passei também por forte bullying no ginasial e colegial tanto por ser homossexual como também, sem falsa modéstia, por ser um dos melhores alunos, entendo bem o que ele está passando. Reproduzo aqui o seu relato na esperança de que quanto mais pessoas souberem do ocorrido mais se caminhe para uma solução para o grave problema que envolve até risco de morte.

Nelson

http://oglobo.globo.com/blogs/logo/posts/2010/07/18/reporter-do-globo-relata-bullying-homofobico-que-vem-sofrendo-308881.asp

REPORTER DO GLOBO RELATA BULLYING HOMOFÓBICO QUE VEM SOFRENDO

O Medo de Ser

Por Jefferson Lessa

Na semana em que a Argentina aprova o casamento gay, peço licença para relatar uma historinha banal. Moro num bairro aprazível e "tranquilo", sonho de consumo de dez entre dez cariocas. Dos que não vivem lá, obviamente. "A grama do vizinho...". Pois é. De um tempo para cá, por motivos que me são alheios, alguns playboys deram de gritar "veaaaaaado!!!"

quando me veem na rua. Outro dia, derrubaram minha pasta no chão. Numa noite anterior, rolou um inesperado banho de uísque com Redbull no casaco novo... Depois disso, a calçada ficou mais longa que uma maratona. Chegar à varanda torna-se uma decisão pesada, difícil de tomar. A pasta, o cheiro do uísque com Redbull... Difícil. Como vocês podem ver, trata-se de uma história de bullying, a palavra do momento. Seria só mais uma, não fosse o caso de atingir um certo cara no auge da meia-idade. Eu.

Nunca havia passado por isso antes. E não pretendia experimentar agora. Mas aconteceu - fazer o quê? Penso em várias "soluções". A mais radical é mudar de bairro. Deixar para trás uma casa que adoro e que montei aos poucos, no ritmo que o salário aguado permitiu. Deixar para trás, também, um prédio no qual fiz amigos. É uma "solução" penosa e triste, creio. Faz com que eu me sinta covarde, pequeno, sujo, miserável. Sem falar no trampo, né? Mudança, segundo pesquisas, é uma das situações que mais geram estresse na vida. As outras são separação, morte... Mudança é um pouco separação e morte.

A outra "solução" é sugerida por amigos, que perguntam: Por que você não denuncia? Por que não procura a polícia?" Simplesmente porque não vivo dentro de um episódio de "Law & order: Special Victims Unit", a genial série americana que ficcionaliza o cotidiano da unidade de elite da polícia novaiorquina especializada na investigação de crimes de natureza sexual. Se eu tivesse a certeza de que meu "caso" seria tratado pelos detetives Stabler e Benson, correria para a delegacia mais próxima. Na maior confiança. Como todos sabemos, não é bem o caso por aqui.

E também posso fazer o que estou fazendo neste instante: expor meu pequeno drama (que, convenhamos, não interessa a quase ninguém) nas páginas de um grande jornal como este O GLOBO. Vai ter gente se identificando, é claro. Vai ter gente criticando a superficialidade do texto (provavelmente, com razão: sou meio raso mesmo). Vai haver quem elogie a coragem do repórter, bem como quem o ache um rematado covarde. Sinceramente, leitor, sua opinião me importa. Mas pouco muda. Desculpe qualquer coisa, tá? É que na hora de voltar para casa, não vai ter detetive Benson nem Stabler, amigos, leitores ou páginas para segurar a barra. A mim, restará torcer, solo, para não encontrar os pequenos e medíocres algozes do dia a dia. Em encontrando, restará torcer para que não estejam muito bêbados ou alterados, pois isso conta - e muito - nessas horas.

O cotidiano pode se dividir entre poder ou não ser você mesmo na rua, no ônibus, no boteco... Mas convenhamos: isso ainda não é tão possível no balneário de São Sebastião. Somos toscos, mal educados, infantis e preconceituosos. Friendly my ass, isso sim. Ih, falei.

Eis a história - até agora. As cenas dos próximos capítulos? Não sei o que esperar desta trama triste. Mas sei o que não esperar no curto prazo: civilidade. E aqui me permito repetir uma obviedade: civilidade não se compra no supermercado ou na quitanda. Se constrói. Ao longo de muito tempo. E é aqui que penso numa notícia da última semana: a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo na Argentina.

Não sei se a notícia foi realmente bem-vinda ou se mereceu um tratamento tão retumbante por ser muito surpreendente. Mas o fato de a Argentina ter se tornado o primeiro país da América Latina e do Caribe a aceitar o chamado casamento gay mereceu amplíssima cobertura da imprensa brasuca. Nas páginas e nas telas, parece algo de muito bom, apesar dos protestos dos usual suspects (Igreja católica, círculos conservadores, arautos da família etc). Ouso pensar que se a notícia tivesse vindo de outro país que não nosso arquirrival, teria sido ainda mais celebrada. É de bom tom na imprensa alardear correção política, mesmo quando o coração se inclina na direção oposta.

Fiel à rivalidade, não consigo parar de comparar, mentalmente, Brasil e o país hermano (que as piadinhas já transformaram em hermana). Mas quando digo país, leia-se cidade. É isso: não consigo parar de comparar mentalmente o Rio, onde sempre vivi, e Buenos Aires, ciudad que conheci ainda criança e à qual já voltei várias vezes. E acho que, no quesito friendly, BsAs ganha de longe, muito longe, do Rio.

Aqui, cabe esclarecer. Grandes questões como direito a adoção de crianças e a herança do(a) companheiro(a) são fundamentais, é óbvio. Palmas para os países que já garantiram tudo isso a seus gays, lésbicas, transgêneros, simpatizantes e quem mais chegar. Mas, em minha humílima opinião, é o dia a dia que conta. É do cotidiano que a vida é feita. Do dia de sol ou chuva, do ônibus que chega na hora ou não, que para ou não no ponto... Do chefe que te saúda ou não no trabalho, do colega que te dá uma força ou puxa o teu tapete, do amigo que te liga no momento certo. Da flanada prazerosa pela tua cidade, sem medo de pitboys e pitbulls. Ou não.

Aqui, volto à Argentina. Foi corajosa a aprovação do chamado casamento gay naquele país. Cheio de inveja, deixo meus parabéns. Não sou idiota a ponto de acreditar que uma lei acabe, magicamente, com pré-conceitos acumulados ao longo de séculos e cevados à base de ódio à diferença. Mas é um primeiro passo para uma rotina mais amena no futuro.

Quando é que vamos dar este passo? Hein?

* Texto publicado este domingo, 18 de julho de 2010 na seção LOGO/A Página Móvel, que saiu na editoria RIO

http://3.bp.blogspot.com/_pq44NvNXK8k/TAsQa8qa0II/AAAAAAAAAWI/jcmCL5-4o3o/s400/medo.jpg

http://scienceblogs.com.br/eccemedicus/medo2.jpg

http://www.emdiacomacidadania.com.br/blog/md/arcoiris_1197529506.patbreana.flickr.2007.jpg

Transcrição:

Nelson Rodrigues de Souza

domingo, 18 de julho de 2010

Sweeney Todd, o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” de Tim Burton - O Lirismo Que Vem do Atrito Entre a Inocência e a Perversidade*




“Sweeney Todd, o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” de Tim Burton

O lirismo que vem do atrito entre a inocência e a perversidade*

Leiam o email que recebi de um amigo fotógrafo e artista plástico:

“Artista faz ação no Mercado Livre”

“O que se espera encontrar no Mercado Livre, o maior portal de leilões de produtos do mundo, com "bases virtuais" em quase todos os países? Cds, eletrônicos, artigos importados, objetos semi-novos, raridades, etc. Porém, nesta última semana apareceu a oferta de um produto inesperado: sonhos, incertezas e dores, à venda no mercado livre! "Todas as minhas dores", "todas as minhas incertezas" e "todos os meus sonhos" são as mais novas ofertas do portal e é o mais novo trabalho da artista Keyla Sobral “.

Depois que Marcel Duchamp “derrubou o pau da barraca” da arte “mais bem comportada” nos anos 10 do século passado com o seu urinol, a roda de bicicleta sobre um banquinho de cozinha, seus ready-mades e outras manifestações, dentro do contexto de sua época, numa atitude hiper-transgressiva, as artes plásticas e seus derivados, como o universo das performances e instalações nunca mais foram as mesmas, para o bem e para o mal. Assim nos deparamos contemporaneamente com o que foi relatado sobre o Mercado Livre, com instalações em que milhares de maçãs apodrecem sobre placas de Laura Vinci, um cachorro amarrado sem água e comida no fundo de uma galeria ( para dialogar com a insensibilidade e hipocrisia de nosso mundo....), várias melecas expostas numa urna tampada com vidro (“Cubo Transparente de Resíduos das Vias Respiratórias”), quadros de Barnet Newman totalmente monocromáticos com uma linha vertical que o corta de forma assimétrica, etc, etc....

Ficam as questões que não querem se calar? Isto é arte? Isto não é arte? Existe resposta no meio termo? Ela nos emociona? Precisa nos emocionar?

Tim Burton, um dos gênios do cinema contemporâneo, de grande ousadia, transgressão, originalidade, imprime sua marca pessoal tanto em produções encomendadas como o magnífico e subestimado “Planeta dos Macacos” (2001- com seu desfecho tão atordoante e belo quanto o do clássico de 1968, de Franklin Schaffner, que o inspirou), como Batman (1989- com seu paradoxo dialético genial de criador&criatura, onde Jake matou os pais de Bruce Wayne forçando-o a transformar-se em Batman e este joga Jake num enorme recipiente de ácido verde, obrigando-o a transformar-se no terrível e hilário criminoso Coringa, magistralmente composto por Jack Nicholson, que gosta de “dançar ao luar com o diabo”) como nas totalmente autorais tais como as obras-primas “Ed Wood”(1994) e “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas”(2003), ainda que este último seja baseado num romance de Daniel Wallace, etc.....

Dentro do “Planeta Burton” não temos dúvida de que se trata de grande arte fruto de um grande artista plástico que dialoga e muito com seus diretores de design, exerce um fantástico trabalho de direção com todos os elementos fílmicos, para imprimir uma aura inconfundível e suis generis no Cinema de hoje. Resumindo: ao contrário dos exemplos citados anteriormente no mundo da arte, diante de um trabalho de Burton, não vacilamos. Estamos diante de um grande artista. E como!

Burton é um artista que cumpre com galhardia (como Hitchcock, Polanski, Kubrick, Spielberg, etc....) a profecia de Oswald de Andrade (que para o grande escritor não se realizou): “Um dia as massas irão comer os biscoitos finos que fabrico”. Enfim, Burton faz parte do seleto grupo de realizadores de biscoitos finíssimos para as massas. Não é à toa que em “A Fantástica Fábrica de Chocolates” (2005) Burton parodia a seqüência com os macacos e o monolito, agora um tablete de chocolate, remetendo a “2001:Uma Odisséia no Espaço” e ainda a seqüência do assassinato no chuveiro de “Psicose”.

Juntemos num caldeirão de bruxa, pitadas da genialidade artística e técnica de Orson Welles e Kubrick, da inocência e pureza de Ed Wood ( “o pior cineasta do mundo”, um artista que tinha obsessivamente arte em sua cabeça e não nos projetos que conseguia realizar na prática, conforme nos mostrou o filme-tributo citado sobre ele), do Menino Maluquinho de Ziraldo ( que sobrevive saudavelmente ainda em nós se o permitirmos, não matando-o), da comunicabilidade de fabulistas como Esopo, Hans Christian Andersen e os irmãos Grimm, do amor ao sobrenatural e ao “mórbido” de Edgar Allan Poe, dos filmes de terror da Hammer, etc, etc.....Misturemos isto tudo e teremos um tanto da alma de artista de Tim Burton. Mas isto não o torna nunca previsível. Tim sempre nos surpreende como o fez na deliciosa comédia “Marte Ataca!” (1996), inspirada por uma coleção de figurinhas, resultando numa sátira demolidora aonde os marcianos chegam à Terra atacando indiscriminadamente, não poupando nem mesmo o presidente dos EUA e a primeira dama.

Embora já tenha flertado em parte com o musical antes nos estupendos “O Estranho Mundo de Jack” (1993- dirigido por Henry Selick e produzido por Tim) e “A Noiva-Cadáver”( 2005), duas das mais belas animações da História do Cinema, feitas meticulosamente ( predominantemente, em stop-motion ) e em “A Fantástica Fábrica de Chocolates”(2005), em “Sweeney Todd, o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (EUA/Inglaterra/2007), Tim se embrenha “por mares nunca dantes navegados”, com excepcional resultado: um musical pleno de ponta a ponta, gótico e sanguinolento que pode afastar aqueles que ( para mim um mistério...) não gostam quando ações se interrompem em sua forma “natural” e prosseguem com os personagens cantando. Mas a incontornável fusão de perversidade e inocência ( no melhor sentido desta palavra) que atritadas geram uma comovente poesia, um lirismo encantador, estão aqui presentes mais do que nunca, neste que talvez seja o trabalho de Tim mais rigoroso, bem-acabado tecnicamente e emocionante, superando até mesmo os já citados “Ed Wood” e o grandioso e subestimado “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas”.

Ao se tratar do tema da vingança num filme (“O homem do ressentimento vive em estado larvar”- nos lembra Mircea Eliade, o grande mestre romeno da História das Religiões) sempre se corre o risco de se cair no protofascismo, vala comum onde caíram Neil Jordan no indefensável “Valente” (EUA/2007) e David Slade em “MeninaMá.com” (2005). Já deixando para o espectador tirar suas conclusões, sem adesões automáticas a seus personagens, com a mesma grandeza de “V de Vingança” (2006) de James Macteigue (produção dos Irmãos Wachovski) ou num nível menos elevado, como no caso do premiado com o Urso de Ouro em Berlim 2008, “Tropa de Elite” de José Padilha, em “Sweeney Todd,.....”, somos incitados a compreender as motivações de personagens vingadores, entramos e saímos de dentro de suas peles, com desfechos que estão longe de serem moralistas como também de serem caudatários da filosofia “olho por olho, dente por dente”que já é péssima por si só, ainda mais quando levada a extremos.

Richard Parker (Johnny Depp, irretocável, em sua sexta excepcional colaboração com Tim) vive na era vitoriana inglesa do século XIX com sua bela esposa Lucy (Laura Michelle Kelly) e sua filhinha. O Juiz Turpin (Alan Rickman) “cobiçando a mulher do próximo”, com um pretexto estapafúrdio, manda prender Richard para “roubar” Lucy. Richard fica preso 15 anos, ruminado vingança e volta de navio à sua Londres onde agora só vê podridão, “onde os baixos são escravizados pelos autos”, travando contacto com o jovem marinheiro Campbell Bower (Anthony Hope Jamie) para quem dá o endereço para onde se dirigirá que é onde morou, na Rua Fleet, um local nevrálgico da cidade.

Chegando na casa que foi sua, encontra a Senhora Lovett (Helena Bonham Carter, em mais um fantástico trabalho com o maridão Tim, numa prova de que na arte pode haver o nepotismo do bem...). Esta mal vive da venda de tortas de pouca aceitação popular e guardou todas as navalhas de Parker de quando este era um prestigiado barbeiro. Depois do encontro numa praça (saboroso) com o trapaceiro e barbeiro Signor Adolfo Pirelli (Sacha Baron Cohen, impagável tanto quanto em seu personagem e documentarista em “Borat, o segundo melhor repórter.....” - 2006), que junto a um explorado menino de feições e circunstâncias de um personagem de Charles Dickens, vende falsa loções para cura de calvície, Robert Parker numa disputa com Pirelli, para saberem quem é melhor barbeiro ( com este cantando afogado em sua vaidade), agora sob a identidade de Sweeney Todd se sai vitorioso e cria fama.

Por artimanhas do destino que não convém aqui adiantar, enquanto aguarda a concretização de sua vingança em relação ao Juiz Turpin, agora com a guarda da filha que teve com Lucy, tendo esta se suicidado, conforme relata a Senhora Lovett, Sweeney Todd, com um ódio cego que passa a destilar à humanidade dos que podem ir ao seu salão de barbeiro, mata todos os que pode com suas navalhas bem afiadas, deixa os corpos caírem por um alçapão embaixo de sua cadeira de barbeiro, até o subsolo, onde os corpos são processados para virarem um inusitado ingrediente que Lovett passa a usar em suas tortas, com grande sucesso comercial, saindo do limbo em que se encontrava.

O marinheiro Campbell se apaixona por Johanna Jayne (Jayne Wisener), filha de Sweeney/ Richard, com uma vida doméstica de prisioneira nas garras do Juiz Turpin. Este é também um dos plots que movimentam a história. Sim, há elementos que podemos considerar previsíveis nesta adaptação para o cinema pelo roteirista John Logan (de “O Aviador”), junto com Stephen Sondheim, que condensaram o musical homônimo de três horas estreado na Broadway pela primeira vez em 1979, de autoria do próprio Sondheim (letrista do clássico musical “Amor, Sublime Amor/West Side Story” de 1961 de Robert Wise e Jerome Robbins) e de Hugh Wheeler, com base numa peça de Cristopher Bond de 1973, que aproveitou uma lenda inglesa, que como toda lenda não se sabe o que é realidade histórica ou o que é ficção. Mas alguns aspectos de previsibilidade não tiram em nada o fascínio que é assistir ao filme. Nele forma e conteúdo dão as mãos de forma impecável, com o luxuoso auxílio do design de arte Dante Ferreti (candidato ao Oscar deste ano na categoria), com quem Burton dialoga magnificamente, num entrosamento precioso, de figurinos de grande originalidade em seus efeitos de Colleen Atwood (também concorrente ao Oscar) e de uma fotografia deslumbrante de Dariusz Wolski, onde predominam os tons escuros e sombrios, num clima gótico e a cor só aparece com força nuns devaneios que Lovett tem em sua expectativa de uma vida idílica amorosa com Sweeney Todd ou então no vermelho do sangue que esguicha dos pescoços.

Sweeney Todd pega uma navalha, ergue para o alto e se sente renascido após tanto sofrimento que o acompanhará sempre (saboreia o gosto da vingança, mas é um gosto muito amargo), dizendo em alto e bom som: ”Finalmente meu braço está completo outra vez”. Aqui Tim Burton evoca outra de suas grandes criações que é o maravilhoso personagem título “Edward, Mãos de Tesouras” (1990). Mas enquanto este feria as pessoas involuntariamente, querendo afagá-las, numa metáfora da incomunicabilidade humana digna de Bergman e Antonioni, o perverso Todd, imbuído de suas razões , que compreendemos mas não justificamos, mata pessoas com grande requinte.

Sobre a violência explícita em seu filme e o tom buscado e plenamente atingido é o próprio Tim Burton quem melhor explica, tendo como fonte a revista Pipoca Moderna número 35:

“As raízes de Sweeney Tood estão na tradição do Grand-Guignol, que é melodramática, com exagero de sangue, todo este tipo de coisa. Não é certo ser politicamente correto com algo assim”

“A sensação era que estava fazendo um filme mudo com música. Os atores se moviam de forma diferente”

“Eu cresci assistindo aos filmes de horror da Hammer, que usavam sangue bem vermelho. Eles tinha certa vibração. No meu filme, os personagens, especialmente Sweeney, são rígidos e contidos, mas o sangue, ele significa uma espécie de liberação. É como uma emoção bem vermelha”

Johnny Depp como Sweeney Todd canta bem para os propósitos do filme, como todo elenco e provavelmente está em seu melhor trabalho: ele evoca vários de seus personagens anteriores com ou sem Tim Burton, mas ainda nos traz uma original máscara perturbadora de pureza, perversão, vingança, dor, humor, solidão, crueldade, etc.numa chave contida, com momentos estupendos de explosão.

Consciente de que “quando eu expulso meus demônios meus anjos também vão embora” ou de forma mais simples de que “onde tem fada tem bruxa”, Tim Burton é um artista do cinema, que mesmo entrando em projetos aparentemente tipicamante hollywodianos (como seu magnífico “Batman”), é com sutileza, muito engenho e arte, um grande crítico da sociedade americana em particular e do nosso mundo de uma forma mais geral, pois conforme nos mostrou em outras de suas obras-primas, a animação “A Noiva-Cadáver”, o mundo dos mortos pode ter mais vida, danças e cores do que o gangrenado mundo cinzento dos vivos com suas convenções sociais e políticas que sufocam as pessoas.

Transgredindo alertas de Lupicínio Rodrigues a “estes moços, pobres moços”, podemos dizer que muitos personagens de Burton “deixam o Céu por ser escuro e vão ao Inferno à procura de Luz”. Luz que reluz na tela mágica do cinema grandioso, imprescindível e fundamental de Burton, desde as primorosas aberturas que já dão a senha do prazer com que veremos suas obras. Se Federico Fellini como dizia Glauber era o melhor pintor móvel do século XX, Tim Burton ao lado de Emir Kusturica (do essencial “Underground-Mentiras de Guerra-1994) não deixa morrer a vocação do cinema para as grandes fantasias feéricas, longe de influências neo-realistas (nada contra estas que se espalham hoje com belíssimos resultados em várias cinematografias) e se tornam os dois, os grandes pintores móveis vivos do cinema contemporâneo. A eles então.

Ps Tim Burton ganhou o Leão de Outro do Festival de Veneza de 2007 pelo conjunto de sua obra. Nunca ganhou Oscar de filme ou de direção. Este ano,2008, “Sweeney Todd,....” concorre em três categorias: ator ( Johnny Depp), direção de arte e figurinos. Poderia com toda justiça estar concorrendo também a filme, diretor, atriz, fotografia, montagem e roteiro adaptado. Ganhou o Globo de Ouro 2008 de melhor filme comédia ou musical e melhor ator (Depp) para este mesmo quesito.

*Texto publicado originalmente para o Jornal Montblãat em 2008, com pequenas modificações.


http://www.miscampinas.com.br/console/Eventos/Exibicao_do_filme_Sweeney_Todd_O_Barbeiro_demoniaco_da_Rua_Fleet681.jpg

http://blig.ig.com.br/lucasfilmes/files/2008/02/01.jpg

http://nycsunflower.files.wordpress.com/2009/11/tim-burton-by-hoffman.jpg

Nelson Rodrigues de Souza

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Algumas Observações Suscitadas por “Anticristo” de Lars Von Trier




Importante: Este post contém spoilers, ou seja, detalhes importantes de filmes de Lars Von Trier serão revelados.

1) Lars Von Trier criou Anticristo(2009) como uma forma de exorcismo de seus demônios interiores que o estavam deixando em depressão. Anticristo é assim um filme sobre depressão, luto, dor, arrependimento, amor, morte, com cenas que podem chocar pela sua contundência explícita. Por razões que as armadilhas e encruzilhadas do destino ou então sociais, psicológicas, psicanalíticas,etc. explicam, caí em depressão e síndrome do pânico em três períodos da minha vida. O último ocorreu neste tempo (um ano) em que me mantive afastado do blog, sem ânimo para escrever nenhum post. Praticamente só saia de casa para consultas médicas e terapêuticas, tendo ido muito pouco ao cinema. Uma grande ironia do destino: eu que sempre fui fissurado em cinema e sem falsa modéstia, bastante corajoso para enfrentar muitos filmes fortes, nos meus dois últimos períodos de depressão tomei o maior medo dos filmes. Só de imaginá-los me sentia desconfortável e mal.

A propósito dos 80 anos de Ingmar Bergman o MAM-RJ e o Estação Botafogo 1 promoveram uma grande retrospectiva da obra deste diretor essencial. Era fim de ano e meu trabalho estava mais leve. Assim no espaço de quinze dias assisti a mais de trinta filmes de Bergman ou com roteiros dele (revendo obras e vendo outras inéditas pra mim), sendo que nos momentos de folga lia “Imagens” de Ingmar Bergman, um sensacional livro sobre o processo criativo de um gênio do cinema, publicado pela Martins Fontes. Numa tarde de sábado vi em seguida três obras da fase mais hermética de Bergman: “A Paixão de Ana”, “A Hora do Lobo” e “Vergonha”. Claro que depois de passar por estas experiências não se é mais a mesma pessoa. Se um grande filme nos modifica, nos faz reavaliar a vida e valores, imaginem vários! De Bergman!

Pois nas minhas crises de depressão o que era um grande prazer para mim passou a ser um instrumento de grande medo e tortura. Nas minhas crises fui readquirindo forças paulatinamente para poder, dentre outras atividades, voltar a ver filmes, algo que tanto amo. Nem DVDs em casa eu via. Logo eu que tenho considerável coleção de DVDs por serem vistos e revistos. Atenção para ler livros e revistas também não tinha. Ouvir música me deixava angustiado. Ler jornais nem pensar. Até ver televisão me era penoso. Enfim, perdi muito tempo da minha vida nestes estados de depressão. Claro que tendo condições econômicas (o pobre, coitado, nestas minhas crises, está condenado à loucura e morte) me cerquei de profissionais que julgo competentes e generosos para lidar com meu caso. Nesta última crise (como na anterior), com humildade, me vali da ajuda de cinco profissionais: a saber, um psiquiatra que me receita remédios (alguns de tarja preta) que tomo religiosamente, tendo com ele também conversas terapêuticas; uma terapeuta holística e cromoterapeuta fantástica, um psicanalista junguiano (algo novo pra mim, pois antes fiz análises lacanianas); um médico homeopata unicista que tem por trás de seu trabalho uma sólida formação em filosofia e um urologista pois um dos fatores que causou minha última depressão ( isto me atrevo a revelar) foi a descoberta em tempo de um início de câncer de próstata, o que me obrigou a fazer uma operação para sua retirada, o que acarretou um efeitos colateral com o qual tenho de lidar hoje. Graças a Deus, descobri o mal no ínício, mas vou ter de fazer exames periódicos por um período de cinco anos.

Agora saí da depressão, estou me sentindo muito bem, com bastante energia e pude então ver em DVD o tão polêmico Anticristo de Lars Von Trier, algo que desejava muito ver no cinema, na tela grande, mas não tive coragem em 2009. As crises mostradas no filme estão muito distantes das minhas. Mas alguns pontos em comum existem. Uma pessoa em depressão tende a ampliar as coisas tristes como sendo as maiores tristezas do mundo. Tudo acaba lhe assustando. O pânico toma conta. Em vez de dizer que o copo está meio cheio, neuroticamente acaba vendo só o copo meio vazio. Surge uma inveja muito grande das pessoas que estão bem e produtivas. Tudo se passa como se de certa forma o deprimido se tornasse um tirano. Um tirano que mesmo passando grande parte de seu tempo deitado numa cama, acaba observando o movimento dos outros e até, de certa forma também, fica torcendo para que os que o rodeiam estejam tão mal quanto ele. A imagem que me vem é a de um náufrago que está tendo ajuda e acaba por tentar puxar quem o acode para dentro da água. A idéia difundida de que “o ócio é a oficina do diabo” é a mais pura verdade.

Enfim, fiquem tranqüilos, pois agora estou me sentindo muito bem por ter sobrevivido ( havia momentos em que havia uma sensação de morte iminente, por só enxergava a vida em cores cinzentas e me avizinhava da loucura).

2) Sinopse não convencional detalhada de Anticristo de Lars Von Trier

O filme começa com belíssimo preto e branco em câmera lenta mostrando um casal transando com sexo explícito (Ela: Charlotte Gainsbourg, magistral, Palma de Ouro mais do que merecida em Cannes 2009; Ele: Willen Dafoe, num trabalho admirável). Enquanto isto vemos uma criança que sai de seu berço, derruba soldadinhos no chão e voa pela janela como um pássaro, morrendo na marquise. Corte: passamos para o cortejo fúnebre da criança com os pais arrasados. Ela chega a desmaiar. Corte: já se passou um mês depois da tragédia e ela esteve internada num hospital. Ao chegarem em casa, Ele que é psicanalista, considerando-se a pessoa que mais a conhece, critica a quantidade de remédios que o médico receitou e diz que vai cuidar dela como se fosse um dos seus pacientes. Remédios são jogados no vaso sanitário. Ela passa a ter crises sucessivas. Numa delas chega a ferir a cabeça batendo com força no vaso. Ele procura saber quais são os maiores medos dela. O arrependimento e a culpa que a contagiam têm como uma das razões o fato dela saber que o filho costumava se levantar à noite. Ela que interrompeu uma tese que estava escrevendo sobre o Feminicídio (assassinato de mulheres na História da Humanidade) aponta como medo maior a floresta, em especial a casa que eles lá têm que ironicamente se chama Éden.

Os dois encaminham-se para Éden e a floresta que a rodeia. Ele procura fazer exercícios com ela para que ela aprenda a andar por ali sem medo, mas às vezes ela sai correndo. Diz que o chão a está queimando. Ele diz que quer ter “a coragem de estar na situação que te apavora para ver que o medo não é tão perigoso”. Numa das conversas na casa ela diz que “A Natureza é a Igreja de Satã”. A Natureza passa a soar perigosa. Ele passa a ver signos demoníacos. Ela tem a impressão de que o filho está vivo.Ele lhe apresenta a autópsia do filho, algo que havia escondido dela e consta uma lesão no pé. Tomamos conhecimento de que ela calçava o filho com os sapatos trocados.

Animais surgem na floresta: corvo, servo, lobo. Uma raposa falante surge e fala que o caos reinará. Surgem três mendigos: a dor, o luto e o desespero. Em muitas das crises dela, eles acabam transando convulsivamente. Numa delas, ela machuca o peito dele e ele se torna ainda compreensivo. Mas a loucura vai tomando conta do ambiente. Ele de pênis ereto ejacula sangue. Ela acaba por fazê-lo desacordar e enfia-lhe numa das pernas um esmeril (com a haste) de amolar ferramentas. Com isso no período em que ela saiu, para esconder a ferramenta que usou, ele acorda e com dificuldade se arrasta até a floresta, onde se esconde num buraco. Ela o procura e o encontra. Em um gesto de fúria, o soterra. Ao ver que ele iria morrer, o retira do buraco e o leva à Éden. Lá ela em um dos seus delírios, se auto-mutila, cortando com uma tesoura o clitóris. Fica desacordada.Ele acha a ferramenta para remover a haste de esmeril, sentindo bastante dor. Ela acorda e parte pra cima dele. Ele acaba estrangulando-a na casa e com uma muleta sai pela floresta. Um contingente de pessoas sobe a floresta enquanto ele desce, mancando. Volta na trilha uma ária de ópera que remete ao sagrado, a mesma que pontuou o prólogo do filme.

Enfim esta é uma sinopse possível para este filme altamente instigante, misterioso, com fortes camadas psicanalíticas. Outras diferentes, ressaltando outros aspectos podem ser feitas.

3) Cannes 2009

O filme aturdiu tanto o festival de Cannes 2009 que na entrevista coletiva um jornalista indignado chegou a exigir que Lars explicasse o que quis dizer com seu filme. Lars, imperturbável, disse, com toda razão, que não devia nenhuma explicação. No material que foi distribuído em Cannes o diretor escreveu que convida os espectadores para “uma olhada por trás da cortina, uma olhada no mundo obscuro da minha imaginação”. Se pensarmos bem nenhum autor pode verdadeiramente explicar sua obra (que o diga David Linch...). Cabe às pessoas que a virem/lerem, amando-a, odiando-a ou indiferentes, tirarem suas próprias conclusões. Lars mesmo com toda virulência e contundência de suas obras é um poeta de imagens e sons perturbadores e “ao poeta cabe fazer com que na lata venha a caber o incabível” ou então “deixe a meta do poeta fora da disputa, pois ao poeta cabe atingir o inatingível”, conforme Gilberto Gil em uma de suas mais belas canções, uma autêntica teoria da Literetura e por extensão do Cinema também. ”Deixe-a simplesmente metáfora”. O jornalista foi agressivo e mal educado com Lars, algo muito comum hoje em dia para gerar notícias e lucrar com elas.

4) Se atentarmos bem, o psicanalista foi irresponsável. Não foi à toa que vemos uma tragédia em evolução. A psicanálise exige distanciamento entre o paciente e o terapeuta. Ele faltou com a ética profissional ao atrever-se a tratá-la, por mais que a conhecesse. Criticar os remédios receitados também foi uma temeridade. Estes muita falta fizeram a ela.

5) Numa seqüência ela diz que ele se mantinha distante do filho e dela. Ele se defende alegando que ela é que queria ficar sozinha com o filho em Éden para escrever sua tese. Irônica e sugestivamente ela que estudava o feminicíduo acaba por mutilar-se, sentindo prazer na dor. Também quis punir-se por estar transando enquanto o filho morria. Ao mesmo tempo, inconscientemente, queria também matar o filho, calçando-o com os sapatos trocados. Muitas mães sentem o desejo de matar suas crias. Já vi num sinal fechado de uma travessia movimentada e perigosa, aqui no Humaitá-RJ onde moro, uma mulher usar o carrinho de bebê para obrigar os carros a pararem para ela atravessar, apressada. Não podia esperar o sinal abrir como todos nós.

6) Ao atravessar a haste do esmeril na perna dele, ela quis fazê-lo ficar com “todo o peso deste mundo” para que ele compartilhasse com ela sua dor, culpa e arrependimento.O deprimido é um tirano que quer os outros sentindo a sua dor. Ainda pode-se lembrar que no mito de Édipo (“pés inchados”) quando Laios, o pai, descobriu que o filho o mataria e casaria com a mãe Jocasta, fez com que ele fosse levado para floresta, onde furaram-lhe os pés e o amarraram de ponta cabeça em uma árvore para ser devorado pelos animais selvagens. Pastores de Corinto o salvaram e ele foi criado pelos reis desta cidade grega. A fuga do psicanalista ao final, mancando como Édipo, é bem significativa deste mito. Ele também foi um grande transgressor como Édipo, matando a mulher.

7) Ainda que fruto da depressão de um grande artista de obras geniais e comoventes como “Ondas do Destino” (1996), “Dançando no Escuro” (2000), “Dogville” (2003), diferentes formas de como a tentação de fazer o bem até seus últimos limites, pode levar à auto-destruição e deve ser trabalhada ( a protagonista de Dogville, exceção, passa de vítima a algoz), Anticristo é uma obra solidamente construída em que nada é gratuito.O que provoca horror tem suas motivações e pertinências, sendo o filme estruturado em um prólogo, quatro capítulos e um epilogo bem definidos em que evoluem imagens inesquecíveis.

8) Acredito que depois de comparar o relato de minhas depressões com Anticristo, o leitor entenda melhor do porquê este filme me tocou tanto. Curiosamente em minha última crise houve momentos em que eu acreditava sinceramente que iria morrer e assim conseqüentemente iria desencadear muitas perdas. Eu me sentia também um Anticristo..

Domingos de Oliveira já disse certa vez que o mundo enlouqueceu, está doente e que só a arte salva. Eu concordo totalmente. Salvei-me pela arte seja escrevendo ou como espectador e espero continuar assim daqui por diante, não digo totalmente feliz sempre, pois isto é uma quimera, conforme Bergman demonstra no seminal “Gritos e Sussurros” ( sempre alternamos altos e baixos; a felicidade a rigor não existe; o que existe são momentos felizes como quando Agnes está numa paisagem florida numa cadeira de balanço com as irmãs). Estou determinado a degustar a vida, o que resta do tempo.

Lars Von Trier nos deve ainda, dentre outras criações a terceira parte de sua trilogia sobre os Estados Unidos, depois de Dogville e Manderlay. Aguardo com carinho, curiosidade e ansiedade a produção e exibição de Wasington (é assim mesmo). É mais um bom motivo para viver bem até lá, vendo filmes, lendo, escrevendo, conversando com amigos, etc.

A escritora de Von Trier tomou trilhas erradas para sua cura. Mas as pessoas para um mesmo problema acabam tendo sentimentos e reações diferentes. A rigor, não podemos julgá-la nem ao marido por querer ajudá-la de uma forma errônea.

Lars Von Trier nos mostra em suas obras a complexidade, as contradições e ciladas da arte de viver. Viver é muito perigoso, diz Riobaldo em “Grande Sertão:Veredas” de Guimarães Rosa. Mas vale a pena viver. Mesmo num mundo que conspira contra nós.

É melhor parar por aqui.

The End.

Ps. Textos que me ajudaram na construção do post:

http://cinema.uol.com.br/ultnot/2009/08/27/ult26u28833.jhtm

http://blogs.estadao.com.br/luiz-zanin/?s=Anticristo

Links das Imagens

http://www.semanacineespiritual.org/crit/anticristo_sanchez_files/Anticristo.jpg

http://ideiasabstratas.files.wordpress.com/2009/09/2009horrormovieantichristphotocall1yxnmt9mvg-l.jpg

http://cheioderaminho.files.wordpress.com/2009/09/antichrist_lars_5-1024x434.jpg