quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Seria a Crítica de Cinema no Brasil Heterocêntrica?


Vejamos o seguinte caso, tirado do Blog Canto do Inácio:

"A Bela Intrigante" é um filme difícil de recomendar: dura quatro horas e poucas coisas acontecem. E o que acontece não é, em princípio, tão emocionante: um pintor pinta seu modelo.

Mas seria delicado não recomendar esse filme sobre a arte e sua dificuldade. É a obra-prima de Jacques Rivette, um cineasta difícil que parece ter construído sua obra para chegar aí. Se não basta, a musa e modelo é musa de qualquer homem sensato, Emmanuelle Béart.

O primeiro argumento pode não colar. O segundo, é irrespondível.

(texto publicado na Folha de S. Paulo do dia 24 de maio de 1999)


Considero também uma obra-prima este filme de Jacques Rivette.Suas 4 horas não me cansaram de forma alguma e acho Emmanuelle Béart lindíssima mesmo. Mas e se eu disser que o que também me atrai bastante no filme é a sensualidade, elegância, beleza e a tensão criativa nervosa apaixonada de Michel Piccoli, como serei entendido?

Exaltar a beleza incontornável de musas como Marylin Monroe, Juliette Binoche, Greta Garbo, Marlene Dietrich, Catherine Denuave, Ingrid Bergman, dentre outras é válido. Considerá-las uns fetichaços, ganha fáceis adesões entusiasmadas. Mas e se um crítico escrever que Montgomery Clift, Marlon Brando, James Dean, Richard Gere, Leonardo Di Caprio, Kevin Spacey, George Clooney, Terence Stamp, Marcello Mastroianni,dentre outros, são também fetichaços, como será visto?

Por que insistiram tanto que “O Segredo de Brokeback Mountain” de Ang Lee não era uma história de amor entre dois homens de fato e sim uma história de amor no seu sentido mais geral, arrefecendo a forte carga de homoerotismo do filme, sua problemática e implicações?

Por que precisamos chegar a um documentário ensaio como “O Celulóide Secreto” de Jeffrey Friedman e Robert Epsteisn para percebermos as filigranas de homofobia na História do Cinema? Não deveria ter havido antes críticos que ressaltassem aquilo que no documentário salta aos olhos: o escamoteamento em diversas facetas da homossexualidade no Cinema?

Por que um filme belíssimo como “Shortbus” de John Cameron Mitchel só teve, que eu saiba, suas grandes qualidades reconhecidas num comovente artigo no gueto a que confinaram o escritor João Silvério Trevisan que é a revista G Magazine, quando pelo seu histórico artístico já deveria ter colunas fixas em jornais de grande penetração?

Por que Paulo Francis escreveu impunemente sem que ninguém reagisse que Visconti transformou “Morte em Veneza” de Thomas Mann em um filme de “bicha velha”?

Por que num documentário sobre a vida e obra de Rainer Werner Fassbinder não se refere em nenhum momento à homossexualidade do diretor e ninguém comentou nada a respeito?

Por que os filmes que ganham o Teddy Bear no Festival de Berlim, o que melhor aborde a temática homoerótica, raramente são exibidos no Brasil e ninguém reclama?

Por que Sir Ian McKellen foi “garfado” no Oscar para melhor ator por seu excepcional trabalho em “Deuses e Monstros” de Bill Condon, tendo sido ganhador Roberto Benigni e ninguém escreveu nada a respeito desta grande injustiça? Comentou-se como era exagerado Roberto ganhar, mas não o quanto era desastroso Ian perder...

Por que nunca se viu um crítico cobrindo de cabo a rabo os festivais Mix Brasil organizados por André Fisher ou a Mostra Mundo Gay do Festival do Rio para salientar o que seria realmente imperdível, segundo seu gosto?

Por que Rodrigo Fonseca tascou bolinha preta e escreveu no JB que com “A Má Educação” cai a máscara de Pedro Almodóvar e, ao que eu saiba, a única personalidade que reagiu a esta ignomínia homofóbica foi o ator Sérgio Brito?

Por que não se vê nenhum crítico escrevendo a falta que faz no Cinema Brasileiro filmes que tratem a questão do homoerotismo em suas diversas especificidades e complexidades, que este é um tema muito pouco explorado ainda, com exceção de filmes como “Crônica da Casa Assassinada”, “Aqueles Dois” e poucos outros que existem sim, mas que estão bem aquém, quantitativa, qualitativa e relativamente aos anos em que já existe em processo cinema sendo feito no país?

Por que com exceção do ensaísta João Luiz Vieira em “O Cinema-Faca de Sérgio Biachi”, o cinema deste autor ainda é tão pouco analisado e reconhecido no país, com algumas obras de fortes observações sobre homoerotismo como na obra-prima imperfeita “Romance”?

Por que com exceção de Rubens Ewald Filho e Jean-Claude Bernardet, não se vê, não se viu crítico de cinema saindo do armário e declarando-se objetivamente homossexual?

Por que não há estudos claros sobre o modo como Visconti privilegia bastante também o rosto e a beleza dos homens em seus filmes?

Por que durante tanto tempo a homossexualidade não declarada de muitos críticos era sublimada no culto excessivo às divas de Hollywood?

Por que a nudez feminina é muito mais freqüente no cinema brasileiro ou estrangeiro do que a nudez masculina e isto é muito pouco comentado? Por que a cena ridícula de Harrison Ford em “Busca Frenética” saindo nu da cama para uma luta, segurando um ursinho para esconder a genitália não foi comentada, mesmo saindo de um cineasta tão importante e transgressivo como Polanski?

Por que o festival do Rio de Janeiro não tem feito uma boa curadoria para a Mostra Mundo Gay e isto não é motivo de crítica?

Por que ninguém comenta a falta que faz um documentário sobre o histórico da Parada GLBT de São Paulo, dado que depois da manifestação pelas Diretas Já!, este é o acontecimento político que mais reúne brasileiros em torno de uma causa?

Por que Eduardo Coutinho que gosta tanto de fazer documentários sobre o que não conhece para caminhar em direção a prazerosas descobertas, nunca procurou realizar um trabalho sobre como de fato vive o pessoal GLBT no país e ninguém comenta nada?

Por que não temos ainda filmes sobre a grande quantidade de assassinatos de pessoas GLBT no país, um dos locais do planeta em que mais isto acontece, documentários ou ficções e ninguém sente falta?

Por que ninguém especulou, ainda que com incertezas, sobre a sexualidade do protagonista constantemente angustiado de “Trinta Anos Esta Noite” de Louis Malle que acaba se suicidando?

Por que ninguém comentou uma provável e sutil homofobia do genial Hitchcock que sempre teve gosto em colocar psicopatas homossexuais, como os de “Pacto Sinistro”, “Rebecca, a Mulher Inesquecível”(num certo sentido), “Festim Diabólico”, em alguns de seus filmes? Neste último há algo deste teor na boca de James Stewart: “Ele (o assassinado) poderia amar como vocês (os assassinos) jamais poderiam...” Se o cineasta, grande mestre, era capaz de criar estas arestas por serem aparadas, imaginemos outros de menor expressão...

Por que nunca se teve uma retrospectiva da obra do cineasta alemão Rosa von Praunheim ( de “Um vírus não conhece moral”, “Não é o homossexual que é perverso mas a situação que ele vive”, dentre outros) no Brasil e ninguém sentiu falta?

Por que nunca se comentou a leitura homoerótica que se pode ter de “A Faca na Água”, obra-prima de Roman Polanski, num triângulo amoroso intercambiável, com a faca talvez sendo um símbolo fálico?

Por que uma leitura homoerótica de “O Gosto da Cereja” de Abbas Kiarostami empobreceria o filme ao invés de enriquecê-lo? Um homem anda de carro pra lá e pra cá a procura de alguém que o ajude a se suicidar, mas também poderia estar à procura de uma pegação que o salve....

Por que além de “Bent”, adaptação diluída da peça de sucesso de Martim Sherman, que perde a forte teatralidade no cinema, pouco se fez no écran para abordar as várias implicações do assassinato brutal de homossexuais em campos de concentração nazistas, onde usavam roupas com um triângulo rosa, sendo considerados de “classe” ainda inferior aos judeus? Por que ninguém sente a falta desta necessária vertente do cinema? Visconti fez “Os Deuses Malditos” mostrando o assassinato de homossexuais na “noite dos longos punhais”. Mas no fundo é um filme sobre a decadência de uma família aristocrática produtora de aço para armamentos bélicos.

Por que já se esqueceu que uma das cenas mais eróticas do cinema é a luta entre Oliver Reed e Alan Bates nus em “Mulheres Apaixonadas” de Ken Russell , adaptação fantástica de romance de D.H. Lawrence, que deu o Oscar de melhor atriz para Glenda Jackson?

Por que pouco se lembra o assassinato programado de Pasolini, mostrado em várias nuances em “Pasolini, um Delito Italiano” de Marco Túlio Giordano? Não deveria ser esta uma cobrança eterna até as autoridades italianas tomarem reais providências para revelar a verdade? O tanatológico e asfixiante “Saló- Os 120 dias de Sodoma” foi o testamento premonitório de Pier Paolo Pasolini de seu assassinato oficial pelo Estado italiano.


Enfim, perguntas não faltam, de maior ou menor relevância.

A resposta para a pergunta do título do post é relativamente fácil. Com raras exceções a crítica que se pratica no Brasil ( e provavelmente no mundo todo também ) é heterocêntrica sim! Que tal mudar esta situação? É o que estou tentando fazer aqui no Blog, dentre outras experimentações. Mas posso pagar um preço muito alto. Os leitores heterocêntricos e/ou homofóbicos podem querer me ignorar. Já o pessoal GLBT militante pode estar preocupado demais com a necessária militância por direitos e passar ao largo das questões culturais. Já o pessoal GLBT fashion pode estar preocupado mesmo é com a nova roupa para a próxima balada. Assim posso desagradar a gregos e troianos. Corro este risco. Mas vale a pena tentar algo diferente. É desta vontade que tiro minha força para continuar. Além do mais, existem muitos baianos que podem estar interessados.

Nelson Rodrigues de Souza

O Planeta Jabor e Suas Ressonâncias


Muitos falam do impacto que tiveram ao assistir “Deus e o Diabo na Terra do Sol” de Glauber Rocha na época do lançamento. Eu ainda era criança e estava mais ligado nas matinês de filmes americanos. Anos depois, já adulto, vi e revi o filme. Entendo este impacto, senti que um filme super-extraordinário estava diante de meus olhos, mas não é o mesmo sentimento de quem viu o filme nascer.

O primeiro filme brasileiro que vi que realmente tirou meu chão, me deixou chapado, pois não sabia que aqui no Brasil poderia se chegar a tanto foi “Toda Nudez Será Castigada” (Brasil/1973) de Arnaldo Jabor, quando estava pelos meus dezoito anos, ainda “muito bobinho” no interior de São Paulo. Esta obra me pareceu totalmente fora de esquadro (no melhor sentido) em relação a tudo que já tinha visto de Cinema Brasileiro até então. É um autêntico Nelson Rodrigues magnificamente bem filmado com tema de Astor Piazzola onipresente que não me sai da cabeça até hoje, uma crítica virulenta à família pequeno-burguesa de classe média e que conta com um dos mais impressionantes desempenhos da História do Cinema, não só do brasileiro, que é a entrega visceral e total de Darlene Glória ao papel da prostituta Geni. O Herculano de Paulo Porto também é magnífico, mas o coração desta grande obra, magnetizante e hipnotizadora do início ao fim, é realmente Darlene, por mais vibrante que seja o trabalho de direção e a força dos coadjuvantes com Paulo César Pereio, Elza Gomes, etc. Acredito que de certa forma este filme me impulsionou, ao meu modo, a deixar para trás as “neuroses de família” e também, metaforicamente, “fugir com o ladrão boliviano”, como faz Serginho no filme, filho do viúvo Herculano, como todos, eivado de ambigüidades inquietantes.

Acompanhei depois toda a carreira de Jabor com bastante entusiasmo vendo todos os seus filmes, com exceção de “Pindorama” que ficou muito pouco tempo em cartaz, “O Circo” e “Opinião Pública”, o que devo corrigir agora em DVD. Se “Toda Nudez Será Castigada” ainda é o ponto mais alto, dentre os que vi, “O Casamento”, “Tudo Bem” e “Eu Sei Que Vou Te Amar” (que deu o prêmio de melhor atriz a Fernanda Torres em Cannes, num trabalho realmente impressionante) são também filmes para qualquer antologia do Cinema Brasileiro que se preze. Jabor vai da micro-política, do social ao intimismo (com grandes reflexos da psicanálise) como poucos cineastas sabem fazer, como Bernardo Bertolucci, por exemplo. Só que se há uma forte cultura cinematográfica por trás, seus filmes refletem aquilo que é difícil de conceituar, mas é mais fácil constatar: um toque forte de brasilidade. Seus filmes tanto atingem o status de universalidade como são fantásticos retratos pintados da “aldeia” onde vive o autor.

Assim foi com muita tristeza que vi Arnaldo desistindo da carreira de cineasta e passando a se dedicar somente à carreira de jornalista. Mas mesmo nesta atividade, ainda que haja algumas vezes pérolas que me irritam (não consigo esquecer o apoio tácito de Jabor ao governo FHC), há momentos de grande perspicácia dentro de seu estilo “apocalíptico”. Por exemplo, o melhor texto que li sobre “Kill Bill –Volume 2” foi de Jabor. Assim se às vezes leio Jabor com um pé atrás, muitas vezes sou surpreendido com análises abrangentes muito interessantes, sempre muito instigantes e bem escritas, uma prosa de voltagem poética, autênticos torvelinhos labirínticos intelectuais contra a mediocridade e o conformismo vigentes.

Agora tenho a satisfação de saber que ele está preparando sua volta ao cinema com “A Suprema Felicidade” depois de 18 anos sem filmar. Estou ansiosíssimo pelo resultado, pois se trata-se de uma pessoa polêmica, é com certeza um grande artista. Vamos ver que visão de mundo inquieta nos trará agora esta espécie de “Amarcord” que ele pretende realizar.

Em paralelo ao projeto fílmico Arnaldo continua escrevendo suas crônicas e muitas delas sinto como dolorosamente verdadeiras e com precisão cirúrgica. No Globo de 10 de fevereiro de 2009 há um trabalho com o qual comungo totalmente e vai de encontro a um post que escrevi sobre os ideais americanos, tendo como motivação “Foi Apenas Um Sonho” de Sam Mendes. Da crônica de Jabor, ressalto o final contundente, mas que merece bastante reflexão.

“Como Mudar o Coração Americano”- Moram na alma americana vícios difíceis de curar”

.....
Em um de seus discursos ,Obama disse que os americanos precisavam se “reeducar” em relação ao resto do mundo. Outro dia li a mesma coisa em um livro extraordinário: “The Limits of Power” de Andrew Bacevich, texto que pauta intelectuais hoje nos EUA , incluindo o Obama.

Andrew nos mostra que há uma estrutura psicossocial quase “genética” que tem de ser reformada no país, para que alguma mudança real se faça, para além da euforia da esperança. Ele nos mostra que a idéia de sacrificar-se pelo conjunto, de se contentar com pouco, de consumir menos é impenetrável nos corações americanos. Se Obama não conseguir, a estrutura e ignorância voltarão “com o totalitarismo da maioria”. E, aí, a barra pesará.


Jabor faz também algumas críticas justas ao governo Lula ainda que às vezes delire (“Palocci é uma ilha de lucidez dentro do governo...”). O problema maior para mim é que ele poupava FHC de críticas acerbas, o que arrefece e coloca sob suspeita o impacto de suas colocações agora sobre política brasileira na era Lula. Mas eu não deixo de prestar atenção ao que ele escreve porque aqui e ali encontramos colocações brilhantes Assim tomara que ele voltando ao cinema não deixe de escrever suas crônicas. Não é á toa que fazem sucesso quando lançadas em livros. Quem sabe o prazer de voltar a fazer um filme agora, com a alma mais aliviada, melhore ainda mais seu trabalho como cronista que pode correr em paralelo. E eu até acabe esquecendo um pouco sua adesão aos desmandos da era FHC.....Será que conseguirei?....

Nelson Rodrigues de Souza

Ps.O cartaz que escolhi fala em desnudez em vez de nudez. Será coisa da “terrinha”?....

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O aprendizado fetichista- Um conto dos tempos modernos


Um dos maiores atores que o cinema americano já teve é Jack Lemmon, extraordinário tanto em comédias como dramas. Em “O Sucesso a Qualquer Preço” (Glengarry Glen Ross/EUA/1992) de James Foley, baseado em peça de David Mamet temos um dos seus grandes desempenhos dramáticos, contracenando com o que ele mesmo reconheceu ser o melhor elenco de sua vida.

Numa firma de venda de imóveis o chefe Blake (Alec Baldwin) ameaça sem nenhuma cerimônia seus funcionários. O corretor que fizer melhores vendas ganhará um Cadillac dourado, o segundo lugar um conjunto de seis facas para churrasco, o terceiro o olho da rua. Shelley (Jack Lemmon), Ricky ( Al Pacino), Dave ( Ed Harris) e George (Alan Arkin) são os corretores que entram em competição acirrada, o que vai despertar neles as maiores torpezas, principalmente em Shelley que será capaz de um roubo, tão preocupado está com a perda do emprego por ter seriíssimos problemas de família.

Numa época de competitividade mais violenta ainda, com demissões em massa, não é preciso ter muita imaginação para imaginar quantas perversidades estão sendo praticadas por aí. Na “melhor das hipóteses” ouve-se falar em perda de direitos adquiridos para garantia de empregos, com empresários bastante assanhados para manter suas margens de lucros mesmo diante da medonha crise.

O conto a seguir baseado numa história vivida por mim tem obviamente as manhas da ficção e não pode ser encarado como totalmente autobiográfico. Posso dizer como Fellini que minto, mas sou sincero. Por outro prisma, tem fortes pontos de contacto com o que estamos vivendo e com o filme citado.
Nelson

O aprendizado fetichista

A gente passa os últimos anos todos sonhando com a formatura e quando ela se avizinha nos sentimos como um doente terminal, numa caixa de sombras, à espera do ultimo suspiro. Será que valeu a pena tanto esforço, concentração e estudo para digerir aquelas teorias econômicas todas que se atropelam diabolicamente, com um mínimo de consenso? A parte mais pragmática da economia (mais de acordo com essa mesquinha sociedade em que vivemos), sempre me repugnou um pouco. Nunca fui muito chegado a moedas, bancos, bolsa de valores, ações e outros bichos. Eu me amarrava mesmo (e ainda me amarro?) em estudar as diversas escolas da economia e porque não confessar agora (mesmo sem nenhum torturador por perto...) o pensamento de Marx, aquele cuja mãe sabiamente sentenciou (como minha família parece me cobrar agora) “em vez de se dedicar a estudar O Capital, deveria se dedicar é a ganhá-lo”. Sim, eu gostaria de ser difamado agora de marxista, comunista. Sentiria até certo regozijo. Seria um prêmio por tanta pestana queimada. Mas não seria verdade. Ainda faltam-me muitos estudos e uma vida prática que tenha com as idéias em mente um mínimo de coerência. Além do mais com tanta infâmia praticada em seu nome nem Marx seria hoje marxista, quanto mais eu, um pobre-diabo que depois de quatro anos de estudo, mendigo a alguma instituição ou empresa que se digne conceder-me um emprego. O revolucionário aqui que “não tem parentes importantes e veio do interior”, está com fome e anseia pela “sopa reacionária” conforme profetizou o Millôr.

Sinto-me ridículo ao debruçar-me neste computador para tentar elaborar o meu curriculum-vitae e enviá-lo a esta kafkiana empresa que anuncia sorrateira, num jornal o seguinte:

“Grupo Empresarial de Grande Porte procura:

ASSISTENTE DE PLANEJAMENTO

Recém-formados em Economia para trabalho em análise e interpretação de dados estatísticos e de mercado, planejamento estratégico, análise financeira e montagem de modelos matemáticos de simulação.

Fornecemos treinamento, perspectiva de carreira, bom ambiente profissional. Só não aceitamos medíocres.

Os candidatos devem enviar email com curriculum vitae e pretensões salariais para guaiba@uol.com.”

Não! Eu não posso enviar um email assim no escuro! Ou devo? Estou sabendo do que se trata. Um colega meu já mandou currículo para esse email. Foi chamado e reprovado nos testes psicotécnicos. Este grupo empresarial de grande porte trata-se de uma multinacional de celulose: uma exportadora.

Este currículo já está quase pronto, só falta incluir agora aquele curso de pós-graduação que fiz, paralelamente à faculdade, na famosa Academia Brasileira de Números.

Sem saber direito o que me aguardava o próximo ano sondei a possibilidade de ganhar a bolsa da prestigiada academia e ir levando a vida como “mão de obra hibernante”, fazendo pós enquanto não arrumasse um trabalho. Mas a minha passagem por aquela instituição deu-se como um cometa que singra o espaço e desaparece dos nossos olhos sem que as nossas retinas detenham uma imagem sequer.

No primeiro dia de aula senti-me tão à vontade quanto um índio numa reunião maçônica. A pose de sabichões, de rapazotes-prodígios daqueles meus colegas incomodava-me bastante. Como estava num território estranho, me assumi logo como ovelha-negra e deixei o barco correr. Não estava mais no reino das idéias e sim no das fórmulas milagrosas. A filosofia era curta e simples. “A economia é um corpo orgânico e tende sempre ao equilíbrio, movida por forças de mercado que devem atuar livremente”. Ninguém fazia a menor objeção e eu não sentia ambiente favorável para “levantar a lebre”. Assim com base neste dogma o jovem professor, um enfant-terrible que antes da curva dos trinta anos já era PHD pela famosíssima escola monetarista de Chicago, a qual legou à humanidade as mais brilhantes criaturas (depois de Hitler é claro!...), procurava então estabelecer modelos abstratos formulados em termos matemáticos para explicar “como os numerosos agentes que compõem a economia tomam decisões e como estas decisões são coerentes entre si”...

E eu que pensei que soubesse alguma coisa de matemática vi todos os meus pilares ruírem quando o mestre num virtuosismo ininterrupto desfilava matrizes e mais matrizes de tudo quanto se possa imaginar. Todos permaneciam atenciosíssimos, os olhos vidrados. O professor perguntava se todos estavam acompanhando, ninguém manifestava a menor dúvida e eu, recolhido à minha insignificância com medo de ser descoberto como um medíocre enrustido, mirei-me no exemplo daqueles atenienses, os Sócrates e Platões redivivos, fazendo cara de quem estava aprendendo tudo.

Alegria! Num gesto ousado travei um diálogo com um colega num intervalo e descobri que eu não era o único que não estava entendendo patavinas daquelas elucubrações todas. Salve! Não iria mais amargar solitário a minha inferioridade. Passamos então a estudar juntos. Perdemos um sábado inteiro tentando desvendar um exercício proposto (não sabíamos nem o que mestre queria que provássemos) e descobrimos, estupefatos, que o problema já estava resolvido no livro texto, mas não o tínhamos achado porque estava tão dissimulado quanto um par de lentes de contato num imenso capinzal.

O mestre repisava que repisava as suas ferramentas prediletas: “Equações de Euler e Condições de Transversalidade”. Esses eram os conceitos básicos e não havia aula em que esse instrumental não fosse utilizado para demonstrar as mais mirabolantes relações, as quais convergiam milagrosamente para o tão sonhado “paraíso aqui e agora”, o magnânimo, transcendental, “estado ótimo de Pareto”, o apogeu com que toda sociedade de consumo sonha: “aquele estado em que dentro das limitações impostas, pelas condições de consumo e produção de cada um e pelos recursos totais da economia, não se pode satisfazer melhor as preferências de qualquer consumidor sem piorar aquelas de qualquer outro”.

Estava acabado o curso com fecho de ouro! Chegávamos todos ao final neste estado de Pareto, nossas ansiedades e avidez pelo consumo de economês tinham sido saciadas. Andávamos com a cabeça nas nuvens, leves como um pássaro, orgulhosos de tanta cultura assimilada e do dever cumprido. Nirvana total!

Ledo engano! Nós que pensávamos que a avaliação seria feita por uma série de exercícios já entregues, recebemos uma ducha de água fria: o professor marcava de supetão um exame oral para a semana seguinte!

Espanto! Emoção! Suspense! E se seja o que Deus quiser!

Na manhã fatídica o mestre chamou o infeliz que tinha o nome iniciado pela letra A e pediu-lhe que fosse ao quadro:

“Escreva as equações de Euler e as Condições de Transversalidade”.

A galera respirava com cautela e acompanhava o Armandinho a escrever, sereno, imperturbável, as relações que tinham o status de revelações de um oráculo moderno.

O mestre contemplou a lousa repleta de alfas, betas, gamas, pis, deltas, psis, ômegas e exclamou, também imperturbável, sem o menor esgar de emoções:

- Não é nada disso. O próximo! Bento por favor!

E aí veio uma sucessão de vergonhas expostas nua e cruamente perante todos. Pequenos reis a desfilarem a sua nudez sob os olhares perplexos e cúmplices dos demais. Na minha vez relaxei: nem tudo estava perdido....Ainda podia perder a vergonha... Ninguém sabia aquilo que consistia no ABC do curso, falávamos inglês pela sala de aula e corredores, mas não sabíamos conjugar o verbo To Be...


Ser e Não Ser, eis a questão...

A rigor, estaríamos todos reprovados, mas o mestre era muito bondoso, não deixaria os seus discípulos desamparados. Fez então as perguntas mais elementares possíveis à sua seleta platéia. Perguntou ao colega com quem eu compartilhava as perplexidades:

"Se eu elevar “e” ao número ao qual eu devo elevar e para obter “x” o que obtenho”?

Não! Não perguntou exatamente isso, mas algo parecido, uma variante mais sofisticada da “cor do cavalo branco de Napoleão”. Eu, calhorda, torcia no meu íntimo para que meu colega errasse e o professor passasse a pergunta pra mim, pois esta eu sabia!...E dito e feito... Safei-me! Ao fim, passamos todos nós, como uma ação entre amigos, com o conceito mínimo de aprovação! E o conceito do curso também foi salvo!

Agora é só incluir no meu curriculum vitae esse fabuloso curso de Economia Matemática e todas as portas me serão abertas! Mesmo que tenha sido um curso de aproveitamento tendendo a zero...

Como alguém pode passar quatro meses dando aula para uma turma e não se preocupar se está sendo bem entendido? As suas interpelações esporádicas não tinham a menor força, eram simplesmente interrupções burocráticas, sem vida, sem sinceridade, destinadas simplesmente a fazer com que ele tomasse fôlego para prosseguir com o seu maníaco exibicionismo. “Olhem só quão gênio da matemática eu sou” – nos insinuava a todo momento.

E como pudemos ser cúmplices desta farsa durante tanto tempo? Como pudemos representar tão bem assim? Onde arranjamos essa coragem, essa deslavada cara-de-pau? Como foi que aprendemos a arte do silêncio conveniente com tanta eficiência assim?

Do professor podemos compreender o porquê dos seus gestos: como poderia ler mais fundo os nosso olhos, desvendar as nossas angústias dissimuladas, entender as nossas almas retorcidas se aprendeu simplesmente a encarar os seres humanos como indivíduos avessos ao risco ou amantes do risco? Para ele o homem é uma utopia já digna da rabeira da História, o que conta a agora são os homens-hora, as forças-tarefas, prontas a se perderem a qualquer hora, a qualquer momento (basta um sinal) numa disputa mesquinha por um cargo, uma vaga qualquer, uma guerra contra um inimigo que lhes é imposto....

Ele sim, o compreendemos (ainda que não o justifiquemos), mas e a nós, como compreender a nossa capitulação precoce aos imperativos da lei da selva (ofertas, procuras e desencontros)?

O que seria da Física, da Química, se descobríssemos hoje que elétrons, prótons, nêutrons não existem, que o átomo tem uma configuração completamente diferente desta que nos ensinaram? As leis físico-químicas todas que aprendemos cairiam por terra. É mais ou menos isso que sinto em relação a essa economia oficial, apoiada em dogmas discutíveis como “a possibilidade da existência de um equilíbrio numa economia caracterizada pela propriedade privada” ou então o mais fatídico “cada um cuida de si que a mão invisível do mercado cuida de todos”.

Mas que equilíbrio é esse?Esses economistas de mentalidade mecanicista que acreditam que a economia funciona como os corpos da mecânica deveriam é ser mais coerentes com o seu “cientificismo” e levar em conta aquela lei da Termodinâmica que diz que “num sistema isolado a tendência espontânea é a desorganização, o aumento da entropia, da desordem...”

Esse curso que fiz não é um curso, é um fetiche. Certos casais só têm uma relação sexual satisfatória quando um dos parceiros apela para um fetichismo qualquer. Para uma relação sexual “normal” não haveria a necessidade do marido, por exemplo, colocar “aquelas meias”, mas para ele há a necessidade imperiosa daquele elemento.

Num mercado de trabalho normal, não contaminado, não haveria necessidade de se incluir um curso como esse que fiz. É apenas um fetiche. Mas na vida dita prática torna-se imprescindível.

Estou aqui ultimando o meu currículo para ver ser arrumo uma colocação numa multinacional de celulose, mas que madeira é essa? De onde, como, em que condições essa madeira é extraída?... Não será melhor não fazer perguntas?

Sim, vejo que poderei utilizar meus conhecimentos aprendidos no curso de pós-graduação precoce: de como ter diante de si inúmeras perguntas e mesmo assim se controlar e não fazer nenhuma... Estamos catedráticos nesta matéria!

É a mim que eles estão buscando! O homem certo no lugar certo! Objetivo? Maximizar os lucros! Meios? Não me diz respeito...

É. Pena que eu ainda seja um principiante. Com essa crise vai chover emails pra lá. E tem gente com muito mais cursos fetichistas do que eu! Essa concorrência não é perfeita!...

Mas vamos mandar o currículo assim mesmo para ver que bicho vai dar, me pegar.

Vou enviar um email polpudo, enfatizando os cursos todos que fiz, as línguas que falo, escrevo ou leio, os estágios que fiz (será que serve o de caixa da Lojas Americanas?), com carinho especial pelo curso da Academia Brasileira de Números.

Se depois de uma batelada de emails enviados aos mais recônditos estabelecimentos, não obtiver nenhuma “colocação”, só me restará apelar para aquele velho projeto da construção de um apiário no pequeno sítio do cunhado. Assim poderei extrair mais-valia de alguém (no caso as abelhas) sem a menor culpa, explorá-las até a última gota de mel.

Nelson Rodrigues de Souza

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

No Tempo da Delicadeza em Meio a um Histórico de Barbaridades


Quando já pensamos que vimos “todos” os questionamentos e óticas sobre o nazismo no Cinema, dada a profusão de filmes sobre o tema, surge este surpreendente e majestoso “O Leitor” (EUA/Alemanha/2008) de Stephen Daldry, uma obra de delicada construção que faz jus ao que já vimos do mesmo diretor: “As Horas” envolve três mulheres com problemas com pontos de contacto em três tempos distintos, com encaminhamentos bastante diversos; ”Billy Elliot” é um dos mais belos retratos da força da vocação e pertinácia do ser humano para uma atividade, desde a adolescência, no caso o balé, num ambiente proletário refratário e preconceituoso.

Daldry tem incontáveis detratores. Com este filme não é diferente. Há pessoas que parecem ter vergonha de filmes que tão contundentemente nos leva a fortes emoções no cinema. Quem leu meu post “Respeito Muito Minhas Lágrimas” sabe do valor que dou às emoções genuínas, sem golpes baixos, que alguns filmes bastante especiais nos provocam. Com “O Leitor” não foi diferente. Este drama humano suis generis trouxe-me lágrimas que reputo como sagradas, como em “A Troca” de Clint Eastwood, outro grande filme da temporada.

O que tem “O Leitor” de Stephen Daldry de especial? Primeiro, assim como o admirável “A Vida dos Outros” é um filme sobre o poder cicatrizador da arte , ou então como bálsamo ainda que temporário para dores profundas. Segundo, é um retrato perturbador da contaminação do indivíduo pelas perversidades sociais.

No pós segunda guerra mundial, na Alemanha, o adolescente de 15 para 16 anos Michael Berg (David Kross quando jovem, Ralph Fiennes quando adulto) tem um tórrido romance com uma cobradora de bonde com passado misterioso e eclipsado, num misto de estratégia, vergonha e tentativa de esquecimento, Hanna Schmitz (Kate Winslet, ainda mais luminosa do que em “Foi Apenas Um Sonho”, já comentado em outro post), uma mulher com o dobro de sua idade. Hanna gosta muito que ele leia livros para ela, pois é analfabeta. Assim entre uma transa e outra (mostradas sem pudor e com plasticidade aliciante) ele lê trechos de “A Odisséia” de Homero, “A Dama e o Cachorrinho”, conto de Anton Tchekhov, dentre outros textos. Ela, atenta, apesar da instabilidade emocional, se acalma com o prazer de ouvir as belas histórias escritas e no mergulho numa sexualidade revigorante.

Hanna desaparece misteriosamente. Michael vai reencontrá-la oito anos depois quando ele é estudante de Direito, num tribunal onde ela e outras mulheres são julgadas por crimes de guerra dado que foi escrito um livro em que elas são citadas, tendo sido guardiãs de prisioneiros no campo de concentração de Auschwitz. Com vergonha de declarar-se analfabeta, o que Michael percebe, mas respeita com grande dor, ela aceita uma culpa maior que não é sua e recebe uma pena bem mais pesada que as outras.

Michael adulto vai ter relações instáveis com as mulheres, marcado que foi para sempre pelos episódios vividos e vai tentar uma forma de reparação que vai ser tanto a salvação de Hanna, como de certa forma sua perdição final, pois a consciência maior dos seus atos vai quebrar os muros de ignorância que criou em torno de si, para se proteger da brutal cumplicidade que praticou.

“O Leitor” toca em várias questões delicadas e candentes. Pode alguém ser condenado por colaboracionismo simplesmente porque foi citado num livro quando se sabe que milhares de alemães praticaram o mesmo, muitos em formas bem piores?Uma paixão forte na juventude pode ser determinante para o resto da vida e que contornos pode tomar? Quais as formas de reparação possíveis num caso melindroso para os antigos amantes, cada um com suas culpas?A ignorância cultural pode justificar a adesão ao fatídico e nocivo (até hoje) lema “manda quem pode, obedece quem tem juízo”? Até que ponto a arte pode redimir, ser um lenitivo forte ou trazer uma consciência insuportável de si, numa auto-leitura, num efeito contraproducente? Como lidar com os impasses em que a frieza da lei nem sempre converge com sentimentos morais e éticos? Quais as fronteiras que separam a inocência da culpabilidade num universo em derrisão e caos oficializado?O que podemos fazer em grupo que jamais faríamos isoladamente?Até onde podemos ir quando trazemos no íntimo um forte sentimento de vergonha paralisante?Etc.

Bergman nos contou que uma das razões para ter feito “O Ovo da Serpente” sobre os primórdios do nazismo, é o sentimento de vergonha por ter ido quando jovem à Alemanha e ter feito saudações nazistas junto à uma multidão. Um caso mais sério e bastante polêmico foi a declaração do prêmio Nobel de Literatura alemão Günter Grass, de “O Tambor”, um dos maiores críticos da Alemanha (dividida ou não) em vários estágios de sua História, de que quando jovem pertenceu aos quadros da SS, em seu livro autobiográfico “Nas Peles da Cebola”. Günter obviamente tinha um grau de instrução infinitamente superior ao de Hanna.

“O Leitor” baseado no best-seller homônimo de Bernhard Schlink, numa produção dos notáveis artistas Anthony Minghella e Sydney Pollack, já falecidos, não procura absolver Hanna automaticamente. Apenas tenta mostrar, de forma complexa, como os seres humanos podem cair numa grande encruzilhada ética e moral e se deixar levar por caminhos que são paradoxalmente facílimos e dificílimos ao mesmo tempo.

Hanna é uma nossa semelhante, gostemos ou não. Ela traz em extremos o pior e o melhor de todos nós. Seu analfabetismo tem ecos com o não menos brilhante “Mulheres Diabólicas” de Claude Chabrol onde esta condição recalcada e oculta em uma empregada, leva uma família burguesa de província a quem servia a uma tragédia, em mais um memorável trabalho de Isabelle Huppert.

Há quem considere que “O Leitor” se sustenta em obviedades mastigadas. Não concordo absolutamente. Com a antológica performance de Kate Winslet nos mergulhamos em desvãos, em um profundo abismo que povoa sua alma e nos reflexos que provoca ao seu redor, tanto em Michael adolescente como mais adulto. Este último vivido com a sensibilidade, força e os olhares tristes, que já nos acostumamos a esperar de Ralph Fiennes, em perfeita sintonia com seu passado representado por um memorável ator jovem descoberto que é David Kross, o qual nos passa uma admirável carga de maturidade precoce aliada ao encantamento pela descoberta da sexualidade e suas doces e amargas torturas.

“O Leitor” é um filme de grande nobreza ainda que aborde sentimentos nobres que se misturam a sentimentos torpes. Mas o filme está longe de qualquer morbidez. Sua delicada tessitura nos convida a ampliarmos nossa visão de mundo e compreendermos melhor as armadilhas a que o ”humano demasiadamente humano” está sujeito. “O Leitor” extrai o sublime que pode emergir dos pântanos existenciais.

Nelson Rodrigues de Souza

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Existe cinema de ator assim como cinema de autor?


Os caminhos do cinema são infinitos. Não se pode ter teorias rígidas à priori. François Truffaut, que nos anos áureos do Cahiers du Cinéma criticou muito e desprezava o que considerava apenas um “cinema francês de qualidade” sem rasgos autorais, anos depois reconheceu que “Boulevard du Crime”(1945) de Marcel Carné, antes estigmatizado, era “o melhor filme da História do Cinema francês”, para um Marcel perplexo. Isto depois de com seus incisivos artigos ter detonado diretores que considerava ultrapassados como Henri-Georges Clouzot (do enigmático “O Corvo”), descobrindo autoralidade em cineastas até então tido como menores como Hitchcock, Howard Hawks, Nicolas Ray, por exemplo.


Se ele acertou em cheio quantos ao mérito de muitos cineastas e renovou junto com seus colegas a linguagem cinematográfica mundial também na prática, além da teoria, acabou ajudando a eclipsar obras bastante importantes. Curioso e irônico é que Godard, seu companheiro de Nouvelle Vague com o tempo passou a ter acirradas discordâncias com Truffaut acusando-o de estar fazendo justamente o cinema que tanto criticaram. Godard chegou ao abuso histérico e arrogante de em entrevista de poucos anos atrás dizer que de todos seus companheiros do célebre movimento que mudou o cinema, o único que não havia se vendido ao cinema comercial seria Eric Rohmer.

Revendo Truffaut hoje ainda se nota, a despeito do que diz Godard, uma obra autoral do começo ao fim em que o fatalismo de muitos de seus filmes acaba ressaltado pela visão de mundo no exemplar “O Quarto Verde”, sobre um homem que cultua com mais ênfase os mortos do que os vivos, filme menor mas dos mais significativos para se entender algumas pedras de toque da obra de Truffaut. Claro que isto também não deixa de ser uma redução (há obras de Truffaut com outros tons, mas sempre generosos com seus personagens e seus “defeitos”), mas tem o seu sentido, quando nos deparamos com tantas obras dele que acabam de uma forma trágica por mais gana de viver que os personagens apresentem. O “nem com você, nem sem você” não é uma exclusividade angustiante do seminal “A Mulher do Lado”. Também aparece naquele que talvez seja o mais belo filme dele, “Duas Inglesas e o Amor”, por exemplo.

Complementando este cinema de autor que François detectou e representa tão bem, pode-se dizer que também existe o cinema de ator. São filmes em que não há maiores elaborações formais, mas que dão espaço para grandes interpretações. De minha parte considero-me também bastante atraído por este tipo de cinema também, sendo trabalhos exponenciais neste sentido os eletrizantes “Quem Tem Medo de Virgínia Wolf” de Mike Nichools e “Oleanna” de David Mamet, dois filmes extraordinários, adaptados de grandes textos teatrais, que não trazem qualquer ranço neste sentido, ainda que claustrofóbicos,que foram construídos habilmente para os atores brilharem e nos encantarem. Não vejo nenhum mal nisto.

“Dúvida” (EUA/2008) filme e peça de John Patrick Shanley, que ele adaptou e dirigiu com um título homônimo, não tem o vigor dos dois filmes citados, mas é uma obra em que de forma bastante hábil se contorna a pecha de “teatro filmado” e sem grandes vôos formais nos apresenta um quarteto de atores soberbos. Irmã Aloysius (Meryl Streep, em mais um de seus grandes papéis, trabalhado com técnica e emoção equilibradas e afiadas) é uma freira conservadora que não vê com bons olhos as mudanças litúrgicas que o padre Brendan (Philiph Seymour Hoffman, sempre surpreendente e emocionante) tenta implementar numa instituição católica dos anos 60 no Bronx em Nova York. Irmã Jones (Amy Adams, sem o nível dos outros dois, mas notável) conta que viu o rapaz negro Donald Miller (Joseph Foster) sair da sala do padre com cheiro de álcool, ele que é o único aluno negro da instituição. Isto é suficiente para que a irmã Aloysius inicie uma cruzada inquisitorial sem provas concretas contra o padre, acusando-o de pedofilia. Em conversa coma a Sra. Miller (Viola Davis, magnífica nas poucas cenas em que trabalha), mãe de Donald, tomamos conhecimento de uma realidade mais complexa em que a possibilidade do filho estar sendo seduzido pelo padre é um mal menor e no fundo uma proteção, dado as surras que o rapaz recebe do pai.

O mais fascinante em “Dúvida” é que se certamente a irmã Aloysius está equivocada em seus meios, a inocência do padre é um fato que cabe a nós decidir e não nos é garantida. O filme planta no decorrer de sua magnética narrativa esta grande dúvida.

Num mundo em que estamos tão assolados por horrores de quem advoga não ter dúvidas quanto a questões cruciais (e o Papa Bento XVI, com sua eterna cruzada homofóbica é um deles, assim como os militares e políticos israelenses em altos cargos) é muito importante e bem vindo uma obra que de forma incisiva e tocante trata o tema de seu título com muita pertinência e força dramática. Assistir a “Dúvida” que termina com uma seqüência que arrepia ainda mais nossa sensibilidade e instalando mais dúvidas em nossos corações é um ato de aperfeiçoamento de nossa humanidade. Pode-se desprezar um filme assim por não enxergamos vigor autoral no cineasta em questão?

O cinema é infinito, gosto de repetir. Há quem queira limitá-lo a ideais estéticos duvidosos. “Dúvida” com sua estrutura redonda me toca mais que muitos filmes experimentais e estéreis que surgem por aí. Não é toda hora que temos obras-primas de desconstrução narrativa como “O Bandido da Luz Vermelha” de Rogério Sganzerla ou “Pierrô Le Fou- O Demônio das Onze Horas” de Godard. Na dúvida se tem mesmo talento para grandes vôos de linguagem cinematográfica, optar por dar destaque ao potencial de grandes atores também é uma bela forma de os diretores fazerem cinema.


Nelson Rodrigues de Souza

sábado, 7 de fevereiro de 2009

A que filme pertence esta imagem?


A imagem acima, com sua direção de arte fantástica em que o amarelo dos destroços remete ao fogo mais ao fundo, o recipiente azul combina com detalhes da roupa e a posição do homem denota uma assustada sobriedade poderia ser fruto de um filme e, no entanto, é uma foto jornalística que saiu na Folha de São Paulo em dezembro de 2006, com a legenda “Homem passa por destroços de explosão em Lagos na Nigéria que matou 269 pessoas e deixou 60 feridos”.

A beleza plástica da imagem de composição primorosa é tal e tão arrebatadora que dá a impressão de ter sido retocada digitalmente, agora que se têm mil e um recursos disponíveis. Diante do horror emerge um poético sentimento de desolação, mas também de bem vindo instinto de sobrevivência. Quanto se diz que a realidade deste nosso mundo de tantas perplexidades está suplantando muitas vezes a mais desvairada ficção ainda tem gente que duvida.

O “filme” que está por trás de toda esta história poderia se chamar “Que bom se ver vivo”.

Nelson Rodrigues de Souza

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A bola de neve do “abominável” escritor- Um Conto


Dizem que uma boa história flui como uma bola de neve que rola montanha abaixo. Tudo bem. Mesmo assim existem momentos em que até mesmo os melhores contadores de histórias vêem-se numa encruzilhada, pois não sabem como continuar a história que tem em mente. Ou melhor, desenvolveram tudo muito bem até certo ponto, sabem o que pretendem escrever dali então, tem até o final já previsto, mas não sabem como fazer a transição. E aí?

Não sei se sou um bom contador de histórias (o leitor que o diga!). Só sei é que estou nesta malfadada encruzilhada e não consigo dar prosseguimento a um pequeno conto desejado. A mim, assombra a necessidade de tirar uma carta do bolso do colete, utilizar um recurso folhetinesco vulgar. Mas desde que abandonei aquelas traduções de poetas americanos, as quais me davam o maior trabalho, sendo que ganhava uma miséria e ainda não era reconhecido (diziam que “só poetas podem traduzir poetas” ou então repetindo Robert Frost que “poesia é o que se perde na tradução”), é que resolvi escrever por minha conta e risco.

“Lembre-se que cada linha que você escreve é uma a menos que você tem de escrever” – já disse o Millôr Fernandes. Mas será que nesta areia movediça em que me movimento a única ferramenta adequada é essa? A audácia?

Não! Não são apenas os autores mais populares que se valem de recursos folhetinescos diversos. Também os grandes nomes “apelam”! Senão vejamos:

1-Bergman em seu mergulho nas angústias e desacertos de mãe e filha em seu “Sonata de Outono” leva o embate psicológico até um ponto em que a ação (se é que podemos falar de ação neste caso) estagna e ele sente então (intuitiva ou conscientemente, não importa) a necessidade de fazer a outra filha (paralítica) juntar-se às duas, se arrastando pelo chão, de tal modo que os conflitos são então redimensionados e prosseguem.

2-Louis Malle no maravilhoso “Sopro no Coração”, após inventariar com extrema sensibilidade as inquietações sexuais de um adolescente de 15 anos, tendo como pano de fundo a imoralidade da guerra da Indochina, para poder demonstrar seu “Teorema do Incesto” ( “É preferível praticar o incesto uma vez na vida do que passar o resto dela pensando nele...”), lá pelo meio da narrativa, sentiu a necessidade de criar o sopro no coração do rapaz, para que mãe e filho pudessem então passar uns tempos numa terma, longe da casmurrice do pai.

3-Nagisa Oshima depois de quase esgotar o aforismo “Qualquer maneira de amor vale a pena”, no seu claustrofóbico e brilhante “Império dos Sentidos”, resolve fazer o “japonês” (uma personagem que prefere andar na contramão, opta por morrer de amor do que morrer de ódio numa guerra nefanda qualquer...) se relacionar com uma das veneráveis madames, uma das gueixas que ninavam o casal. Após este gesto de ternura-desprendimento, a paixão dos amantes revigora, tomando uma nova coloração.

4-Mas alguns exageram na dose. Wim Wenders, por exemplo, pretendia com o pálido “O Medo do Goleiro Diante do Pênalti”, “matar vários coelhos com uma só cajadada”: homenagear o próprio cinema; dar vazão ao gosto pelos heróis nômades (o que propiciaria o passeio da câmera pelos detalhes de incontáveis paisagens); homenagear o cinema americano em particular; adotar um ponto de vista original para sua história. O filme consistiria de anotações sobre o cotidiano “alienado” de um jogador de futebol e por extensão uma “visão amarga-irônica-desencantada da sociedade contemporânea”. Muito bem. Só que para fechar o seu quebra-cabeça, Wenders faz o seu jogador matar uma bilheteira de cinema! (“gratuitamente”). O medo do goleiro passa a ser óbvio (deixa de ser ”existencial”), o pênalti perde a dimensão simbólica se transformando num banal “fuzilamento” e o filme não se realiza em nenhuma das propostas. Um pseudo filme policial. Uma rasante visão crítica da sociedade contemporânea. Um filme falso. Um filme que expressa apenas o desejo de se fazer um filme.

5-Quando o marido de Maria Braun volta da guerra e a surpreende com o amante e o mata, nada mais se tem do que um coelho tirado da cartola por Fassbinder para poder dar prosseguimento à sua narrativa. O marido vai preso e aí a metáfora “Maria – milagre alemão” pode então se consumar. Não deixa de ser sintomático que esta seqüência é toda ritualizada. O autor mostra o seu truque e é como se pedisse desculpas. Não é sem razão que já afirmou ser o cinema “a mentira vinte e quatro quadros por segundo”!

Mas Dostoiévski pela voz de Razumikhin de “Crime e Castigo” já não afirmou que “a mentira é o único privilégio do homem sobre todos os outros animais”? Então, se o mestre maior que por sinal mesmo com toda genialidade e generosidade, deixava evidente certos truques na construção de suas narrativas, nos dá a deixa, por que não pregarmos uma peçazinha no leitor e fazê-lo mergulhar na nossa história, a custa de um pequeno artifício?

Eu me sinto como um viajante que já percorreu um bom pedaço de uma auto-estrada, mas está com a gasolina acabando e ainda por cima sem dinheiro. Ele sabe muito bem de onde vem e para onde vai, mas como prosseguir? “Dar um cano” no posto mais próximo?

Será que num mundo já tão atropelado por mentiras oficiais cabe mais uma com a pretensão de que se vá contribuir para uma reflexão melhor sobre suas mazelas?

Estou convencido de que muito do propalado hermetismo de Glauber, Godard, Bressane e que tais não vêm do fato de não saberem contar uma história, mas do pudor em utilizar esses recursos que permitam que suas histórias fluam.

Será que no fundo eu não gosto das pessoas, não gosto da sociologia, psicologia, história, filosofia, política, psicanálise, antropologia, etc., mas pura e simplesmente dessa alquimia eterna chamada narrativa? Será que só a solução desses problemas é que me interessam?

Não! Eu não preciso fazer como em “O Vento Levou” em que para Scarlet O’ Hara, depois de casada com Rhett Butler, descobrir realmente que “só a ele amava”, houve a necessidade dela cair da escada e perder o filho que esperava, um filho morrer numa queda de cavalo e ainda por cima a mulher do cara que ela achava que amava tinha de morrer também. Não, eu não preciso ir a tanto! Basta, simplesmente, admitir que uma batida de carro congestione o trânsito e meu personagem seja obrigado a descer do táxi e daí descubra que está perto da casa do professor e vá então fazer uma visita para...

É como se a partir deste ponto da história (como na tragédia clássica) tivéssemos a co-autoria de um “Deus-ex–machina” e conseqüentemente um redimensionamento dela. Eu sei que para o homem contemporâneo o destino já não desempenha o mesmo papel que na Antiguidade Clássica. A sociedade com as suas leis já nos cria tantas armadilhas que fica difícil para qualquer Édipo cumprir a profecia dos oráculos... (Édipo nos dias de hoje talvez até fugisse de Corinto. Mas antes de se encontrar com Laio, matá-lo, para depois desvendar o enigma da esfinge e casar-se com Jocasta, poderia muito bem ser preso por estar sem documentos e como já não tem pai importante que o proteja...)

Mas não! Não é possível! Com tanta fruta no pomar do imaginário, eu fui escolher logo um abacaxi já descascado por Machado de Assis! Não é que a solução que escolhi é a mesma encontrada por ele para resolver o seu conto “A Cartomante”! (o tílburi para por causa de uma carroça que atravanca o caminho, Camilo desce e descobre que, bem próximo, ficava a casa da cartomante!...)

Mas tudo bem, digamos que o meu conto é uma revisão crítica de “A Cartomante”, um estudo, uma homenagem como aquelas que Brian de Palma presta a Hitchcock.

Não tenho certeza se esta solução adotada é realmente a melhor. Em principio é esta que aí está. Mudanças?... Estou muito cansado... Tal como minha querida Scarlet O’Hara “eu deixo para pensar nisso depois”.

Nelson Rodrigues de Souza

Ps 1- O “truque” de Sonata de Outuno” foi citado numa aula pelo roteirista e dramaturgo Doc Comparato como exemplo do que podem fazer grandes autores. Quanto ao resto, dei tratos à bola.

Ps2- As opiniões do personagem narrador não são necessariamente do autor.