quinta-feira, 14 de abril de 2011

Trivial Simples e Complexo













Trivial Simples e Complexo

(Os textos apresentados contém spoilers, ou seja, detalhes importantes de narrativas são adiantados para a análise pretendida)

1- Contracorrente (Peru, Colômbia, França, Alemanha/2009) de Javier Fuentes-Léon

Numa época em que filmes que têm como um dos temas o homoerotismo muitas vezes são umas ciladas, pois pecam em fotografia, direção, roteiro em que pese serem desabridos ao mostrarem cenas homoeróticas não puritanas, é um grande alívio e prazer nos depararmos com “Contracorrente”, o melhor filme a abordar homoerotismo (repito: dentre outros temas) desde a obra-prima “Brokeback Mountain”( 2005) de Ang Lee. Os atrativos de “ Contracorrente” são inúmeros e não se esgotam neste texto, ainda que com spoilers.

Numa cidade pesqueira do Peru bastante provinciana com costumes arraigados tem-se um ritual fúnebre tradicional em que depois de lida uma homenagem ao morto , ele de barco é lançado ao mar. O pescador Miguel (Christian Mercado), casado com Mariela (Tatiana Astengo), que espera um filho do casal, é convidado a fazer a homenagem a um primo morto e cumprir o ritual no mar.

Como a província também tem o espírito “todo mundo quer saber como você se deita, nada pode prosperar” de “Tieta” de Cacá Diegues, Miguel tem um ardoroso caso amoroso com o pintor Santiago (Manolo Cardona) em recantos bem escolhidos, longe de olhares indiscretos, sendo que Santiago, um “estrangeiro exótico”, tem seu homoerotismo comentado de forma vexaminosa e cruel por línguas ferinas da comunidade.

A relação entre Miguel e Santiago é muito forte em todos os planos, seja o amoroso, seja o sexual, uma paixão ardente. Logo Santiago se dá conta de que por mais que as coisas assim se processem, Miguel não terá coragem para largar mulher e filho e viver uma vida integral com ele que fuja destes encontros fortuitos e escondidos.

Depois de uma briga com Miguel, Santiago embrenha-se no mar, morre afogado e numa inspiração assumida pelo diretor por “Dona Flor e Seus Dois Maridos” passa a ser uma visão para Miguel que só este vê. Assim irrompe na casa deste, senta no sofá junto com Manuela e o amado, chegam a transar e desfrutam outra s delícias que um pessoa fantasmática pode proporcionar. A princípio Miguel fica com o melhor de dois mundos, mas sua inadequação como pai vai se mostrando cada vez mais patente quando o filho nasce.

Só quando Santiago tiver seu enterro ritual, ele desaparecerá de vez, mas Miguel não quer saber disto, pois assim não veria mais o amante.

Pinturas eróticas de Manuel feitas por Santiago são descobertas na casa abandonada deste e a cidade passa a comentar que os dois eram amantes. Mariela toma conhecimento disso e sofre bastante chegando a sair de casa. Os amigos de Manuel o abandonam para depois retroceder, aceitando-o quando ele se mostra melhor como um pai de família.

O corpo de Santiago é encontrado e deve ser levado pela família para um enterro comum fora da comunidade. As pessoas desta são trabalhadoras, honestas, bem-humoradas, solidárias, mas a homofobia não consegue ser extirpada. A rigor, nunca houve espaço realmente para Miguel e Santiago ali. Deveriam ter tido a coragem de ir embora.

Integrado no papel de pai a fórceps, deixando de ver sua novela preferida com Lauro Corna e sendo obrigado a ver jogo de futebol junto à mulher e o filho, Manuel cria coragem enfim ( e este é um dos grandes temas do filme como em “Em Um Mundo Melhor” de Susanne Bier), enfrenta todos, convence a família do amante morto e resolve dar o enterro ritual da comunidade ao amante, que este tanto desejava para que seu espírito tivesse paz.

“Contraconrente’ trabalha vários elementos fílmicos com bastante acuidade: interpretações convincentes de todo o elenco, fotografia que capta a beleza do lugar, roteiro progressivamente cada vez mais interessante e direção sóbria que faz o filme passar longe de qualquer vestígio de dramalhão ou melodrama barato.

O asfixiamento que homossexuais (ou bissexuais como Manuel talvez seja) sofrem até mesmo numa província pacata de homens de bem é um forte indicador que ainda há muito por ser feito para que esta situação realmente mude, pois os “desviantes” carregam um papel transgressivo e subversivo que muitos não suportam, seja por homofobia internalizada, seja por medo de ver seus valores ruírem ( e o machismo é um deles).

“Contracorrente” na contracorrente de muitos “filmes gays” precários ou insuficientes é um trabalho que pelo seu conjunto de valores cinematográficos e emocionais não deve ser perdido de modo algum. Obra rara e belíssima.

2- “Turnê” (França//2010) de Mathieu Amalric

Grande ator francês de filmes memoráveis como “Reis e Rainha”, “A Questão Humana”, “O Escafandro e A Borboleta”, “Um Conto de Natal” além de algumas colaborações hollywoodianas como “Munique”, dentre outros, em “Turnê” Mathieu Amalric envereda pela direção cinematográfica, ao meu ver , de uma forma que se avizinha do fiasco.

Joachin (Mathieu Amalric) é um empresário que trabalha com o New Burlesque, onde mulheres de proporções para-fellinianas fazem shows individuais onde são capazes de magias simples e eróticas (o que o filme tem de melhor) para plateias de homens e mulheres. Depois de uma temporada nos EUA, Joachin quer realizar uma na França, culminando com Paris, aonde será mais difícil encontrar um teatro que acolha seu gênero artístico.

O argumento de “Turnê” é interessante, mas numa ego-trip quase que insuportável, Mathieu constrói com cacos dramáticos de outros papéis seus, a rigor, um papel só para si. Nenhuma das strippers tem realmente uma persona bem esquadrinhada na tela. São praticamente todas iguais em sonhos e projetos ainda que aqui e ali haja alguns lampejos de individualidade.

O roteiro avança aos trancos e barrancos, até chegar a um desfecho interessante onde Joachin dá um belo grito no microfone para enfatizar todo seu enfado e decepção com as lutas inglórias. Mas até aí já sofremos muito com tantas sequências esvaziadas que nos mostram o vazio daquela atividade, a rigor, old-fashioned, que faz o filme cair no vazio, uma autêntica armadilha. Só para ficar no Cinema Brasileiro: a obra-prima “Noite Vazia” de Walter Hugo Khouri trata justamente do vazio que acometem clientes e prostitutas num apartamento, mas Khouri está longe de cair no vazio: temos um universo de sentimentos contrastantes a descobrir que se ampliam a cada visão.

A palavra é redutora, mas diante do já exposto, me vejo no direito de escrever: “Turnê” é um filme muito, mas muito chato.

“Turnê” ganhou em 2010 a Palma de Outro de Melhor Diretor em Cannes para Amalric. Num festival em que concorriam Apichatpong, Kiarostami, Xavier Beavouis, Lee Chang-dong etc. esta atitude do júri só pode ser encarada como uma irresponsável piada. Meu amado Tim Burton, desta vez como presidente do júri, como seus colegas, pisou feio na bola, provocando uma grande mistificação.

3- “Que Mais Posso Querer” (Itália/Suiça/2010) de Sílvio Soldini

O amável “Pão e Tulipas” de Soldini narra a história de uma mulher que abandona uma excursão e vai atrás de um homem incomum que a atrai ( Bruno Ganz), vivendo aventuras que fogem do ramerrão do seu cotidiano “fútil e tributável” como diria Fernando Pessoa. O filme sintonizou com o inconsciente coletivo de fuga de muita gente, se tornou cult, ficando vários meses em cartaz.

“Que Mais Posso Querer” de certa forma retoma esta temática de necessidade de evasão de um cotidiano opressor. Anna (Alba Rohrwacher) é casada com Alessio (Giuseppe Battiston) e sondam a possibilidade de terem um filho. Anna se envolve amorosamente com Domenico (Perfrancesco Favino) e se encontram furtivamente várias vezes e se amam com sofreguidão. Domenico é casado e tem dois filhos. Chega um momento em que Anna acaba contando tudo ao marido que lhe dá um tempo para pensarem a relação. A mulher de Domenico percebe que está sendo “traída”. Numa viagem que fazem, os dois amantes precisarão colocar os pingos nos is da relação.

Se parte de um ponto pouco original “Que Mais Posso Querer” tem o mérito de trabalhar com atores sem glamour, pessoas comuns e realizar cenas de sexo onde se evidencia a intensidade da paixão e do prazer. O problema do filme é que ele é por demais reiterativo. Estamos aqui muito longe dos belos huis clos exasperantes de “O Último Tango em Paris” ou “Intimidade” de Patrice Chéreau e as sucessivas cenas de sexo cansam.

Ao final, quando o parceiro vai ao banheiro do aeroporto e Anna deixa de esperar pela mala dele e sai sozinha com a sua, abandonando o amante, temos uma bela cena onde tanto o medo de assumir uma relação nova, como o sacrifício de não querer desmantelar a vida familiar de Domenico , que “queria que nada faltasse aos filhos”, se mesclam e o filme assume grande interesse. Mas até que cheguemos a este final, haja reiterações narrativas e diálogos muitas vezes banais demais que põem o filme a perder.

4- “Ricky” (França/Itália/2009) de François Ozon

Katie (Alexandra Lamy) cria sozinha sua filha de seis anos Lisa ( Mélusine Mayance). Ao se tornar amante do operário Paco (Sergi López), este vai morar com ela e Lisa, sendo que o casal gera o filho Ricky. Tudo transcorreria como um filme realista como muitos outros sobre a classe operária se Ricky não apresentasse uma forte singularidade: de suas costas vai nascendo progressivamente um par de asas que permite que ele dê voos surpreendentes. Depois de muitas controvérsias e reviravoltas, para ganhar-se dinheiro para seu tratamento, o casal consente em expor Ricky às feras da mídia que cercam a casa para fotografar/filmar o fenômeno. Segurado pela mão da mãe como se fosse um balão, Ricky escapa e vai para longe nos céus de um lago.

François Ozon é hábil na já vasta obra em construir cenas fortes ( e muitas vezes perversas) com bastante delicadeza, subvertendo gêneros consagrados com toque bastante pessoal, digamos que quase que autoral. É assim com “Sob a Areia”, “8 Mulheres”, “O Amor em 5 Tempos”, “O Tempo Que Resta” ( talvez sua melhor obra) etc.

Em “Ricky” temos aparentemente um happy end. Katie se conforma com Ricky ganhando vida própria, entregue à natureza e acaricia a barriga grávida de um novo filho com Paco. Este dá carona na moto para Lisa ir à escola. O filme termina com um corte abrupto, com os dois passeando.

Mas algo desapontador acontecerá. Basta lembrarmos da sequência inicial que abre o filme: Katie angustiada está num juizado querendo entregar um filho para adoção e chegam a perguntar-lhe se ela tem certeza do que quer. O que veremos depois ocorre meses antes.

Com uma obra sólida e persistente, sem ser nenhum gênio, Ozon é um dos cineastas mais interessantes do cinema contemporâneo pelo inusitado que sempre impregna as suas obras que navegam longe da mediocridade, revelando-se sempre intrigantes, lúdicas e perversas naquele sentido que Buñuel elevou ao mais alto grau de sofisticação. Aqui sim com genialidade.

PS1 Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacre são roteiristas de grandes filmes de Alain Resnais como o fundamental díptico “Smoking/No Smoking”. Realizaram seus próprios filmes, roteirizando, atuando e dirigidos por Agnès, como “O Gosto dos Outros” e “Questão de Imagem”. No Teatro Poeira do Rio de Janeiro estão em cartaz duas peças da dupla que são comoventes, tocantes, engraçadas, dramáticas, meticulosamente escritas, muito bem interpretadas por um conjunto de atores que se repetem nas duas peças, com a entrada de Analu Prestes na segunda: “Cozinhas e Dependências” e “ Um Dia Como os Outros”. A primeira se passa integralmente nos limites que o título estabelece. A segunda num bar. Nas duas, tensões subterrâneas vão vir à tona com desfechos simples, mas intrigantes e reveladores.

Com finas observações sobre as relações humanas num mundo em que a fragmentação e certa luta de classes ainda dá as cartas, as duas peças são pequenas joias de dramaturgia que se não vieram para ficar, podem nos proporcionar grande prazer em ir ao Teatro. Há versões cinematográficas para estas peças às quais não tive acesso.

PS2 Comprei os CDs (sim, eu sou uma destas criaturas jurássicas que ainda compra CDs) “Meu Quintal” de Ná Ozzetti e “O Micróbio do Samba” de Adriana Calcanhotto. Chegaram ontem e só os ouvi uma vez, acompanhando as letras, degustando os trabalhos gráficos. Com novas audições sinto que vou gostar mais ainda deles, descobrindo mais filigranas das vozes, melodias, letras e arranjos. CDs de invenção que como tantos outros (até mesmo tradicionais), nos mostra que a Música Popular Brasileira não parou em 1985, conforme li estarrecido num Blog respeitável.

PS3 O Caso Realengo e a vida de Wellington Menezes de Oliveira é “um documentário pronto”. Dado o trabalho extraordinário de José Padilha em “Ônibus 174”, ganharíamos mais todos nós se Padilha em vez de perder tempo com uma refilmagem de “Robocop” nos EUA, abraçasse ( produzido por Marcos Prado) a elaboração de um doc sobre este tema, levando em conta o poliedro de visões/opiniões que são feitas sobre o caso, utilizando as imagens e mensagens disponíveis.

http://migre.me/4fkmB

http://migre.me/4fkqr

http://migre.me/4fkvP

http://migre.me/4fkBo

http://migre.me/4fkFA

http://migre.me/4fkMR

http://migre.me/4fkSK

http://migre.me/4fkXi

http://migre.me/4fl21

http://migre.me/4flg7

http://migre.me/4fljP

http://migre.me/4flpp

http://migre.me/4flvz

http://migre.me/4flG2

Nelson Rodrigues de Souza

quinta-feira, 7 de abril de 2011

A Realidade é Sempre Mais ou Menos do que Nós Queremos e Vemos




















A Realidade é Sempre Mais ou Menos do que Nós Queremos e Vemos

(16º Festival “É Tudo Verdade”)

1- “Imagens do Playground” (Suécia/29 min./2009) de Stig Björkman

O primeiro grande livro sobre a obra de Bergman que devorei aos pouquinhos, vendo e revendo as imagens, muitas delas numa sequência cinematográfica, como as de “Noites de Circo”, foi “O Cinema Segundo Bergman” da Editora Paz e Terra, organizado por Stig Björkman e mais dois colaboradores, um dos grandes estudiosos do diretor, hoje presidente da “Ingmar Bergman Foundation”.

Herdeiro de filmes caseiros, imagens de making–off etc. Stig foi convidado para dirigir um curta e um média metragem sobre o trabalho de Ingmar.

“Imagens do Playground” com depoimentos de Harriet Anderson, Bibi Anderson, flagra um Bergman que se diverte com seu trabalho como se estivesse com sua lanterna mágica da infância, se surpreendendo que agora tem ideias que outras pessoas obedecem. Produz então imagens e sequências como se ainda estivesse brincando na infância.

O curta é bom, mas fica refém do pouco material que se tem desta fase inicial de Bergman. Se observamos outro lado de Bergman, alguém mais brincalhão, distante da imagem sisuda que teríamos dele, não muito mais do que isto nos é revelado.

2- “....Mas o Cinema é Minha Amante” ( Suécia/ 66 min./2010) de Stig Björkman

Bergman declarou que enquanto o Teatro era sua mulher, o Cinema era sua amante. Daí o expressivo título do documentário.

Neste média metragem tudo é mais bem realizado do que no curta. Temos vasto material de arquivo, uma narração de Liv Ullmann, bastidores de vários filmes não necessariamente em ordem cronológica (“Sonata de Outon”, “Depois do Ensaio”, “Da Vida das Marionetes”,“Gritos e Sussurros etc.), ainda que ao fim, se concentre em “Saraband”, testamento do autor, onde se retoma vinte anos depois personagens de “Cenas de Um Casamento”

“... Mas o Cinema é Minha Amante” flagra Bergman em ação com bastante controle do que quer realizar, não havendo lugar para maiores improvisos, pois o texto de seus roteiros são tão afiados, bem construídos, com diálogos impecáveis, que não deixa margem para outras operações que não seguir o original. Em “Saraband” Liv Ullmann lê uma carta, Bergman a interrompe: “Coloque um pouco mais de ironia na sua fala”. Bergman não se diz autoritário, mas admite que em certos momentos precisa ter algumas “explosões pedagógicas”!

De “Gritos e Sussuros” vemos alguns preparativos para a sequência do balanço onde é redimensionada a noção de felicidade, numa atmosfera primaveril amarelada que contrasta com os vermelhos, brancos e pretos de dentro da casa. Numa sequência flagramos as atrizes rindo, até mesmo Harriet Anderson que faz a irmã que está morrendo de câncer.

Com “Saraband” temos uma das últimas sequências filmadas por Bergman: Johan (Erland Josephson) vai ao quarto de Marianne (Liv Ullmann), está com grande ansiedade (e medo da morte), fica nu e pede para deitar com ela, que também tira a roupa, numa das antológicas cenas de Bergman a mostrar a fragilidade do ser humano em sua condição de mortal diante de algo que não tem certeza do que é que surgirá (se é que vai surgir).

Há depoimentos em off de Martin Scorsese, Bernardo Bertolucci, Lars Von Trier, assim como de colaboradores habituais como o extraordinário fotógrafo Sven Nykvist. E é neste quesito que o trabalho de Stig Björkman deixa a desejar: as cópias de trechos de filmes de Bergman não fazem justiça ao grande trabalho fotográfico com que Bergman (além de outros elementos fílmicos) impregnava sua obra. Um jovem que travar um primeiro contacto com Bergman através deste documentário vai ter uma visão errônea do que o diretor e seu diretor de fotografia são capazes de fazer no cinema. Dito isto, é forçoso reconhecer que “....Mas o Cinema é Minha Amante” é uma obra incontornável para os amantes de Bergman e para os que podem se iniciar nesta obra de um autor fundamental do Cinema no século XX e alguns sussurros no século XXI, como o monumento “Saraband”, um dos mais dolorosos e fascinantes filmes já feitos.

3- “The Black Power Mixtape” (Suécia/EUA/ 96 min./2010 ) de Göran Hugo Olssson

Um material de arquivo que ficou inédito por 30 anos filmado pela televisão sueca é retomado aqui com um mix de imagens que remetem a lutas do movimento Black Power americano dos anos 60/70, com as mais variadas posturas: temos o pacifismo de Martim Luther King, a visão mais ácida e desencantada (realista?) de Stokley Carmichael, o complexo Malcom X que se tornou muçulmano ( alvo de um filme subestimado de Spike Lee), Angela Davies, uma das mentoras do movimento dos Panteras Negras etc.

Comentando estas imagens temos, no presente, a voz em off de Angela Davies, Harry Belafonte, Erykah Badu etc.

“The Black Power Mixtape” é um amplo painel do caldeirão cultural que formou e formatou o Movimento Black Power, sendo que o movimento GLBT que surgiu depois com as lutas de Stonewall deve muito a ele. Com as vitórias conquistadas pelos negros que, por exemplo, só sentavam num ônibus se não houvesse nenhum branco em pé, outros grupos que sentiam a discriminação na própria pele (e aqui não se trata de cor) passaram a enxergar que outro mundo é possível.

As limitações de “The Black Power Mixtape” vem de alguns problemas de texturas com o material filmado, mas como diz um grande amigo meu: “Este é o material que gente tem para trabalhar”. Um dos destaques do filme é a desenvoltura com que Angela Davies expõe suas ideias, tanto no passado como no presente.

4- “Carne, Osso” (Brasil/65 min./2010) de Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros

Sem “dar nome aos bois poderosos”, havendo apenas citações à Região Sul, Centro-Oeste etc. temos um passeio (quase que macabro, mas mais do que necessário) pelo universo dos frigoríficos brasileiros de bovinos, suínos e aves, com imagens que se intercalam em três planos.

a- A filmagem das linhas de montagem em que estes animais são trabalhados nos frigoríficos em que se têm, por exemplo, que desossar um pedaço de frango com por volta de 120 movimentos por minuto.As pessoas tem um tempo mínimo para irem ao banheiro, vestem uma roupa de forte aparato contra o frio intenso, vivenciam temperaturas baixíssimas e fazem trabalhos bastante repetitivos que lhes provocam tendinite, dores, atrofias, artroses, males psíquicos como depressão etc., podendo até pelo cansaço, perder dedos, cair em arapucas que lhes cortam braços e pernas, sendo que pessoas podem sair destes trabalhos se tornando incapazes para qualquer outra atividade laborativa. Dado que há uma massa de gente querendo tomar o lugar de quem está empregado, os que desenvolvem problemas físicos são facilmente descartados e substituídos por pessoas que continuam a ciranda dos salários bem baixos, para uma atividade que nenhum dinheiro compensaria, pois elas ali estão sacrificando suas vidas.

b- Autoridades da área de saúde ou trabalhistas de poderes limitados são entrevistadas, mostram consciência das barbáries que são cometidas, mas se veem impotentes para mudar a situação.Quando há sindicâncias e fiscais vão em loco, verificando péssimas condições de trabalho, as indústrias são multadas. Só que até a fiscalização voltar (em média a cada três anos) os patrões preferem pagar as multas que são irrisórias em face do lucro que atingem com a política de escravidão que instituem com pessoas que precisam do emprego para sobreviver e sustentar filhos etc. Estatísticas nos são mostradas dando conta de como os acidentes nesta Indústria que é a terceira pauta de exportação do Brasil, são bem maiores do que a de outras atividades. Estamos num universo ainda mais crítico do que o que nos mostra Charles Chaplin em seu clássico “Tempos Modernos”. Na Bélgica, por exemplo, não há este tipo de indústria, mas eles importam carne do Brasil (adianta esta hipocrisia?).

c- Há entrevistas com pessoas ( de modo geral ainda relativamente jovens) que foram aposentadas do trabalho por doenças ocupacionais. Há desde aqueles que não revelam o que têm, mas presume-se que seja por doenças psíquicas, como também aqueles que mostram os problemas de saúde que adquiriram. Uma mulher fica com um braço atrofiado, outra sente tantas dores no braço que o gira à noite até obter uma posição que lhe cause menos dor, amarrando-o então para poder dormir. Uma senhora demitida depois de anos de casa, não tem coragem de processar a indústria porque têm três filhos que ainda trabalham lá e tem medo de retaliações.

Algumas informações expostas não estão no filme, mas foram obtidas no debate que se seguiu com os diretores e uma plateia bastante atenta numa noite de sábado lá pelas 23:00 horas. Sinal de que o filme se comunica bem com o público e pode ser um sucesso.

O filme com uma montagem admirável e dinâmica, sem incorporar tempos mortos que já se transformaram num clichê, alterna estas três vertentes e nos mostra ao seu modo, o lado B sinistro da euforia econômica com a Era Lula. Claro que no frigorífico vemos péssimas condições de trabalho mais radicais, mas se pesquisarmos outros setores da economia vamos encontrar outros motivos para sentirmos horror de como os trabalhadores são tratados.

“Carne,Osso” é um filme denúncia exuberante ainda que doloroso. Mas isto (ao contrário de certas correntes pensantes) não representa nenhum demérito. Aqui temos em exercício a arte do filme denúncia, sem panfletarismo fácil, gerando uma obra que merece urgentemente ganhar os grandes circuitos de arte para ser mais disseminada e discutida.Trata-se de “Alguma coisa urgentemente”.

Richard Linklater nos mostra em “Fast Food Nation” as condições e penúrias em que trabalham imigrandes mexicanos do passo inicial até a fabricação de hambúrgueres. O filme assusta, mas perto de “Carne, Osso” é um conto de fadas.

As vozes patronais não foram entrevistadas por opção. Isto aumenta a angústia diante do que nos é mostrado, bem com seu kafkianismo.

5- Curtas Br2-

a- Coutinho Repórter (Brasil/25 min./ 2010) de Rená Tardim

Quem já conhece Eduardo Coutinho de debates já sabe que além de extrair ótimas histórias de seus “personagens”, ele mesmo é um ótimo contador de histórias, com uma memória surpreendente ao relatar detalhes de seus trabalhos. Rená se concentra aqui no período em que Coutinho, dentre outros cineastas importantes como João Batista de Andrade, Walter Lima Júnior etc. trabalhou, para sobreviver à Censura e dar sustento à família, quando teve seu primeiro filho, no “Globo Repórter”.

Assim temos vários comentários realizados sobre obras feitas, onde se destaca “Teodorico, Imperador do Sertão”. Aqui Coutinho se depara com “um personagem” que nos lembra o Lampião de “Baile Perfumado” de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, que diante de uma câmera se envaidece todo e se mostra como um pavão disposto a narrar alguns fatos de sua vida. Teodorico pergunta a uma mulher, que trabalha para ele em regime de escravidão, se ela gostaria de um trabalho em outro lugar. Ela diz que morrerá ali, jamais irá embora e Teodorico fica todo embevecido.

Nos estertores da ditadura militar, Coutinho tira uma licença de dois meses (mais tarde uma não remunerada de seis), retoma seu “Cabra Marcado para Morrer”, antes uma ficção, mas agora um documentário. Por melhor que tenham sido seus trabalhos na televisão sua vocação e desejo era trabalhar para o cinema. Mas pelos caminhos tortuosos da vida, a Vênus Platinada que foi um dos sustentáculos da ditadura militar abrigou Coutinho que subverteu regras vigentes, criou obras notáveis, sobreviveu e voltou ao Cinema, sendo hoje uma dos cineastas brasileiros vivos mais importantes e com, no mínimo, um clássico do cinema mundial que é “Cabra Marcado pra Morrer”.

b- “Palavra Plástica” (Brasil/19 min./2010) de Leo Falcão

Numa homenagem ao poeta pernambucano Carlos Penna Filho (1929/1960) temos várias vozes declamando belos poemas seus, em diferentes ambiências plásticas que dialogam de um forma transversal (nada de literalidade) com o clima lírico instalado. Vozes e efeitos plásticos se combinam para formar um terceiro universo que pode ser tido como “palavra plástica”. Onde alguns podem ver gratuidade, eu vejo muita beleza. Quem esperar que as imagens “ilustrem” os poemas vai se decepcionar. Ao fim o impacto de “palavras plásticas” chega ao seu auge.

c- “Entre Vãos”( Brasil/ 20 min./2010) de Luiza Caetano

Num lugar de Goiás, perto de Cavalcanti se instala remanescentes de um quilombola chamado Kalunga.“Entre Vãos” procura dar um panorama do modus-vivendi desta gente, extraindo sonhos e perspectivas de crianças, adolescentes e adultos.

O filme se compraz um tanto em estar filmando uma comunidade antropologicamente tão significativa e não levanta maiores voos, se concentrando em pequenas revelações que sugerem que “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”. Um ponto de destaque é a produção de farinha e o depoimento da menina que não queria ter o cabelo que tem.

d- “São Silvestre” ( Brasil/ 18 min./2011) de Lina Chamie

Um panorama de emoções variadas de pessoas das mais variadas localidades que vêm disputar a corrida anual de São Silvestre em São Paulo. Para algumas só o fato de ver uma avenida com trânsito interrompido para ela passar já é motivo de grande emoção. Com planos bastante expressivos em vários ângulos e música clássica na trilha sonora temos um bom filme, mas que não atinge o patamar artístico que Lina logrou em “A Via Láctea” e “Tônica Dominante”. Estes são filmes de maior fôlego. “São Silvestre”, ainda que termine com um corredor resfolegando em off, é um filme que carece de maior vigor.

e- O Filme que Fiz Para Não te Equecer ( Brasil/4:30 min/2010) de Renato C. Gaiarsa

Uma obra que não diz ao que veio com imagens desfocadas, num ritmo idiossincrático em que 4:30 min. já é demais para nossa paciência.

6-“ Homem Erótico” ( Dinamarca/90 min./2010) de Jorgen Leth

Temos aqui um filme assumidamente bastante pessoal que não consegue transcender os interesses mais íntimos do realizador e se tornar realmente significativo para quem o assiste.

Jorgen viaja pelo mundo (Haiti, Brasil,Tailândia etc.) e procura mulheres para um ensaio cinematográfico erótico em que se diz textos poéticos que ele mesmo escreve para evocar lembranças de sua vida erótica mundo afora. Tudo o que se mostra é de muito bom gosto, mas idiossincrático demais. “Homem Erótico” uma vez realizado se justifica como uma forma de autoconhecimento e exorcismo de repressões particulares antigas, mas há uma barreira entre o que mostra o autor e o que pode ser significativo para o público. Na sessão que assisti houve uma boa debandada da plateia. Eu resisti bravamente até o fim. Não sem certo tédio. Ainda mais pelo fato de me agradar mais mesmo os corpos masculinos, não significando que não admire a beleza de mulheres.

O título “Homem Erótico” é estranho. Existe algum homem que não seja erótico? Podem escamotear, reprimir, mas todo homem é erótico. Uns mais (como o fauno em questão), outros menos. Mas todos são eróticos. Até mesmo o Papa, mas esta é outra história. Uma das sequências significativas da Literatura é a orgia dos eunucos narrada em “Juliano” de Gore Vidal, um livro para o qual sonho ver uma adaptação cinematográfica de peso.

7- Tancredo-A Travessia (Brasil/90 min./2010) de Sílvio Tendler

A trajetória política de Tancredo Neves (1910-1985) é narrada a várias vozes e imagens de arquivo, de uma forma emocionada e emocionante, nos dando a visão de um raro político brasileiro com P maiúsculo que poderia ter sido o verdadeiro presidente estadista que o Brasil não teve desde a abertura política. Assim como Moisés conduziu o povo judeu do jugo egípcio pelo Mar Vermelho, Tancredo foi enxergando as brechas por onde poderíamos caminhar para sair de um período de tantas trevas. O filme não se omite em ressaltar o papel de outros políticos importantes como Ulisses Guimarães, Teotônio Vilela etc., mas é em Tancredo que encontramos a maior força como político que deseja o poder mas deseja mais o poder de mudar as coisas, conhecendo e farejando as frestas possíveis. Seu lado raposa não é escamoteado. Mas vem temperado por uma sabedoria política rara que poucos têm ou não encontramos hoje.

Tancredo foi ministro do segundo governo Getúlio Vargas. Quando este é acuado pelas mesmas forças que provocaram o golpe de 64, Tancredo era a favor de que Getúlio resistisse. Getúlio escreve a carta testamento e dá a caneta a Tancredo num ato pleno de simbolismos que só agora entendemos melhor. Uma reencenação de trecho da peça “O Tiro que Mudou a História” de Aderbal Freire Filho/Carlos Eduardo Novais é feita e na mesa do Palácio do Catete nos mostra as forças em jogo e a atitude de Tancredo em meio àquele caos político de uma terra permanentemente em transe.

Sílvio Tendler se vale de algumas ótimas entrevistas feitas por Roberto D’Ávila, bem como de imagens de seus clássicos “Jango” e “Os Anos JK” e ainda imagens clássicas de comícios feitos na Candelária e Praça da Sé. O ideal seria que a emenda Dante de Oliveira tivesse sido aprovada e tivesse havido eleições diretas para presidente, mas quando os caminhos se fecharam novamente para o país, só havia uma saída que era ir ao colégio eleitoral para eleições indiretas. Mesmo assim houve um trabalho árduo de composição de forças, havendo a dissidência de Aureliano Chaves e José Sarney dentro do PDS que indicava Paulo Maluf para a presidência, gerando então a dobradinha: Tancredo para presidente com Sarney para vice.

Quando se trata de narrar fatos políticos e pessoais sobre a vida de Tancredo, a emoção perpassa vários depoimentos como os de Fernando Henrique Cardoso, Almino Afonso, Fernando Lira, Aécio Neves, Francisco Dornelles etc. Ainda que hoje não simpatizemos mais com estes políticos é tocante a emoção com que eles se referem a episódios da vida de Tancredo que permitem que entendamos mais a personalidade deste político mineiro, nascido em São João Del Rei.

Dornelles nos narra que quando Tancredo estava passando muito mal pensou em trazer o tio para o Rio de Janeiro, mas havia cinco médicos lhe dizendo que o presidente que ainda não tinha tomado posse morreria se não fosse operado em 1 hora. A operação foi feita e Tancredo não mais se recuperou mesmo transportado para São Paulo e tratado pelos melhores médicos. Algo natural? Barbeiragem dos médicos? Barbeiragem intencional destes? The answer, my friend, is blowin' in the wind…O filme não aprofunda nem polemiza com esta questão. Sente-se o mal estar de Dornelles e Aécio ao narrar este decisivo episódio que mudou a História do país.

Com Tancredo doente, o general do exército Leônidas mostra a constituição e dá posse ao vice José Sarney. Mas como Tancredo não havia assumido ainda, o correto seria o presidente da câmara Ulisses Guimarães ter assumido para depois saber-se o que fazer. O que se narra no filme é que anunciado o nome de Sarney não quiseram contestar essa nomeação com contundência pelo medo de um retrocesso político. O Brasil caiu mais uma vez na armadilha (?) de “vão-se os anéis, ficam os dedos”.

O que foi narrado aqui é apenas uma parte do que o turbilhão de emoções “Tancredo- A Travessia” nos provoca. Um filme incontornável do cinema brasileiro recente que pelo prestígio de Tendler, ao contrário de outros do “ É Tudo Verdade”, deve atingir o circuito de arte, como seus filmes anteriores. Imperdível, elucidativo e necessário. A arte de provocar emoções nobres em estado puro.

8- “Aterro do Flamengo” (Brasil/46 min.) de Alessandra Bergamaschi

De uma câmera fixa num apartamento no Flamengo tem-se uma paisagem aterradora de uma pessoa morta, caída para trás do que pode ser um equipamento de ginástica. Pessoas se aproximam, outras se afastam, umas passam alheias, corredores se movem etc.

Este filme conceitual tem um “objetivo” claro, louvável e necessário: escancarar a indiferença que a vida/morte alheia provoca numa era de exacerbado individualismo. Mas resisti apenas a uns 10 minutos de visão deste inferno branco. Logo já imaginamos o que iremos ver em 46 minutos e depois de três sessões no dia do Festival, a proposta de “Aterro do Flamengo” já não me atrai. Ainda mais que se vale de um grande clichê do cinema dito de arte: a fixação por planos fixos. Já não há por que considerar essa postura estética como uma grande ousadia.Já está mais do que batida.

9- “Uma Odisséia Iraniana” (Reino Unido/Irã/ 52 min./2010) de Maziar Bahari

Por quatro décadas os ingleses deitaram e rolaram em relação ao petróleo iraniano. O primeiro ministro iraniano Mossadegh em 1951 nacionalizou a produção e venda de petróleo tendo boicote de compra de vários países e uma reação nervosa do antigo “dono”. Em agosto de 1953, Mossadegh, enfrentando fortes oposições internas (em que se misturam o poder dos aiatolás e o Islã, com intolerâncias de membros do partido comunista), com a cumplicidade da CIA, sofre um golpe que não só o tira do poder como o julga (num tribunal que ele não reconhece), sendo condenado à prisão, mesmo estando numa idade já avançada, de onde sai para logo depois morrer. E ser então considerado uma das grandes figuras de políticos da História do Irã.

Mossadegh tinha suas idiossincrasias como, por exemplo, receber pessoas em sua cama. Mas até mesmo seus inimigos cordiais ou não reconheciam que era um grande estadista. Com sua queda, o xá Reza Pahlevi volta do exílio e passa a ser um testa de ferro dos americanos e ingleses até que chegue a revolução iraniana com os efeitos que sentimos até hoje.

“Uma Odisséia Iraniana” se ressente de um material de arquivo mais farto. O que se vê são muitos planos fixos e uma feroz narrativa para suprir a falta de mais imagens em movimento. O filme atinge apenas 52 min. de duração, sendo que uma personalidade como Mossadegh e os conflitos que viveu é um tema para uma exploração cinematográfica muito mais alentada.

10- “Os Cavalos de Goethe” (Brasil/70 min./2011) de Arthur Omar

Antes de qualquer outro comentário: “Os Cavalos de Goethe” é um filme belíssimo que merece várias visões. Arthur Omar é um grande fotógrafo e consegue dar potência cinética ao que fotografa/filma. Esta sua última obra, produto de uma viagem ao Afeganistão em 2002, tem momentos em que a câmera ralenta, outras que acelera para nova e principalmente ralentar as imagens.

“Os Cavalos de Goethe” é um filme para ser apreciado sensorialmente sem maiores tentativas de compreensão, além do fato de que se trata de uma meditação sobre o tempo. Temos uma disputa de homens montados em cavalos, vistos por uma plateia bastante popular, onde rostos expressivos de todos são bastante ressaltados, incluindo-se até colorações inusitadas em meio à belíssima fotografia.

Mas as intertextualidades do filme se apresentam como um problema: é algo que está na mente de Arthur Omar e só são apreendidas, mesmo assim em parte, por quem receber sua bula. Sem informações prévias não há como perceber referências ao estudo das cores por Goethe, a poemas de T.S. Elliot lidos em inglês em meio às imagens arrebatadoras e nem reconhecer o músico que compôs um peça de 4 horas, que tem trechos utilizados aqui ( a não ser que se seja um melômano). De qualquer forma o trabalho sonoro é esplêndido.

Como “Homem Erótico” de Leth, “Os Cavalos de Goethe” padece de certo solipsismo. Não é à toa que antes da exibição do filme, Arthur Omar esmerou-se em explicações excessivas sobre sua obra, o que provocou uma reação de Jards Macalé: “Não conte seu filme”.

11- “Dois Tempos” (Brasil/ 82 min./2010) de Arthur Fontes e Dorrit Harazim

Em “A Família Braz” (2000) os diretores acompanharam o dia a dia de membros da família, que mora em Nova Brasilândia, zona leste de São Paulo: seu Toninho, dona Maria e os filhos Denise, Gisele, Éder e Anderson. Dez anos depois, volta-se a esta família e com exceção de Anderson que se casou e foi embora, os demais continuam morando na mesma casa.

A família é tomada como protótipo do que se convencionou chamar a nova classe média brasileira. Nada mais falacioso. É inegável que membros dela tiveram melhora de qualidade de vida. O que era motoboy hoje é operador de raios X, uma é vendedora, outra estuda pedagogia. Mas os sonhos são de um eu-mínimo: trocar de carro, a posse de um notebook, fazer uma viagem de cruzeiro e outras ninharias.

Há bastante espontaneidade no filme que cativa e o justifica. O que não dá pra aceitar é que quem continua morando num lugar tão asfixiante e de certo modo aterrador pela imensidão da pobreza do entorno, possa fazer parte da classe média. Como está a qualidade da educação, da saúde, da segurança, da vida sexual e amorosa etc.?

O filme escamoteia um tanto os problemas mais críticos que a família pode ter, revelando-se um tanto chapa-branca. Só letreiros finais apontam para a morte de seu Toninho e para a separação de um dos casais. Um filme para ser visto, mas com certa desconfiança: será tudo verdade mesmo?

12- “Santos Dumont: Pré Cineasta?” (Brasil/63 min./2010) de Carlos Adriano

Através de um carretel de fotografias reproduzidas de um aparelho tido como mutoscópio tem-se imagens de Santos Dumont que são montadas com outras da Torre Eiffel em Paris, a pequena casa de Dumont em Petrópolis etc. em ângulos inusitados, mesclando-se tudo com entrevistas com uma biógrafa de Dumont, o ensaísta Ismail Xavier etc. Teria sido Dumont um precursor do cinema? O filme levanta esta questão sem respondê-la. O que sobressai mesmo é um ensaio de força poética atraente e inusitado que como todo poema visual pede novas visitas para ser melhor apreendido.

Se a não linearidade contribui para a força poética, conspira um tanto para entendermos realmente o que aconteceu em termos de pioneirismos. O Cinema Brasileiro ainda nos deve um grande filme sobre vida/obra de Santos Dumont, de preferência de ficção, num formato classicista. Quem se habilita?

13- “Santoscópio = Dumontagem” (Brasil/15 min./2010) de Carlos Adriano

O encontro entre Charles Rolls (futuro co-fundador dos automóveis Rolls-Royce) e Santos Dumont flagrado por um filme-mutoscópio, onde Dumont encena um vôo para Rolls, é mostrado em diferentes texturas, muitas vezes em imagens aceleradas e repetitivas que depois de uns cinco minutos já perdem seu encanto e começam a chatear até seus longos 15 minutos. Temos aqui mais um filme em que o conceito na cabeça do cineasta não encontra resposta no (des) prazer do público que o vê.

14- “Reagan” (EUA/ Reino Unido/102 min./ 2011) de Eugene Jarecki

Ronald Reagan (1911/2004) tem sua trajetória esmiuçada neste doc muito bom da HBO. Sua família foi salva pelo New Deal de Roosevelt na época da depressão econômica de 22. Foi um ator mediano que ficando sem papéis no cinema, usou sua bela estampa para vender produtos em propagandas. De início simpatizante do partido Democrata foi aos poucos se metamorfoseando num Republicano feroz. Eleito presidente, compõe com Margareth Thatcher uma visão neo-liberal radical onde se vive a ilusão da desregulamentação desenfreada, o corte de impostos para os ricos na vã ilusão de que estes ganhado muito mais, passariam parte deste ganho para os pobres etc. O resultado é que no governo Reagan os muito pobres aumentaram em torno de três milhões. Sua decadência começa com o escândalo do financiamento dos que eram contra o movimento sandinista na Nicarágua e principalmente na questão do Irã, onde à revelia da lei, troca armas por reféns americanos, o que nega, mas outros membros do governo confirmam.

“Reagan” é estruturado de forma simples, mas contundente, sem maiores invenções formais e com certo excesso de texto que acaba cansando um pouco. Um dos entrevistados é um dos filhos de Reagan que surpreendentemente tem uma visão carinhosa e sentimental do pai, mas não se furta em mostrar suas perplexidades quando são apontados grandes equívocos e até mau-caratismo do presidente.

Reagan num delírio hollywodiano sonhava com o projeto Guerra nas Estrelas onde destruiria mísseis nucleares russos nos céus antes de atingirem os EUA. Só esqueceu-se de um detalhe: como a Rússia tinha também a possibilidade de destruir a Terra incontáveis vezes, numa guerra fria que se tornasse quente, o planeta não teria salvação. Esta história me lembra o segundo filme da série “O Planeta dos Macacos”, onde Charlton Heston encurralado, resolve apertar um botão e destruir a Terra toda no final. A série continuou (cada vez mais distante da obra-prima que é o primeiro filme) porque numa jogada forte de roteiro a Dra. Zira e outro macaco haviam escapado por uma viagem espacial.

Reagan delatou “em off” colegas ao Comitê de Atividades Anti-Americanas. Criou o reaganomics cujos efeitos negativos/perversos sentimos até hoje. Seus sorrisos e simpatia escondem uma das pessoas que mudaram a face da História. Muito infelizmente para pior. O filme não se furta a mostrar isto com competência narrativa.

16- “Assim É, Se lhe Parece” (Brasil/74 min./ 2010) de Carla Gallo

Uma grata surpresa. Depois de um começo em que acreditamos que o filme não terá fôlego, vislumbra-se um doc bastante criativo que sintoniza com a vida bastante criativa do artista plástico Nelson Leirner, com 54 anos de atividade. Nelson postula uma liberdade criativa para o artista que fuja dos compêndios históricos. Apresenta um livro de Paul Klee já surrado que foi fundamental para ele entender que a arte tem que ter liberdade e não amarras diante do passado. Participou do grupo Rex, junto com Wesley Duke Lee e Geraldo de Barros, numa cruzada iconoclasta contra a arte que consideravam oficial. Confessa com seu jeito cativante que Wesley só fez o trabalho que quis no início da carreira, porque tinha uma bolsa da própria família, sugerindo que ele também teve esta regalia.

Nelson é visto acarinhando seu cachorro, comprando santinhos católicos e miniaturas de entidades afros para uma obra, comentando seus inúmeros pequenos adornos que traz em uma corrente no pescoço (a rigor não teria uma religião pois aposta em todas, mas se sente inseguro quando não está com este “patuá” ecumênico). Numa exposição sua lamenta ter de estar ali e não poder ver jogo do Corinthians.

Aproximando o espectador da espontaneidade/humanidade de um artista consagrado, o filme traz o espectador para as plásticas mostrando que ele é tão humano quanto nós, mas a visão de arte apresentada pode ser contestada por muitos outros artistas. O que se tem mesmo é uma visão que assim é, porque assim parece ao artista. Para outros, assim não é. Principalmente para uma artista amiga do Rio que fixou em doze obras por ano o que faz (mesmo que tenha tempo sobrando), para que seus quadros valorizem.

Ps1. O Festival “É Tudo Verdade” continua no Rio de Janeiro de sexta a domingo 10/04 no CCBB-RJ, Instituto Moreira Salles, Espaço Museu da República, Ponto Cine Guadalupe, Auditório do BNDES. Ingressos gratuitos.

Ps2 O título do Post vem de um verso de Fernando Pessoa com um acréscimo.

http://migre.me/4cCOW

http://migre.me/4cCU6

http://migre.me/4cD1t

http://migre.me/4cD5O

http://migre.me/4cDai

http://migre.me/4cDiu

http://migre.me/4cDnU

http://migre.me/4cDrG

http://migre.me/4cDJ4

http://migre.me/4cDPQ

http://migre.me/4cDUu

http://migre.me/4cE0m

http://migre.me/4cE4r

http://migre.me/4cEaa

http://migre.me/4cEic

http://migre.me/4cEo4

http://migre.me/4cEtP

Nelson Rodrigues de Souza

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Últimas Aquisições Para Minha Memória Afetiva

















Últimas Aquisições Para Minha Memória Afetiva

(O texto contém spoilers, ou seja, detalhes de narrativas são adiantados para a análise pretendida)

1- “Bruna Surfistinha” de Marcus Baldini (Brasil/2011)

Raquel (Deborah Secco), uma garota adotada numa família de classe média , sente-se deslocada tanto na escola ( onde sofre um bulling peculiar), como no seio familiar, principalmente pelas agressões verbais do irmão. Este é o substrato psicanalítico que move Raquel a desligar-se de seu meio e procurar um lugar onde possa ter independência. Assim inicia-se no mundo da prostituição, logo sendo cafetinizada, tendo colegas ora hostis ora solidárias num universo também competitivo, onde ela vai se destacando e conquistando uma quantidade incrível de homens para seu trabalho de profissional do sexo. Ao ver-se também deslocada e ofendida neste seu outro meio, busca autonomia, criando um site, se oferecendo e tendo bastante sucesso, dando até cotação aos seus amantes, até que a cocaína que lhe oferecem neste outro meio desmonte seus sonhos e ela passa a fazer programas baratos a 20 reais. Um trabalho intenso de um semestre e um casamento com um cliente vai restituí-la ao universo dito “pessoas de bem”.

Baseado numa história real descrita em “O Doce Veneno do Escorpião”, “Bruna Surfistinha” no retrato do mundo da prostituição não tem o vigor crítico e cru de “Princesas” de Fernando León de Aranoa” ( Espanha/2005) ou ainda a originalidade de “A Mulher em Chamas” de Robert van Ackeren ( Alemanha/1983), onde uma universitária se sustenta com sua vida dupla. Mas dentro do turbilhão marqueteiro e dos mais de 2 milhões de ingressos vendidos, esconde-se um filme que não deixa de ter certa potência criativa, escorando-se no ótimo trabalho de Deborah Secco que é oprimida, deprimida, efusiva, sensual, angustiada, orgulhosa, inocente, atrevida, argentária, esperançosa, desesperada etc. quando a situação dramática em jogo assim o exige. Sem ser vulgarmente publicitária, a montagem e direção do filme mantém um ritmo pulsante, não permitindo que o filme caia nem na comiseração fácil, quanto também numa apologia discutível.

Fica no ar ao final, algo que no Brasil já foi aventado pelo ex-deputado Fernando Gabeira e é uma bandeira da socióloga e ex-prostituta Gabriela Silva Leite que fundou a ONG Davida, que defende o direito de prostitutas, tendo escrito “Filha, Mãe, Avó e Puta”. O filme não facilita as perversidades no caminho da difícil vida fácil. Neste sentido é bastante realista. Faltou, entretanto, discutir um tanto a questão de como este universo pode se mostrar atrativo, pode ser uma opção e não um lugar ( ou não lugar) para onde se é empurrado. Mas provavelmente esta é uma questão para outro filme e outras discussões mais aprofundadas onde a questão da legalização dos profissionais do sexo (seja para homos e heteros) seja feita sem nenhuma hipocrisia, levando-se em conta o real e não o ideal. Claro que não é uma questão fácil, mas tem que ser discutida, caso contrário continuará reinando a sordidez. Um dos pontos positivos do filme é mostrar-nos sem pudor como pode ser variada (em atitudes, corpos e rostos) as pessoas que procuram a prostituição, a mais antiga das profissões, gostemos ou não.

2- “VIPs “ de Toniko Melo ( Brasil/2011)

Marcelo (Wagner Moura) na infância sempre foi instado pelo pai , piloto de avião, a estar atento a dados sobre aeroportos e ser um grande homem. Isto é algo que o filme mostra de uma forma um tanto tênue demais, talvez por não querer se valer de psicologismos explicativos da personalidade incrivelmente mutante de Marcelo, que o faz tanto ser Carrera, piloto contrabandista de armas, um cover de Renato Russo ou se passar por Henrique Constantino, filho do presidente da Gol, para poder curtir o carnaval em Recife, dentre outras falsificações de identidade.

Há em “VIPs” certo parentesco com “Prenda-me se for Capaz”, belo filme de Steven Spielberg, também baseado numa historiar real, com Leonardo DiCaprio, no mínimo competente como sempre, como um outro falsário com seu lado adorável.Em momentos difíceis o pai de Marcelo aparece como que um espírito gerado pela mente do filho, para lhe instilar força, mas com resultados contraproducentes: há mais temor no filho do que alegria em ver o pai. Há nestes momentos de encontro com o pai, seja na memória ou imaginação, algo mais próximo do sinistro do que do registro lírico. Mas claro que isto não dá conta de explicar a personalidade mutante de Marcelo.E o filme nem precisa disto.Seus problemas são de outra ordem.

VIPs” beirando muitas vezes a inverossimilhança, sendo uma ficção criada a partir de fatos reais, escora-se na capacidade que Wagner Moura tem de nos surpreender. Sem a versatilidade e carisma deste grande ator, o filme talvez não decolasse. A parte final em Recife nos é mostrada de forma um tanto atabalhoada demais, sem que entendamos direito o envolvimento e motivações dos personagens secundários.

“VIPs “ tem punch e consegue ser visto com prazer mesmo que lamentemos que com este argumento e ator, um filme bem melhor poderia ter sido feito. O Marcelo do filme é detido ( uma fuga possível é insinuada), mas quantos Marcelos não estarão por aí nas Assembléias Legislativas, na Câmara de deputados, no Senado, Supremos Tribunais e nas arraias- miúdas com poder etc.? O disfarce ostensivo, mais do que uma compulsão, passou a ser uma profissão.

3-“O Retrato de Dorian Gray” de Oliver Parker (Reino Unido/2009)

O belo jovem Dorian Gray (Ben Barnes) chega à Londres vitoriana e é apresentado à alta sociedade por Lord Henry Wotton (Colin Firth) que também lhe mostra os escaninhos do hedonismo sem freios. Basil Hallward (Ben Chaplin), um artista que frequenta o meio dito aristocrático faz uma pintura em que Dorian é captado em toda sua juventude e beleza (quase que andrógina). Lord Henry tem uma atração homoerótica mal resolvida por Dorian (como Basil), mas casado e com filho por nascer, não consegue sair da prática à ação e só lhe resta ser um mentor de Dorian, incutindo-lhe ideias libertárias e libertinas, inclusive procurando fazer com que o jovem esqueça uma paixão por uma jovem que num movimento de sedução, traição e rejeição do amado, acaba por se suicidar.

Dorian num pacto com forças ocultas permanece sempre jovem enquanto seu retrato envelhece transformando-se numa criatura monstruosa. Numa chave não realista, Oscar Wilde, no romance que inspira este filme, é pródigo em ironias e alfinetadas na sociedade que lhe deu grande prestígio como dramaturgo, mas depois o desprezou quando ele acusado de ter seduzido Lord Douglas pelo pai deste, é preso, perde todos os bens e direitos autorais, bem como a esposa, o convívio com os filhos e ao sair da prisão, isola-se numa pequena cidade, com nome trocado, vindo a morrer pouco tempo depois.

Se Barnes não é suficientemente maduro enquanto ator para que nos convença sempre como Dorian Gray, Colin Firth em todas as suas intervenções rouba o filme, pois em algumas de suas boutades reconhecemos a veia crítica de Oscar Wilde.

“O Retrato de Dorian Gray” enquanto nova filmagem perde um tanto do impacto possível por exagerar em elementos que atingem o Grand-Guignol, talvez por querer ganhar o público mais jovem, insaciável por este tipo de espetáculo. Mas mesmo assim, com um roteiro básico bastante interessante e diálogos ferinos, consegue trazer um tanto do brilhantismo de Wilde para as telas. Único romance do autor, merece ser lido numa nova edição lançada, pois só pelo que o filme já insinua tem muito a dizer sobre o mundo de buscas infrutíferas de eterna juventude, hedonismo desenfreado convivendo com mortificações da sexualidade e hipocrisias variadas em que vivemos.

“Há aqueles que tiranizam o corpo.Há aqueles que tiranizam a alma.Há aqueles que tiranizam o corpo e a alma. O primeiro chama-se Príncipe. O segundo chama-se Papa. O terceiro chama-se Povo.”- escreveu Wilde em “A Alma do Homem sob o Socialismo”. Dorian Gray e Wilde precisavam inventar um mundo para sobreviver à existência terrena e suas limitações autoritárias. Dorian enveredou pelo caminho da falsa imortalidade. Wilde pelo caminho imortal da grande literatura.

“O Retrato de Dorian Gray” pelos seus excessos, algumas vezes nada sutis, está longe de ser um grande filme. Mas tem o grande mérito de nos incitar a conhecer um autor maior. ”Wilde” (1997) de Brian Gilbert com Stephen Fry é um belo filme sobre a vida do autor. Mas faltou um quê a mais de transgressão para fazer justiça ao autor, o que este filme mais recente ao seu modo tem.

4- “Feliz que Minha Mãe Esteja Viva” de Claude e Nathan Miller (França/2009)

Baseado numa reportagem de Emmanuel Carrère, com participação deste no roteiro, “Feliz que Minha Mãe Esteja Viva” tem um título que se explica bem mais de forma bastante emocionante ao final, depois de cenas impactantes.

Julie ( Sophie Cattani) abandona seus filhos de quatro anos e outro ainda bebê para adoção. Thomas (aos 20 anos, Vincent Rottiers) cresce inadaptado à família que o adotou, também fixado na imagem da mãe que não conhece, contribuindo para a desestabilização emocional do pai adotivo. Numa pesquisa que realiza descobre, na adolescência, onde mora sua mãe. Chega até ela, mas não tem coragem de entrar, fugindo. Mas sua obsessão não termina. Com vinte anos, trabalhando como mecânico, resolve enfim travar contacto com a mãe, havendo desconfianças mútuas nesta aproximação. Enquanto o irmão mais novo, desinteressado pela mãe leva uma vida chamada normal, Thomas não tem namoradas, nada se sabe sobre sua vida sexual. O que é ressaltado é sua obsessão pela mãe que tanto ama como odeia, sentimentos que os levarão a situações limites.

Em termos de tramas familiares e busca de origem não temos aqui a grandeza de “Incêndios” de Dennis Villeneuve (já comentado em post anterior e ainda em cartaz), mas Claude e seu filho Nathan constroem uma narrativa não linear bastante envolvente e conseguem extrair dos atores todos bastante verdade.

O pessoal GLBT luta com todo direito à possibilidade de adoção. Mas esta é uma primeira questão. O que um filme como “Feliz que Minha Mãe Esteja Viva” nos mostra é que por mais que haja sinceridade na relação pais adotivos e filhos adotados, pode avultar uma zona de sombra que só uma psicanálise atenta pode desvendar e à qual devemos prestar bastante atenção. O filme mostra dois filhos adotados e dois caminhos trilhados. Por que os dois irmãos tem atitudes tão diferentes? Corrigindo: talvez nem a psicanálise possa explicar. Talvez seja algo próximo do mistério dos encontros humanos (parentais ou não) neste planeta tão ainda encoberto de dúvidas.

5- “Elza” de Ernesto Baldan e Izabel Jaguaribe (Brasil/ 2010)

Com apenas 82 minutos de duração, estamos aqui longe de um filme que dê uma ideia geral realmente à altura do Planeta inesgotável Elza (Soares). Estamos aqui diante daquele tipo de filme em que sentimos que quase tudo que é mostrado é praticamente relevante, mas saímos do cinema de certa forma decepcionados, pois várias abordagens foram negligenciadas em nome de uma posição que não é bem explicitada.

Procura-se entender o fenômeno Elza pela potência única de sua privilegiada garganta, as notas que atinge, o tom jazzístico que encorpa sua voz em improvisações fantásticas, bem como sua rebeldia em não querer ser enquadrada como “cantora de samba”, mas também ser uma artista que aspira a outros grandes desafios (até o funk). Um momento que poderia explicar melhor isto seria Elza ter interpretado “Do Cóccix Até o Pescoço” alternando vozes com o compositor Caetano Veloso. O que ocorre na prática é Caetano cantar a música e Elza apenas florear alguns versos.

Temos uma bela sequência de Elza afagada pelo carinho e voz de Bethânia, mas vista no conjunto é algo que trabalha contra o ritmo do filme. A duração da sequência ficaria melhor num extra de DVD. Jorge BenJor cantando sozinho é algo que não se justifica. Falta Elza também aqui. O que está na medida certa em termos de depoimento e participação de um artista junto com Elza são as sequências com Paulinho da Viola.

Dito tudo isto, mesmo assim pode-se dizer que “Elza” é imperdível, pois aponta para os mistérios da criatividade que ultrapassa grandes barreiras de classes sociais e nos faz mais uma vez comungar com a noção popular, mas nem por isso menos verdadeira, de que “Deus escreve certo por linhas tortas”. Elza veio do “Planeta Fome”, conforme disse no seu encontro com Ari Barroso na Rádio Nacional dos seus áureos tempos. Agora com muita juventude e gana de viver, com uma idade que nos esconde, o Planeta Elza ainda pode nos revelar contagiantes surpresas.

6-“O Primeiro Que Disse” de Ferzan Ozpetek (Itália/2010)

Aqui temos uma comédia dramática em seu arcabouço básico bastante interessante e sedutora, bem resolvida em seu lado drama, mas um tanto simplista e dando piscadelas fáceis para a plateia no seu lado cômico.

Tommaso Cantone (Riccardo Scamarcio) mora em Roma e ao contrário do que pensa seu pai, o patriarca Vincenzo (Ennio Fantastichini), não estuda Administração de Empresas e sim Letras, desejando ser escritor, vivendo com seu namorado. Ao voltar para o interior onde a família tem uma indústria de macarrão, ele planeja contar a ela toda que é gay e que não pretende administrar nada, pretendendo assim ser expulso e voltar à Roma para a vida que deseja. Quando a família toda se reúne, o irmão Antonio (Alessandro Preziosi) se adianta e se declara gay, conta que tem como amante há anos um trabalhador da indústria. Depois que o pai cai realmente em si, expulsa Antonio e desmaia, indo parar no hospital. Tommaso tem de adiar seus planos e passa a controlar os negócios com a filha de um novo sócio do pai. Tudo é observado com placidez e sinais de compreensão pela avó ( Ilaria Occhini) que tem história de sua vida amorosa contada em narrativa paralela.

O título original é “Mina Vaganti” (Bala Perdida) e diz respeito a algo secreto que ocorreu com a avó quando moça, algo que mudou seu destino. Caso a bala disparada a tivesse acertado, nada do que acontece estaria ocorrendo.

Enfim, temos uma trama atraente. Mas como além dos filhos gays envolve amigos gays de Tommaso e seu namorado que chegam de Roma, o filme passa a extrair graça fácil desta situação, criando até certa inverossimilhança (o patriarca não poderia ser tão obtuso diante da realidade que se apresenta).

Ainda que a visão da avó comendo doces para aumentar seu nível de glicose, para morrer e ajustar a situação ao seu modo, seja um tanto grotesca, não deixa de alavancar a narrativa para um patamar interessante. O desfecho com o casamento da avó festejado por todos os personagens é um achado.

“O Primeiro que Disse”, no conjunto é um filme que se vê bem, mas poderia atingir níveis de emoções mais nobres se fosse um filme mais contido e sutil.

7- “Não me Abandone Jamais” de Mark Romanek (Reino Unido/EUA/2010)

Aqui temos um filme que mescla uma camada tênue de ficção científica com drama existencial. Mas Romanek está longe de um Tarkovski em “Solaris” ou “Stalker”.

Baseado num romance de Kazuo Ishiguro, “Não me Abandone Jamais” nos mostra numa primeira parte, desnecessariamente longa, a vida dos amigos Kathy (Carey Mulligan), Tommy (Andrew Garfield) e Ruth (Keira Knightley) num internato de elite, até que sejam todos alertados para o fato de que na realidade são clones de humanos destinados num futuro próximo a serem fornecedores de órgãos para quem deles necessite, uma questão ética gravíssima para a qual o filme não tem olhos.

“Não me Abandone Jamais” numa segunda parte concentra-se num triangulo amoroso destinado ao fracasso, pois sabem os protagonistas que mais cedo ou mais tarde morrerão em função do destino que já lhes traçaram cientificamente. A mais bela e terrível sequência se dá quando Tommy pede para descer do carro e começa a gritar na estrada.

O filme é suficientemente frio para não cair no melodrama barato, mas esta frieza (pelo menos a mim) contagia o espectador. Outra obra de Kazuo Ishiguro transposta ao cinema foi muito mais bem sucedida em seus silêncios e olhares bastante significativos: “Vestígios do Dia” de James Ivory.

Dentro deste tema que é a finitude compulsória e inquietações existenciais, “Blade Runner- Caçador de Andróides” de Ridley Scott é até agora um clássico imbatível, sendo que eu prefiro a versão do diretor que deixa claro que Harrison Ford também é um andróide, ampliando o quadro de angústia.

A favor de “Não me Abandone Jamais” fica o beneplácito da dúvida: quando o vi estava eu realmente já sonolento ou o filme é que me provocou sonolência?

Ps1 Não percam por nada “Inverno da Luz Vermelha” no Teatro Gláucio Gil de Adam Rapp dirigido pela também cineasta (dentre outras atividades) Monique Gardenberg ( até agora com mais belas incursões no Teatro do que no Cinema). Temos aqui três seres à margem da sociedade mostrados de uma forma acutilante. Mas o ingrediente pessoal mais propício para se encantar com a peça não é nossa cultura, mas sim nossa capacidade de compaixão humana, algo que se tem ou não. Adam Rapp é um misto de Plínio Marcos e Mário Bortolotto num mundo globalizado com toques de falida intelectualidade.

Ps2 Não percam dia 5/04 e 6/04 o show “Arco do Tempo” no Sesc-Copacabana com a cantriz Soraya Ravenle, lançando seu primeiro CD só como cantora, com músicas de Paulo César Pinheiro e parceiros. Paulo compôs a letra de “Viagem” imortalizada por Marisa Gata Mansa, agora revista por Soraya, quando tinha 14 anos. Paulo ainda tem muitas músicas inéditas. Se dessem mais valor à cultura neste país, deveria haver artistas se “estapeando” para gravarem primeiro essas músicas. E ainda tem gente que acredita que letrista não pode ser também algumas (ou muitas) vezes, grande poeta. É o caso deste genial Paulo César Pinheiro.

http://migre.me/49WWs

http://migre.me/49WZG

http://migre.me/49X5V

http://migre.me/49X82

http://migre.me/49Xa2

http://migre.me/49Xbi

http://migre.me/49Xcx

http://migre.me/49XdD

http://migre.me/4a3zF

http://migre.me/4a3EY

http://migre.me/4a3LB

http://migre.me/4a3SI

http://migre.me/4a3ZO

http://migre.me/4a43T

Nelson Rodrigues de Souza