segunda-feira, 26 de julho de 2010

Vertiginoso Castelo com Labirintos da Ética Humana/ Uma Viagem de Eastwood ao Outro que Mora no Inimigo: Um díptico de Clint Eastwoood







“A Conquista da Honra” de Clint Eastwood

Vertiginoso Castelo com Labirintos da Ética Humana

Uma das mais sangrentas e importantes batalhas da Segunda Guerra Mundial travou-se no Pacífico, na Ilha de Iwo Jima. O hasteamento da bandeira americana no Monte Surubachi em fevereiro de 1945 gerou uma das mais famosas fotos de todos os tempos, realizada por Joe Rosenthal da Agência Associated Press, premiada com o Pulitzer, onde se vê seis soldados, não só com grande apelo patriótico mas com inegável beleza estética. Um dos homens que hastearam a bandeira foi o enfermeiro da Marinha John Bradley. Como seu filho James Bradley cresceu com esta história na qual o pai mal queria tocar, após a morte deste, resolveu escrever junto com o jornalista Ron Powers o livro “A Conquista da Honra” (lançando no Brasil pela Ediouro), onde esmiúçam tanto os acontecimentos da batalha como uma história emblemática da cultura americana, pouco conhecida que é a da mitologia que envolve a bandeira hasteada. Para começar, o marco histórico foi outra bandeira hasteada antes. Um general a quis para si e outra foi fincada, com um enfermeiro e cinco fuzileiros navais. Foi uma foto deste outro momento, já digamos, com pathos um tanto forjado, que correu o mundo. O que também foi escondido na época é que a ilha ainda estava longe de ser conquistada, sendo que mais um mês de lutas ocorreu com baixas significativas dos dois lados, com três dos soldados que se constituíram na encarnação de uma gloriosa vitória fake morrendo depois. Em 40 dias de batalhas morreram por volta de 7000 soldados americanos e mais de 20000 soldados imperiais japoneses.

A paciência dos americanos com os esforços de guerra estava acabando. Os recursos para tal também. Uma forma encontrada para convencê-los a comprar bônus de guerra foi um circo midiático montado, onde os três soldados sobreviventes, vinculados à foto famosa, que insuflava patriotismo, percorreram os EUA. O diretor Steven Spielberg detinha os direitos autorais da obra desmistificadora de James&Ron. Num encontro com Clint Eastwood ofereceu-lhe o projeto enquanto diretor e reservou para si o papel de co-produtor. Uma decisão sábia, pois as histórias que “A Conquista da Honra” (EUA/2006) nos conta se apóiam em sofisticadas camadas de flashbacks e flashforwards, numa direção de arte extraordinária, batalhas de intenso realismo filmadas em sépia nos lembrando um mundo já histórico, cuidados de produção que remetem ao “O Resgate do Soldado Ryan” do próprio Spielberg e principalmente num aprofundado carinho por personagens marginais da cultura americana bem como numa corajosa desmistificação de tabus patrióticos. Estes principais elementos combinados estão mais próximos do cinema que Clint Eastwood tem praticado do que do seu poderoso co-produtor.

O enfermeiro John “Doc” Bradley (Ryan Phillipe), o fuzileiro naval de origem indígena Ira Hayes (Adam Beach) e o fuzileiro Rene Gagnon (Jesse Bradford) reagem de forma diversa à missão que recebem de fazer marketing da suposta heroicidade estampada na foto. John é mais discreto. René que a rigor não lutou, pois era um mensageiro, é bonitão e vaidoso e é o que procura tirar proveito de sua celebrização instantânea. Ira sente uma culpa enorme por sentir que os verdadeiros heróis não estão ali, ao mesmo tempo muita dor pelos companheiros perdidos e pelas atrocidades que teve que praticar. É em Ira, descendente de índios massacrados pelos colonizadores que a dor da guerra bate mais forte e para suportar a maratona de hipocrisias oficiais tem de se embebedar.

Numa cerimônia com os três soldados, sorvetes com a forma da bandeira hasteada com os seis heróis são oferecidos. Ao perguntarem a Ira se ele quer creme de morango ou chocolate ele prefere o primeiro. O morango sobre o sorvete evoca sangue derramado. Um fhashback de situações árduas da guerra irrompe na narrativa. À medida que os soldados sobem num monte de papel maché, em que se mimetiza o grande feito do hasteamento, em um estádio lotado, cada um ao seu modo vai se lembrando dos companheiros perdidos e de cenas cruas que presenciaram. Em suas idas e voltas no tempo, o filme exige uma atenção não rotineira do espectador. A base da narrativa do filme vem das pesquisas que o filho de John Bradley, James, faz para entender o que de fato aconteceu com o pai. Desta forma, como bem observou Ricardo Calil no antigo blog Olha Só-No Mínimo, há uma evocação de “Cidadão Kane” de Orson Welles onde o Rosebud pesquisado, o qual se tenta decifrar, é a foto e o tempo narrativo é fragmentado ao sabor de evocações com afinidades eletivas. Calil destaca que, como na obra-prima de Orson Welles uma aura de mistério será sempre incontornável.

Em “O Homem que Matou o Facínora” (EUA/1962), uma das grandes obras primas de John Ford, a história da morte do bandido Liberty Valence (Lee Marvin), da ascensão profissional do advogado Ranson Stoddard (James Stewart) e sua disputa amorosa com o caubói enigmático Tom Doniphon ( John Waune) por Hallie (Vera Miles), se dá num contexto em que Ranson só acredita no poder das leis e Tom não acredita que se possa dispensar do poder das armas naquela cidade Shinbone, do Velho Oeste, ameaçada constantemente por Liberty, ainda muito longe de representar um marco civilizatório. Uma frase antológica do desfecho do filme possui diversas conotações: “Quando a lenda é mais forte que a verdade, imprima-se a lenda”. No filme de Ford, não há nenhum vestígio de cinismo nesta colocação. É uma constatação dos fatos ocorridos, suas repercussões e uma forma em que justiça se fez por vias transversas. A frase de certa forma pode ser também interpretada, como a essência da operação de criação das obras de arte cinematográficas de ficção. Este passo que vai da verdade estrita à lenda pode ser tido como uma transposição poética. Mimetizar simplesmente a realidade não é função da arte (pelo menos da ficção). Mesmo o neo-realismo italiano se nutria de invenções. Fellini, já distante do movimento que ajudou a criar, confessou: “Minto, mas sou sincero”. Entretanto, em “A Conquista da Honra” esta frase possui ainda outra conotação.

A farsa montada em torno da suposta força patriótica da bandeira, desnudada pelo filme, é uma lenda que se imprime em detrimento da verdade, com muito cinismo. Um dos sintomas eloqüentes disto é o racismo contra o índio Ira que volta e meia dá as caras até mesmo por parte de seus superiores que o constrangem a se exibir como o herói que ele não se enxerga junto a seus dois companheiros. O destino dos três ainda vai tornar mais crítico a ética da criação desta lenda. Com sua narrativa clássica, mas ao mesmo tempo moderna, Eatwood dialoga de uma forma não imediata e melancólica com o clássico de John Ford.

Conforme operação também vista, por exemplo, no pouco visto mas muito bom “Crime Verdadeiro (EUA/1999), nos belíssimos e celebrados “Os Imperdoáveis” (EUA/1992), “Sobre Meninos e Lobos” (EUA/2003) e no magistral “Menina de Ouro” (EUA/2004), Clint Eastwood em “A Conquista da Honra” é tremendamente solidário com seus personagens de certo modo marginais numa sociedade violenta e hierarquizada e não os demoniza, por mais desvios da ética dominante que eles cometam. A descontrução do mito da bandeira que se prestou a patriotadas está clara no filme. Neste sentido ganha paralelos com o que foi feito nos EUA em que “Bush filho”, ainda queria mandar milhares de soldados americanos ao Iraque, mesmo que esta operação tenha se mostrado um grande equívoco, uma guerra que nunca deveria ter começado. Mas o filme não se reduz a isso. É muito mais complexo. Eastwood não está evocando algo como a loucura da guerra do Vietnã como os cáusticos Francis Ford Coppolla e Stanley Kubrick nas obras-primas “Apocalipse Now” e “Nascido para Matar” respectivamente, para nos falar da loucura de todas as guerras. Por mais que nos mostre de certa forma estes vetores, não glamurizando em nenhum momento a guerra, realçando todo o inferno a que são submetidos os combatentes que perdem a vida na flor da idade, há um tom carinhoso ao mostrar as agruras e os esforços dos soldados, sem os configurar como cínicos, o que para um olhar desatento pode soar como belicismo, mas que é a rigor, uma forma de homenagear aqueles que foram peões num tabuleiro de xadrez complexo em que os que ditam seus destinos estão seguros em seus bunkers.

Tanto o olhar de Eastwood é generoso para os que participaram da batalha nesta ilha sulforosa, tradução de seu nome, que este extraordinário diretor teve a idéia de rodar também, formando um díptico, “Cartas de Iwo Jima”, uma versão da mesma luta, agora com atores japoneses, em japonês ( Clint dirigiu com um intérprete) para mostrar o ponto de vista do inimigo. É este filme, que angariou melhor fortuna crítica, tendo recebido o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, alguns prêmios de associações de críticos com melhor filme de 2006 e concorreu ao Oscar de Melhor Filme e Diretor. “A Conquista da Honra” concorreu só a dois prêmios técnicos. Uma flagrante injustiça, pois se trata aqui de um díptico extraordinário. Clint Eastwood com 76 anos na época está cada vez melhor enquanto cineasta. Com “A Conquista da Honra” constrói mais um castelo cinematográfico, onde o ser humano se vê mergulhado em labirintos éticos. Uma obra-prima do cinema contemporâneo a ser partilhada com o público, com grande emoção, desde o início em que vemos um soldado correndo, até o final dos letreiros de apresentação.

Ps. O título ideal para o filme no Brasil deveria ser a tradução literal “Bandeiras de Nossos Pais” (“Flags of Our Fathers”). “A Conquista da Honra” traz um tom triunfalista que o filme não tem.

“Cartas de Iwo Jima” de Clint Eastwood

Uma Viagem de Eastwood ao Outro que Mora no Inimigo

Em “A Conquista da Honra” a foto histórica de Joe Rosenthal, com o hasteamento da bandeira americana no Monte Suribachi de Iwo Jima, desencadeava uma discussão sobre a verdade do que se considera autêntico heroísmo, por trás de um festival midiático montado por todo EUA para vender bônus de guerra. Em “Cartas de Iwo Jima” (EUA/2006), filme complementar de Clint Eastwood, rodado simultaneamente, numa façanha sem precedentes na história do cinema americano dentre os grandes autores, temos uma maior concentração na guerra propriamente dita, só que vista pelo lado das desventuras dos japoneses. Não se pode dizer, a rigor, que seja uma visão japonesa do conflito de Iwo Jima, pois temos um diretor americano à frente de um projeto que surgiu de um argumento de Paul Haggis e Iris Yamashita, com roteiro desta última. Mas é inegável a generosa tentativa, lograda com louvor, de entender o universo do outro com o qual os americanos lutaram. O confronto com cartas do General Tadamichi Kuribayashi à sua mulher, recentemente descobertas em escavações, publicadas em livro, foram o estopim definitivo para a realização da obra.

Desta vez temos um filme que se estrutura com pausas em cartas que oficiais e demais patentes japoneses mandavam à suas famílias, quando estavam envolvidos num conflito do qual sabiam que tinham pouca ou nenhuma chance de vitória. O que podia ser feito e aconteceu, foi dificultar ao máximo a vitória dos americanos, estendendo os combates por 40 dias. O filme começa em 2005 quando cientistas japoneses perscrutando cavernas na Ilha de Iwo Jima, com canhões e armas enferrujados do lado de fora, descobrem algo enterrado. Não será difícil ao espectador imaginar o que seja. A emoção se mantém mesmo assim forte. O filme recua no tempo.

Em junho de 1944 chega à ilha de Iwo Jima o general Kuribayashi (Ken Watanabe) que tinha sido adido militar nos EUA e conhecia bem o inimigo com o qual se defrontaria como comandante geral nas operações na ilha. De cara descarta a idéia de escavar trincheiras na praia e investe na construção de ligações entre cavernas, de onde surpreenderiam os americanos. Suas ações tentam a se pautar pela moderação. O jovem padeiro Saigo (Kazunari Niromyia) que foi para a guerra sem convicções e forçado, com sua lúcida covardia diante de um espírito guerreiro imperial que chega a encarar o suicídio coletivo diante da derrota iminente como uma honra, é um forte contraponto ao tenente Ito (Shidou Nakamura), defensor implacável destes ideais. O tenente coronel, Barão Takeishi Nishi (Tsuyoshi Ihara), que conquistou uma medalha de hipismo nas Olimpíadas de Los Angeles em 1932 é um outro estrategista moderado. O melancólico soldado Shimizu (Ryo Kase) é tido como um espião.

Em 19 de fevereiro de 1945 ocorre o desembarque dos americanos e cenas vistas em “A Conquista da Honra” passam agora a serem mostradas por outros pontos de vista. Daí a força extraordinária deste díptico único no Cinema Contemporâneo. Os suprimentos dos japoneses vão cada vez mais se tornando escassos e as ajudas externas desaparecem, mas instigados por um código de honra imperial que a nós ocidentais soa estranho, vão de modo geral às últimas conseqüências, estoicamente. O curioso e fascinante é que nas cartas que mandam aos seus familiares, independentemente da patente, atos cotidiano é que são ressaltados. Uma das mais belas seqüências se dá quando um jovem soldado, um prisioneiro americano bastante ferido capturado, tem uma carta sua lida e todos se dão conta que em essência os que podem ser considerados os inimigos, são muito próximos. O que aprenderam sobre os inimigos, considerados antes de tudo covardes, estava deturpado por um fanatismo guerreiro.

Em “Glória Feita de Sangue” (EUA/1957) proibido na França durante vários anos, Stanley Kubrick nos mostra um vergonhoso episódio da primeira guerra mundial em que um general francês para receber mais insígnias conforme acordado com um superior, obriga seus soldados a enfrentaram uma missão suicida, sem chances de vitória na captura de um ponto estratégico, tido com o “Formigueiro”, de posse dos alemães. Os soldados avançam até certo limite. Ele por telefone obriga o capitão a atacar as próprias trincheiras, o que lhe é negado. Inconformado, em represália, acaba depois de negociações, para dar exemplo, levando três soldados à corte marcial onde são condenados à morte. Kubrick em econômicos 87 minutos, com mise en scène magnífica com é de seu estilo, com planos perfeitos, retrata os interesses, a hipocrisia e o sadismo que está por trás das ações de oficiais superiores. O coronel Dax (Kirk Douglas) tenta num tribunal precário e sumário advogar em nome das vítimas do poder que não enxerga limites. É um dos grandes filmes de guerra de todos os tempos.

Por que nos lembrarmos de “Glória Feita de Sangue” aqui? Porque por mais que os soldados de “Cartas de Iwo Jima” sejam levados a missões que de antemão sabe-se que são suicidas não há aqui o menor vestígio do arrivismo e cinismo desenfreados do primeiro filme, mesmo por parte do cruel e trágico tenente Ito, disposto até mesmo ao gesto de, com sua espada de samurai, cortar a cabeça de soldados que se recusam a morrer explodindo granadas no próprio corpo. O que move a todos, com as exceções como o padeiro, é um código de honra arraigado e particular, em defesa de sua pátria. Eastwood nos apresenta estes comportamentos todos, sem julgamentos e moralismos.

Nagisa Oshima no extraordinário “Furyo - Em Nome da Honra” (1983) tenta apreender em imagens e compreender as diferença entre Oriente e Ocidente, dentre outros temas, ao nos mostrar prisioneiros ingleses nas mãos de japoneses num campo de concentração na Ilha de Java em 1942, captando também as noções divergentes de honra entre os inimigos. Numa cena exemplar, Sargento G.Hara (Takeshi Kitano) diz ao Coronel Lawrence (Tom Conti), que em meio a muita violência, se tornou seu amigo, algo deste teor: “Por que é que você não se suicida?”. É pela admiração ao amigo que o sargento faz esta proposta. Não há nenhum cinismo.

“Cartas de Iwo Jima” é fotografado praticamente o tempo todo em sépia. O vermelho irrompe quando há sangue dos corpos feridos ou mutilados ou então o fogo atinge o corpo dos soldados. Sabemos de antemão que tudo ali pertence ao passado e a fotografia combina perfeitamente com o tom nostálgico pelas vidas que se foram e com o tom encantatório, pungente e simples das cartas.

Com uma estética totalmente diferente, com um colorido exuberante onde se realça a força da natureza, “Além da Linha Vermelha” (1998) de Terrence Malick nos mostra soldados americanos em batalhas contra os japoneses em Guadalcanal no Pacífico, em que a perda de vidas humanas em missões arriscadas é cada vez maior. O tom reflexivo e metafísico vem das lembranças e divagações dos soldados e oficiais americanos. Estes se angustiam por dúvidas cruciais: há algo além da tênue linha vermelha que separa a vida da morte e que sentido há em lutar? Já em “Cartas de Iwo Jima” a força da educação militar imperial, para o bem ou para o mal, move os japoneses, com algumas exceções, a acreditar que possa haver algo além que os recompensará. Isto não quer dizer que esta entrega não seja feita com incomensurável dor. O filme ressalta este aspecto com grande pungência.

Numa época em que a guerra do Iraque se arrasta há anos e há agora até a ameaça de conflitos com o Irã, dentre vários despropósitos associados, há uma terrível miopia dos EUA em relação ao que significa o outro, o que era acirrado na Era Bush e ainda tem seus tentáculos na era Obama em que o Afeganistão ainda está sob ocupação. Assim, por mais que Clint Eastwood diga em entrevistas que teria feito estes dois filmes, mesmo sem os acontecimentos decorrentes de 11 de setembro de 2001 (e há sinceridade no diretor), além das suas qualidades estéticas e humanas extraordinárias, “Cartas de Iwo Jima” e “A Conquista da Honra”, indiretamente comentam, inequivocamente, estes conflitos contemporâneos.

Ps1 Atentemos para uma parte da perspicaz crítica de Marcelo Lyra no site Cinequanon, “O Enxadrista Clint Eastwood”:

“O filme levanta um ponto delicado dessa guerra. Em vários momentos, os diálogos entre oficiais japoneses dão conta que o Japão estava praticamente derrotado. Num deles, fica claro que, depois da batalha de Mariana, o Japão praticamente não tinha mais navios para combate e a força aérea mal era suficiente para defender Tóquio. Ou seja, ao contrário do que a história oficial divulga, as bombas de Hiroshima e Nagasaki não eram fundamentais para a vitória. Talvez não fossem sequer necessárias. Fica no ar a sensação amarga de que os EUA aniquilaram as duas cidades para testar o poderio de seu novo brinquedinho nuclear ”

Algum especialista em estratégia militar teria alguns argumentos em contrário, a favor das bombas? Eu não tenho. Digamos por redução ao absurdo que uma delas fosse necessária. Pois então pra quê a outra?... Para mim o lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki são acontecimentos tão terríveis e abomináveis quanto o Holocausto. O tribunal de Nuremberg de 1946/1947 foi manipulado e insuficiente, nos valendo de eufemismos.

Ps2 Estes dois textos foram publicados originalmente no jornal eletrônico Montlblãat. Agora surgem aqui com correções, cortes e acréscimos.

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Nelson Rodrigues de Souza

domingo, 25 de julho de 2010

Claros e Obscuros Enigmas da Memória e da Criação- "Santiago" de João Moreira Salles





Claros e Obscuros Enigmas da Memória e da Criação

Santiago Badariotti Merlo, argentino de descendência italiana, foi mordomo por trinta anos da família do banqueiro, embaixador e Ex-Ministro da Fazenda de João Goulart, Walter Moreira Salles, quando instalada na casa da Gávea, onde hoje é o Instituto Moreira Salles. Personalidade exuberante, aos 80 anos, já morando num pequeno apartamento do Leblon, Santiago gerou um documentário de João Moreira Salles, de 1992, que ficou inacabado, como um fantasma de gaveta, feito dois anos antes da morte do entrevistado. O diretor João Moreira Salles, irmão de “Waltinho” Sales, é um dos principais documentaristas brasileiros, autor de “Futebol”, “Notícias de Uma Guerra Particular” (1999/ um filme pioneiro no retrato do domínio das favelas pelos homens do tráfico, focado em Marcinho VP), “Nelson Freire” (2003/ aonde acompanhou o pianista por vários continentes) e “Entreatos”(2004/ um retrato distanciado e criticamente sutil dos meses anteriores à primeira eleição de Lula à presidência.)

Além de entrevistas com Santiago em vários estágios, o diretor havia feito cenas da casa onde morou até os 20 anos. Não sabendo como dar liga ao filme por razões até hoje não suficientemente esclarecidas além do fato de não perceber na época que também era um personagem daquela história e como tal deveria ser incluído, a obra só teve sua retomada 13 anos depois, em 2005. João com a inestimável e preciosa colaboração de Eduardo Escorel como montador acabou dando forma a um dos mais originais documentários já feitos no país, “Santiago” (Brasil/2007).

Além do fato do diretor se colocar como narrador (com a voz delicada de seu irmão Fernando Moreira Salles, para um melhor distanciamento e estranhamento), ele tece autocríticas de forma a colocar em jogo o papel de elite que representa, em um filme que desnuda quem exerce uma forma de poder, no caso um patrão entrevistando seu ex-mordomo ou ainda um diretor com o poder que sempre tem em relação ao seu entrevistado, conforme reconhece João em entrevistas, pois é o senhor da edição e cabe a ele decidir que imagens, no caso de Santiago, escolherá para tornar pública.

Assim, “Santiago” evolui em várias camadas:

1-Uma história da vida intrigante de um ex-mordomo de família plebéia, poliglota, amante das artes plásticas, da música clássica, da ópera, mestre nos arranjos florais e na organização de festas na casa da Gávea, que fantasiava ser um palácio e que sempre sonhou em pertencer à nobreza (ou fantasiava que a ela pertencia), fazendo um inventário da nobreza de todos os tempos incluindo também celebridades como atores de Hollywood, chegando até ao requinte de incluir chefes indígenas, formando calhamaços que atingiram 30000 páginas cujas partes amarrava com fitas que vinham de Paris.

2-A perda da infância e juventude e a descoberta da corrosão do tempo pelo artista João Moreira Salles que tinha a finitude como uma questão metafísica teórica pelos 30 anos e passa depois dos 40 a sentir sua concretude.

3-Os limites do que se chama documentário, o mito da objetividade e ausência de manipulação desnudados, esgarçados e tornados públicos de uma forma doce e impiedosa, sem auto-complacência.

4-etc..etc..etc...

O que torna “Santiago” um filme extraordinário é que, além destas interessantíssimas veredas citadas, aos nos apresentar Santiago e logo depois “Santiago- Reflexões Sobre Material Bruto”, é que o entrevistado é de uma cálida humanidade sem nunca se mostrar esnobe como a princípio esperaríamos e o filme metalingüístico como poucos tem uma exposição cristalina o suficiente para seduzir qualquer platéia (não apenas críticos e cinéfilos) mas mantendo sempre uma aura de mistério, próprio das grandes obras de arte, que só vão ser desvendadas mais a fundo de acordo com a interpretação de cada espectador.

Santiago chega ao requinte de arrumar a gravata refletindo-se no mármore de um túmulo de um cemitério italiano, é exímio tocador de castanholas, faz uma dança das mãos belíssima, escreve textos de enorme força poética em alguns de seus escritos em sua fiel máquina de escrever Remington e faz seu inventário da nobreza mundial, pesquisada com enorme obstinação. Todo seu material foi doado por testamento a João Moreira Salles e este filmou por três dias alguns trechos, trazendo para a tela uma emoção cinematográfica de cunho literário bastante singular.

Para Santiago, Lucrécia Bórgia havia sido injustiçada pela História. Um casal de nobres amantes, morto por um marido anão enciumado, lembrado por Dante num dos círculos do Inferno de “A Divina Comédia”, passa também a ser imortalizado por Santiago. Ao mencionar a elevação aos céus destes personagens, o filme faz uma poética montagem com sacos plásticos esvoaçantes. João nos conta que o mordomo ao ser flagrado tocando piano com fraque respondeu: “É Beethoven...”.

“Santiago” está longe de se esgotar no carisma do ex-mordomo. João Moreira Salles como narrador de suas dúvidas, inquietações e erros com relação ao filme que tentou fazer e agora fez, também se impõe como uma voz bastante sedutora. João se dá conta que à maneira de Ozu, filmou Santiago com planos distantes com câmera baixa. Mas não há aí apenas um ideal estético. Percebe e nos relata que não havia apenas um diretor e seu entrevistado em ação.Sua relação de patrão com seu ex-empregado ainda se fazia sentir. Desta forma João encena seu documentário pedindo que Santiago repita falas e gestos até que tenha a melhor opção para seu filme e este processo nos é mostrado na sua forma obsessiva. Santiago diz que “para o grande cineasta Ingmar Bergman somos como cadáveres insepultos debaixo de um céu vazio e cruel” e isto expressa muito de seu fatalismo, apesar do bom humor que apresenta terminando suas falas com C’est tout.

No documentário vemos João fazendo Santiago repetir esta visão simplista de Bergman várias vezes até se dar por satisfeito como se estivéssemos num filme de ficção e um ator sendo conduzido a uma melhor performance. A intenção e cosmovisão crepuscular de um homem solitário de 80 anos são captadas de forma legítima, mas o diretor não permite que ela se expresse naturalmente. Em entrevistas João afirma que hoje de forma alguma tem esta visão controladora com seus “personagens”. Realmente o que se observa em “Nelson Freire” e “Entreatos” são pessoas à vontade captadas de vários ângulos (Freire na coxia de teatros antes dos aplausos, Lula em conversas desabridas num avião, por exemplo). Claro que aqui estamos ainda muito longe de 100% de objetividade, mas existe esta busca, ainda que sabidamente inalcançável. Em “Santiago” a postura do documentarista é totalmente outra. Conforme declarou João, outros poderiam ter feito seus filmes anteriores, mas “Santiago” não.

Há um momento em que Santiago deseja falar algo muito especial e íntimo. João não liga a câmera. Ouvimos apenas Santiago dizer que pertence a uma “dinastia de malditos”. João lhe diz que isto não e o incita a mudar de assunto. Não é difícil perceber que Santiago tinha vontade de falar sobre sua homossexualidade. Em entrevista à Bravo! de agosto de 2007, João confirma que não deu voz à Santiago neste aspecto pois o queria proteger. Hoje o deixaria falar, pois era esta sua vontade. Mas se este enigma se torna claro, nem porisso o filme deixa de continuar com seus mistérios. Um deles é por que depois do sucesso de “Entreatos” João parece estar mais interessado no projeto da revista mensal Piauí e entra em crise existencial profunda em relação à vida e ao cinema e esta é resolvida em parte retomando este filme que estava inacabado, de uma forma confessional rara em sua carreira e no documentário brasileiro. Deve fazer agora um filme sobre viagens de sua mãe à Ásia. Está cansado de deixar a câmera rodar para ver o que acontece. Há no ar a idéia de filmar os últimos dias do governo Lula, como complemento a “Entreatos”, mas sem grande entusiasmo.

“Santiago” questiona a idéia de que um documentário possa realmente corresponder ao lema “É Tudo Verdade”, filme inacabado de Orson Welles no Brasil que deu origem ao título do prestigiado festival anual de documentários organizado por Amir Labaki. O que é então verdade, o que é mentira num documentário? “Santiago” questiona o status de verdade do que estamos vendo. No arrebatador, impactante, não menos extraordinário “Na Captura dos Friedmans” (2003) de Andrew Jarecki, sobre um pai e filho supostamente pedófilos praticantes, esta questão é levada a paroximos. O filme pouco a pouco nos vai colocando dúvidas atrás de dúvidas solapando nossas certezas que acreditávamos estar construindo.

Para Santiago, que chega a sonhar que era aristocrata na Revolução Francesa, “o mundo poderia desabar” que não haveria problema, pois instalado em seu apartamento vivia do passado. Um vizinho lhe disse que ele estava sendo empalhado ou embalsamado. É assim que se via sendo alvo de um documentário. Seu filme preferido era “A Roda da Fortuna” (1953) de Vincent Minelli. João nesta edição de 2005 inclui cenas deste filme em que Cyd Charisse e Fred Astaire caminham insatisfeitos um com o outro e de repente começam a dançar divinamente. Numa cena captada de “Era Uma Vez em Tóquio” de Ozu, pergunta-se a uma personagem se a vida é uma decepção. Ela responde que sim, mas abre um sorriso. Santiago fez da dança e um leve sorriso sua volta por cima em relação às suas frustrações.

Santiago à sua maneira deu sentido à sua vida com o amor à arte, tentando fazer da vida de mordomo que acompanhava o patrão mundo afora, fazendo pesquisas, uma arte e se Artur Bispo do Rosário era um inventariante das coisas criadas por Deus aqui na Terra, Santiago se propôs um inventário com transcendência muito particular: nobres dos mais variados recantos e tempos. Podemos considerar hoje sua atividade algo inútil e a rigor é. Mas foi aí que ele encontrou o maior sentido para sua vida. Desta forma não só faz João Moreira Salles repensar o sentido da sua própria vida, com o passar do tempo aproximando patrão e empregado na sua fugacidade, como também convida a nós espectadores a meditarmos sobre o sentido que estamos dando às nossas vidas. Que inventário estaremos fazendo para engrandecê-la? Muitos o fazem com bens de consumo os mais variados. Aí a sensação de inutilidade vai se juntar à ausência de qualquer transcendência e poesia.

Santiago era um grande artista “em sua cabeça”, com certeza. Tinha potencial para tal. Apesar de sua cultura não se realizou devidamente na prática, com sua obsessão pelo inventário da nobreza que agora tem valor afetivo para João Moreira Salles, mas dificilmente o terá para historiadores. Ao seu modo nos lembra aspectos do diretor Ed Wood, “o pior cineasta de todos os tempos”, conforme nos é mostrado por Tim Burton em uma de suas obras-primas “Ed Wood” (EUA/1994). Mentalmente tinha vocação e era indubitavelmente amante do cinema. Na prática só o realizava de forma trash, acreditando estar fazendo uma grande obra de arte. Uma seqüência antológica se dá quando Ed se encontra com Orson Welles, “o maior cineasta do mundo”, num bar e os dois bebendo, cúmplices, se irmanam na dor da incompreensão e ausência de recursos para seus projetos. Assim como os dois cineastas, Santiago, João Moreira Salles e nós também “somos todos iguais nesta noite”, numa vida que se faz escura e precisamos desesperadamente dar-lhe substância e sentido. O tempo tende a aplacar nossas arrogâncias e nos iguala. Patrão e empregado, cineasta e entrevistado (e nós) passamos a ser pura efemeridade. Mas podemos fazer poesia deste lado fatal e fugaz da vida, como Santiago fez e João o faz com seus filmes, muito especialmente neste.

O cineasta Mário Peixoto do cultuado e mitológico “Limite” escreveu o romance “O Inútil de Cada Um”. João Cabral de Melo Neto tem os seguintes versos: “Fazer o que seja é inútil./ Não fazer nada é inútil./ Mas entre fazer e não fazer/ mais vale o inútil do fazer”. Com a atitude de um poeta Santiago se propôs “o inútil do fazer” com suas 30000 páginas compilando seus amados nobres e celebridades. Loucura? “Mais louco é quem me diz que não é feliz....”, conforme canta Rita Lee.

Ps1. Atualmente discute-se muito o legado das perversas elites brasileiras (e no adjetivo já está colocada a minha visão...). Mas uma coisa temos de reconhecer: dentre as raríssimas exceções, os grandes cineastas João Moreira Salles e Walter Salles são os melhores frutos desta elite que o Brasil já conheceu nestes 510 anos....Nem tudo está perdido.....

Ps2.Este texto, com correções e acréscimos, foi publicado originalmente no jornal eletrônico Montblãat.

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http://oglobo.globo.com/blogs/arquivos_upload/2007/03/86_2244-Santiago.jpg

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Nelson Rodrigues de Souza

sábado, 24 de julho de 2010

Reflexões Suscitadas Por Um Profeta Alado





O que escrever sobre “Terra em Transe” (Brasil/1967) de Glauber Rocha que não tenha sido já feito? Este é um dos filmes mais estudados do Cinema Mundial sem nenhum exagero. Eis uma tentativa de resumo bem sucinto da história, o que a rigor é impossível, dado a polifonia e o barroquismo da obra:

Num pais latino-americano(Eldorado) o jornalista Paulo Martins( Jardel Filho) está dividido entre a política e a poesia (mas reflete sobre os acontecimentos com intensa poesia) e cindido também, entre a fidelidade a um senador golpista da República, Porfírio Diaz (Paulo Autran) e um governador populista da província de Alecrim, Vieira ( José Lewgoy),única alternativa que ele acaba tendo de uma oposição a Diaz.Ele tem como reflexo de sua consciência atormentada, Sarah( Glauce Rocha ) uma companheira que lhe diz uma frase profética, que também serviria para o solitário Glauber,que morreu precocemente, “Será que a poesia e a política não seriam demais para uma só pessoa?”. Há ainda o empresário da área de comunicações Fuentes (Paulo Gracindo), sem nenhum caráter, que vende sua alma ao sabor dos políticos em alta ou em baixa. É ele quem emprega o dostoieviskiano Paulo Martins, que parece um personagem saído do romance “Os Possessos”, do grande mestre russo. Essa trajetória no subdesenvolvimento de Eldorado levará o jornalista e poeta a um progressivo estiolamento de corpo, mente e alma.

Mas vejamos alguns tópicos aonde reside a grandeza de “Terra em Transe”:

1) Um retrato 3x4 permanente do Brasil e suas contradições gravíssimas até agora insolúveis (infelizmente). Mesmo em 2010.

2) É mais uma demonstração de como a religiosidade pode ser a fortaleza e a fraqueza de um povo.

3) Uma trilha sonora que vai de cantos religiosos afros a clássicos de Villa Lobos, Carlos Gomes, Verdi, que é aliciante.

4) Uma estrutura narrativa em flashbacks cada vez mais elucidadores, mas intrigantes.

5) Uma direção de magníficos atores primorosa,com destaque para Jardel ,Autran ,Glauce e Lewgoy.

6)Como nos melhores Polanskis, não há um coadjuvante que não tenha o seu momento expressivo (seja Hugo Carvana, Flávio Migliaccio, Paulo César Pereio, Zózimo Bulbul, Maurícío do Valle, Jofre Soares, Telma Reston, Mário Lago, Francisco Milani, etc...).Até mesmo Danuza Leão e Clovis Bornay (que não são atores) estão muito bem aproveitados, com olhares perdidos ou incisivos respectivamente.

7) A seqüência emblemática em que um homem do povo ( vivido por Flávio M.) tem sua boca tampada pelo intelectual Paulo Martins. É importante ressaltar que no meteórico programa que teve na televisão, Glauber era obcecado em dar voz aos “homens sem importância...”

8) A operística procissão-caravana-comício de Diaz segurando um alentado crucifixo, que nos remete,dentre outras imagens, ao Costa e Silva e seu nefando AI-5, uma foto dele com a cruz com Cristo ao fundo (capa de “O Cinema Dilacerado” de José Carlos Avellar).

9) O tom operístico de todo o filme, mesmo quando populares preenchem os esplêndidos planos, algo que ressalta a distância entre elites&intelectuais e povo.

10) O discurso narrativo poético de Paulo Martins que é embasbacador, mesmo quando não se apóia em Mário Faustino, fazendo com que o roteiro do filme seja uma premente edição a ser feita, tal o valor literário envolvido, prescindindo da concretização em imagens e sons.

11)O filme tem um olhar não complacente com os excluídos brasileiros, mostrando sua altas-sabotagens, a teia de destinos em que caem, sendo massa de manobra de oportunistas, mas não deixa de ter carinho, ternura por eles (ao contrário de um “Dezesseis Zero Secenta de Vinícicus Mainard, com roteiro do irmão Diogo ).

12) É a obra-prima dentre as obras primas do Cinema Brasileiro. Do que conheço nada antes, nada depois tem a mesma envergadura (nem mesmo “Deus e o Diabo na Terra do Sol” ou “Memórias do Cárcere” para ficarmos só com dois exemplos de excepcional qualidade do Cinema Nacional). O filme está para a História do C.B. assim como “Grande Sertões:Veredas” de Guimarães Rosa para a História.da Literatura Brasileira, um marco provavelmente inexcedível.

13) Paulo Emílio Salles Gomes escreveu que “Glauber é um profeta alado e aos profetas cabe profetizar e não acertar...” Ele errou!!!Glauber profetizou nosso caos contemporâneo e acertou em cheio: o filme visto hoje é ainda assombrosamente atualíssimo (mais uma vez friso, infelizmente; seria melhor e reconfortante para todos que o filme estivesse datado....).

14) A rigor a questão levantada no início do texto não é pertinente; temos aqui uma obra de arte de múltiplas leituras,que não se esgotam em sucessivas revisões.Com os estudos agora possíveis de computador, plano a plano, os trabalhos permitidos são infinitos....Mas ressaltemos: o lugar certo de “Terra em Transe” é num cinema como o Unibanco Arteplex, em 35mm,cópia restaurada.

!5)O filme se vale de godardismos sem excessos. O mais evidente é o poema síntese de Mauro Faustino, impresso na tela sobre o corpo de Paulo Martins: “Não conseguiu firmar o nobre pacto/ entre o cosmo sangrento e a alma pura/ Gladiador defunto, mas intacto/(Tanta violência, mas tanta ternura)”

16) Glauber não aponta apenas para mazelas endógenas mas também para conluios elites&imperialismo da Spinkler&interesses espúrios.

17) Os ecos de “Terra em Transe” em outros cineastas são enormes. Nos fixemos em alguns: “Os Herdeiros” de Carlos Diegues; “Toda Nudez Será Castiga”,”O Casamento”,”Tudo Bem “ de Arnaldo Jabor (todos, de estilo operístico poderiam fazer parte de uma trilogia de Jabor “Almas em Transe); “Prata Palomares “ de André Farias (filme não bem sucedido); “Romance” de Sérgio Bianchi (uma obra-prima retocável, imperfeita, impura, crua que bebe tanto em Glauber e seu Eldorado como no Cidadão Kane de Orson Wells); “Redentor” de Cláudio Torres (um clima glauberiano perpassa todo o filme, não por acaso bastante operístico), etc....Até mesmo “O Bandido da Luz Vermelha” de Rogério Sganzerla”, filme de uma geração que sentia a necessidade freudiana de “matar o pai do cinema novo” para respirar novos ares, exala Glauber por vários de seus poros-celulóide. Entretanto ao contrário do que afirma com leviandade Reinaldo Azevedo em ensaio da Bravo!(nº 86), fazendo tabula rasa de todo o cinema da chamada Retomada do C.B, Glauber e suas alegorias sobre o Brasil e a América latina não podem ser tomadas como modelo pra nenhum cineasta novo. Glauber é único, inimitável, irreproduzível. Há o caso de “Pindorama” de Jabor, muito mal recebido por público e crítica sobre o qual Orlando Fassoni escreveu na “Folha de S.Paulo”: ”se alegoria matasse ninguém sairia vivo da sala de cinema....” A ensaísta Leila Perrone-Moisés afirmou certa vez que todos que pretendessem ser escritores deveriam ler “Grande Sertão:Veredas” de Guimarães Rosa, para entenderem o nível que a Literatura Brasileira já atingiu! (sic!). Se os incautos escritores e cineastas potenciais fossem seguir essas “dicas” de Leila e Reinaldo emudeceriam como a atriz de Persona de Ingmar Bergman (mais uma performance magnificente de Liv Ullman, num filme nada glauberiano mas nem porisso inferior (muito pelo contrário)....Coisas do “Infinito Cinema”, livro do crítico Ely Azeredo, que com sua genorisadade e humildade lembra Akira Kurosawa afirmando no fim da vida que “a essência do cinema ainda me escapa....”. Alguns críticos e ensaístas se julgam donos dessa essência....Por fim vale lembrar que mesmo reconhecendo toda a magnitude da obra de Glauber, Hugo Carvana preocupado em fazer suas comédias urbanas (que gerou os adoráveis “Vai Trabalhar Vagabundo” e “Bar Esperança: O Último que Fecha”) cansado das patrulhas estéticas desabafou: “É preciso sepultar esse cadáver de vez”. Se não foi exatamente isso, o teor está correto. Reinaldo e sua cruzada que Glauber hoje vivo, não aprovaria, provalmente, quer tapar a boca dos novos cineastas assim como Paulo faz com o homem do povo...

18) Há um político assaz demagogo que dança, às vezes literalmente, conforme a música, sambando de forma desajeitada e grotesca pra impressionar a rapaziada, canditado a formar seus eleitores..........que tem os trejeitos do inefável ex-presidente Severino, morte e morte de nossa Câmara dos Deputados.

19) etc, ...etc....etc...etc....etc....etc...etc...

Com relação a Paulo Martins e Glauber pode-se escrever o texto que Glauber Rocha colocou em Di-Glauber (um filme bestialmente proibido pela família de Di Cavalcanti): ”Ninguém assistiu ao formidável enterro da sua última quimera. Somente a solidão, essa pantera, foi sua companheira inseparável”.

Ainda vale lembrar uma teoria minha: nenhum artista amou tanto seu povo quanto Glauber, mas sem o menor vestígio de demagogia: daí o seu fim precoce, sua vida errática e labiríntica. Numa perspectiva de sua obra toda, os filmes feitos no Brasil são superiores aos feitos fora. O exílio não lhe fez bem (ao contrário de um Cortázar, um Gabriel Cabreira Infante, etc..). Numa retrospectiva razoável de sua obra quando o São Luís ainda era duas salas, amei os Glaubers feitos no Brasil e me entediei com os Glaubers estrangeiros. Mas em se tratando de Glauber, revisões sempre nos trarão novas surpresas.

PS. Este texto, com algumas correções e acréscimos, foi escrito em maio de 2005, por ocasião da inauguração do Arteplex RJ, onde um dos filmes exibidos era “Terra em Transe”. Por que este cinema não continua sistematicamente exibindo clássicos restaurados do cinema brasileiro em uma de suas salas, o que fez com “Macunaíma” também?

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Nelson Rodrigues de Souza

sexta-feira, 23 de julho de 2010

"A Doce Mulher Armada"- Um conto ( um filme?)




A Doce Mulher Armada

- Quando quebrei meu cartão magnético da conta corrente e passei a ansiar pela reposição, não imaginava as agruras que enfrentaria. Tendo trabalhado exaustivamente na sexta-feira, só à noitinha em casa é que me dei conta de que estava sem nenhum tostão para passar o fim de semana. É para eventualidades como essas que abri uma conta no banco do Aeroporto Santos Dumont, dado que aquela agência fica aberta até dez horas da noite. Peguei um táxi e para lá me dirigi antes que soasse as dez badaladas. Abasteci-me o suficiente de grana, entrei na interminável fila de táxi (o danado que me levou não quis esperar-me) e depois de algum tempo mofando (como é movimentada esta ponte-aérea!) consegui a tão sonhada condução. Entrei, dei o meu destino (Rua Benjamin Constant, Glória) e o que escuto?

Minha senhora eu não esperei tanto nesta fila de táxi para ir só à Glória.Tem de ser uma corrida pelo menos até Botafogo. Eu não posso...

- Eu não me intimidei: Olha aqui meu senhor, eu esperei bastante e tenho o direito de ser levada aonde desejar! Nestes tempos bicudos atuais deveriam é agradecer-nos por pegarmos táxi ainda! Ele argumentou:

Mas a senhora, já que era para ir tão perto, poderia ter pegado um táxi fora da fila. Os guardas quebrariam esse galho.” Eu rebati:

Por favor, vamos! Estou perdendo tempo!”

-E o motorista pôs o pé no acelerador e disparou cidade adentro, cortando tudo quanto era automóvel, brecando bruscamente nos sinais, deixando-me como que paralisada de medo com o que poderia acontecer. Eu pedi encarecidamente para que ele andasse devagar, com segurança, mas ele permaneceu irredutível. A sua cara amarrada não dizia uma só palavra. Estava como que determinado a matar-nos num acidente estúpido qualquer, por vingança. Se ele não tem amor à vida, eu tenho!Eu gritava a não mais poder. Cheguei até a sacudí-lo, dar-lhe um tapa no rosto para ver se acordava de sua insanidade e nada!Ele dirigiu com mais pressa ainda!Tirei o revólver da bolsa, ameacei-o e ele gritou que eu não fosse louca, que aí é que iríamos os dois mesmo para o beleléu. Foi então que não sei como a arma disparou.

- Como assim minha senhora, quer dizer que foi um disparo acidental?

- Eu juro inspetor, só queria assustá-lo! Eu não sabia aonde aquela louca corrida (sentia-me num autódromo!) iria nos levar! Eu pressentia o pior.

- E assim a senhora acertou o motorista de um carro que trafegava ao lado!

- Sim foi horrível! Eu jamais esquecerei aquela cena: o carro desgovernado batendo no poste, capotando. O motorista jogado, todo ensangüentado e estatelado no chão!

- Então?

- Só assim esse maldito aqui parou o táxi! Começou então a gritar comigo que eu era louca!Mas veja só... Se a culpa é toda dele!...

- Inspetor, eu fiquei quieto até agora nesta delegacia, mas eu não posso me calar mais não. Eu disse e repito: esta senhora é uma louca! Eu não estava correndo coisa nenhuma! Simplesmente naquela hora da noite o trânsito estava folgado e eu pude me movimentar com maior facilidade. Era uma corrida normal. Como uma louca dessas anda armada?

- É mentira! Ele fez das ruas uma corrida de Fórmula1. Devia estar pensando que estava em Monza, Interlagos, Monte Carlo e não no centro do Rio de Janeiro. Estava é querendo matar-me de susto ou num acidente mesmo!... Por favor, inspetor, esses gritos lá de dentro estão atrapalhando... Deixam-me mais nervosa ainda!

- Deixe isso pra lá minha senhora. Eu quero é saber por que é que a senhora conseguiu porte de arma?

- Inspetor, eu não gostaria de lembrar essa história aqui, mas vejo que serei obrigada.

- Ótimo, minha senhora...

- Depois que me separei do Augusto, eu não tive mais sossego. Foi uma separação muito dolorosa, nada amigável. Ele não queria pagar-me a pensão a que tinha direito. Chegou até a ameaçar bater-me, matar-me. A justiça concedeu-me o que tinha direito e ele passou a perseguir-me, ligava de madrugada lá pra casa, eu atendia e ninguém respondia. Várias vezes! Várias vezes! Eu tenho certeza que era ele! Eu não tinha mais sossego, sozinha naquela casa! Mas esses gritos continuam. Assim, eu não consigo falar inspetor..

- Deixa isso pra lá minha senhora! Continue...

- Com a ajuda de meu advogado eu consegui um porte de armas. E eu precisava defender-me. Além da ameaça eterna do Augusto, tem os assaltos. Já me roubaram três vezes. Assaltaram a casa do vizinho. Levaram tudo! Eu tenho de deixar as minhas jóias todas, escondidas no cofre do banco! Eu já não posso usar nem uma correntinha de ouro!

- É minha senhora!Você e seu vizinho, aliás, a população toda desta cidade está sendo vítima dos direitos humanos!Depois que os jornais publicaram aquela foto sensacionalista de um grupo de marginais negros atados por uma corda, igualzinho aos negros escravos, nos proibiram de dar batidas como se deve dar nos morros e agora já não se consegue prender muitos ladrões e traficantes que ficam impunes. Só uns privilegiados têm o direito a ações.

- O senhor veja bem então inspetor. Eu não sou nenhuma louca que andava armada não. Eu tenho as minhas reais necessidades de portar armas. Desculpe-me a franqueza, mas a policia não tem mais dado conta desses marginais...

- Não deixam nós darmos conta minha senhora. É diferente.

- Tudo bem inspetor, ela tem lá suas razões para andar armada, mas eu não tenho nada com isso. Eu estava apenas trabalhando. Eu reclamei que a corrida era pequena, mas não recusei a levá-la. Só que ela é muito afobada, nervosa!

- Por que o senhor não parou quando eu pedi?

- Eu achei um desaforo a senhora duvidar da minha perícia como motorista. Eu tenho anos na praça e nunca me aconteceu nada!... Esses gritos... Esse ambiente está insuportável...

- Quer dizer então que o senhor não estava correndo. Foi só uma impressão, uma auto-sugestão desta senhora?

- Foi isso mesmo!

- Este homem está mentindo!

- Pois bem. A senhora espere um pouquinho aqui que eu e ele vamos lá dentro conversar com o Olegário.

- O que o senhor pretende comigo?

- Venha!Nada de perguntas. Quem pergunta aqui somos nós!

- Por favor, eu tenho família! Vocês não podem fazer isso comigo! Eu sou inocente!

- Então o senhor não tem nada a temer. Vamos!

- Por favor, não!

- Vamos senão seremos obrigados a arrastá-lo.

- Está bem, eu confesso! Não precisa me levar lá dentro não. Eu só queria assustá-la um pouquinho. Eu estava tomando o máximo de cuidado. Apenas queria castigá-la um pouco pela sua arrogância. Só isso, nada mais. Eu não sabia...eu não poderia esperar que tudo isso fosse acontecer!

- Está vendo minha senhora, como é que se trabalha?

- Vocês não podem me culpar por tudo que aconteceu. Eu trabalho que nem louco o dia inteiro. Chega de noite minha cabeça está estourando e ainda por cima tenho de ouvir essas insolências. Eu estava apenas com muita raiva!

- Bem inspetor, o senhor agora já tem todos os elementos que configuram a minha inocência! Eu agi em legítima defesa como qualquer pessoa sensata faria! Eu gostaria de ir embora agora daqui. Estou muito cansada. Desde que passei cinco horas em frente ao Dakota em Nova York pra ver a Lauren Bacall que eu não me cansava desta maneira!Sou muito grata pela atenção e eficiência demonstrada.

- Espere só um momentinho minha senhora, tem de assinar alguns papéis.

- E eu inspetor?

- Eu não gostaria de estar na sua pele. Bem o senhor aí no canto, é o irmão da vítima, não? Aproxime-se. O senhor teria algo a acrescentar?

- Por favor, o senhor é minha única testemunha. Eu não causei a morte de seu irmão coisa nenhuma! O senhor tem de me ajudar. Eu fui obrigado a mentir, fui coagido! Fiquei com medo do que poderia me acontecer lá dentro! Eu estava andando depressa, mas não estava correndo!...

- Como?

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Nelson Rodrigues de Souza

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Um Pouco de Minimalismo Não Faz Mal a Ninguém




Economia, esta paralisia da Filosofia diante das questões menores da existência.

Escrevo, logo existo.

Amor é a ausência de estratégias nas relações humanas.

Enquanto os pobres vão de van, os ricos vão ao divã.

Tédio, resultado do assédio do tempo sobre os sonhos.

Viver é a arte de administrar o cobertor curto da existência. Se nos descuidarmos por um lado, sentimos um frio na alma por outro.

Cada um sabe o quanto lhe dói o "eu me calo".

Não confundir Ághata Christie com A Gata Triste.

Para o bem e para o mal da minha saúde física e mental, eu sou um brasileiro com memória.

Deus é um fogo. Um fogo que não se vê. Sentimos sua fumaça. E onde há fumaça há fogo, sabemos todos.

Eu não sou filha da puta por convicção, por escolha. Se quisesse seria um grande filha da puta. E você?

Deus é bom. Deus não é bonzinho.

Não suporto nem a neurose da bolsa de valores de Wall Street, nem ver indianos se banhando no Ganges onde boiam restos de cadáveres.

Minha desilusão com a Filosofia, assumindo minhas incapacidades veio quando li "Com Habermas aprendemos que Marx lia Hegel com olhos de Kant"

Quando o muro de Berlim caiu esqueceram-se de nos alertar que a vergonha estava dos dois lados.

A publicidade é a arma do negócio.

Tem certas coisas que a gente lê nos jornais em que pensamos: das duas uma. Ou o governo é muito fdp ou a imprensa é que é muito fdp.

A política no Brasil seria um caso de polícia se esta não fosse um descaso da política.

Do jeito que anda as coisas no mundo, toda a História da Filosofia está se transformando em "preciso fazer do limão uma limonada”.

Está certo que a pressa é inimiga da perfeição, mas a perfeição é inimiga da realização.

Paranóia, esse espetáculo da memória que programa a verdade vinte e quatro vezes por segundo.

Uma dúvida atroz: haverá espaço na Terra para construção de um monumento aos mortos de uma terceira guerra mundial?

Quando aquele estudante chegou ao ítem que versava sobre pleonasmos, ele riu-se por dentro: lembrou-se de “ de um povo heróico o brado retumbante”. Herói cobrado? Mas seu regojizo transformou-se logo em indignação. Na gramática que estudava deparou-se com a seguinte advertência: “Revela mediocridade de espírito a procura de vícios de linguagem em autores consagrados”.

E como já havia um bom tempo que havia chegado ao purgatório e ainda nem sinal de paraíso, indignou-se: “Caramba, eu sabia! Nem céu, nem inferno! Tinha de existir só o mais monótono!”

Ele fez o possível e o impossível para mudar de vida e o que arrumou foram dí-vi-das.

Tempos Modernos: “Uma coca é uma coca é uma coca é uma coca”- Gertrude Stein atualizada.

E o diretor de marketing da gravadora telefonou para o ex-crítico de rock, agora de música clássica e contou-lhe o problema que tinha com determinados CDs de clássicos que estavam encalhando demais no mercado. Conversa vai, conversa vem, surge a brilhante idéia: o crítico escreveria em sua seção sobre “Estudos recentes de musicoterapia” e recomendaria então os incompreendidos clássicos para ansiedade e depressão...Um santo remédio ( para a gravadora, bem entendido....)

Ari Barroso causou estranheza em alguns ouvintes quando cometeu a audácia poética: “Esse coqueiro que dá coco” na sua Aquarela do Brasil. Ora, o que se deveria estranhar é sua canção se referir ao nosso país. Ele deveria estar falando de outro país. Aquele que a gente conhece é o caso típico de um coqueiro que tinha tudo para dar coco, mas não dá!....

Deus, mostre Seu poder e me faça ter fé em Você! Se eu não conseguir posso concluir que Você não existe?

Problemas de computador: Kafka tecnologizado.

Quando vai haver uma reforma dos que tem poder para fazer uma reforma ortográfica?

A vida é um quebra-cabeça em que as peças se encaixam literalmente no fim.

E o diretor de vanguarda advertiu o ator indisciplinado durante os ensaios: “Se você continuar com esta colocação de voz, esta marcação, estes gestos, as pessoas vão acabar entendendo o que você quer dizer...”

Sim eu tenho fé. Mas alguém pode perguntar: “Só isso? Fé em que?” E eu só posso responder: “Se eu soubesse não seria fé, seria certeza...”

Ao chegar ao Teatro me deparo com ingressos esgotados. Sou abordado por um cambista. Hesito. Afinal não posso incentivar uma atividade dessas. O olhar dele é insistente, suplicante e num rasgo de generosidade dou-lhe ouvidos. “É na platéia, bem no centro?” É. Compro o ingresso. E agora me torturo: “Não é que a generosidade e o oportunismo podem vir de mãos dadas?

O amai-vos uns aos outros se transformou em armai-vos uns e outros.

Com muita presença de espírito eles adentraram aquela casa mal-assombrada.

Educação/Essa lição/Que os pais nos dão/E o país desmente

"Acabaram-se as ideologias". Ora, mas isto não é uma ideologia?

"Cada um cuida de si que a mão invisível do mercado cuida de todos"- Adam Smith. Desculpem-me a sinceridade, mas só sendo muito mal-intencionado e/ou idiota para acreditar nisto.

Quando se deu conta de que por mais que planejasse sua vida, estudando, trabalhando, ganhando bem, com mulher e filhos adoráveis e saudáveis que o amavam ( e ele os amava também), etc..., sua felicidade ainda dependeria de mil fatores imponderáveis, começou a pensar em Deus.

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Nelson Rodrigues de Souza

"Estamira” de Marcos Prado / Grande Lixão: Veredas de Estamira




Grande Lixão: Veredas de Estamira

Quando Marcos Prado, fotógrafo, co-produtor de “Os Carvoeiros” de Nigel Noble e “Ônibus 174” de José Padilha, fazia um trabalho fotográfico no aterro sanitário do Jardim Gramacho de Duque de Caxias, conheceu Estamira, uma mulher com 63 anos que há 20 sobrevivia da economia informal possível e terrível deste lixão, junto a outros catadores de lixo. Ao tomar-se de uma forte empatia por ela que dizia “a sua missão é revelar a minha missão”, Marcos resolveu realizar um documentário, “Estamira” (Brasil/2004), fruto de uma síntese de seu acompanhamento por quatro anos (de 2000 a 2004) desta mulher fabulosa, em seu dia a dia no trabalho, suas relações familiares e principalmente suas reflexões de alto teor poético, filosófico, com um messianismo sem um Deus de crenças cristalizadas, um xamanismo encharcado de agressividade, imprecações, sabedoria por vias transversas e de momentos de ternura.

Estamira de forma alguma pode ser tido como louca. Um diagnóstico possível para seu distúrbio mental seria esquizofrenia. Mas qualquer rótulo médico é insuficiente para explicar-nos o mistério da fertilidade e criatividade de sua mente, seu trabalho lingüístico muitas vezes de fascinante e espantosa elaboração. Há nela uma lucidez extrema de sua condição. Até mesmo quando toma remédios em que fica profundamente dopada, descreve em detalhes as conseqüências do que lhe prescreveram. Ela trabalha regularmente, tem falas de desconcertante saber e é muito forte psicologicamente como veremos adiante.

Há uma primeira parte em que tomamos conhecimento de Estamira em seu estado bruto: sua ida ao trabalho pegando ônibus, a sua chegada ao lixão, seu ato de vestir um uniforme e depois suas falas permeadas de jóias como “A minha missão, além de ser a Estamira, é mostrar a verdade e capturar a mentira”; “Às vezes é só resto. Mas às vezes também vem descuido” (o que nos lembra Adélia Prado, Manoel de Barros ou até o Riobaldo de “Grande Sertão:Veredas”); “A criação é toda abstrata. A água é abstrata. O fogo é abstrato”, A Estamira também é abstrata”; “Não existe o inocente, o que existe é o esperto-ao-contrário”; “Eu sou Estamira, eu sou a beira, eu estou lá, eu estou em todo e qualquer lugar”. Também nos é mostrado sua vida social com os colegas deste árduo ofício limite para sobrevivência, suas virulentas e intempestivas investidas verbais, principalmente contra o que chama de “Trocadilo”, uma entidade que seria responsável por suas desgraças e a dos outros. Numa primeira visão o diretor pensou em tirar seqüências muito pesadas, mas depois desistiu pois tinha de mostrar Estamira por inteiro, sem retoques, para o espectador, não mitificando-a.

O filme alterna preto e branco granulado (o que cria um universo aterrador de urubus bem pretos e garças brancas em fortes contrastes, em competição com seres humanos pelos bens possíveis) com cores que surgem tanto no lixão como no barraco que Estamira construiu em Campo Grande, no terreno que comprou com o dinheiro que ganhou com a venda dos restos colhidos. Como já tem sido hábito no Cinema Brasileiro da chamada retomada, há quem acuse o diretor de estetizar a miséria ( a famigerada idéia que não se sustenta de “cosmética da fome” para filmes tão variados em suas propostas), mas a fotografia do filme, também de Marcos Prado é também extraordinária e fruto tanto do conhecimento dele na área, do qual não há porque se desfazer, conforme já afirmou e do tema do filme que exige este trabalho estético apurado, pois seria insuportável mais de duas horas com esta temática e ambiência de uma forma exasperadamente crua e que quisesse se mostrar fortemente tosca para acompanhar a desolação da paisagem e das condições humanas destes seres. Em festivais tem havido debandadas mesmo com toda esta força estética. Segundo Marcos é “uma seleção natural”. Como o grande mestre Sebastião Salgado, ele sabe mostrar beleza, enquadrando flagrantes com perfeição, aonde só enxergaríamos um mórbido horror no caso de um artista sem talento.

Apresentada a protagonista deste documentário fabuloso, aos poucos vamos montando um mosaico de seus dados biográficos, além da continuidade de suas falas, suas inquietações no lixão e entendendo melhor, sem explicações definitivas, o que a levou a este estado. Quando criança o avô tentou seviciá-la. Aos 13 anos o pai a colocou num bordel. Um homem a tirou de lá aos 17 anos e se casaram, tendo ela um filho, indo morar em Brasília. Num segundo casamento com um italiano mais velho, veio morar no Rio de Janeiro, teve uma filha e padeceu das mesmas infidelidades ostensivas que teve antes, sendo que o último marido chegou a trazer uma amante para morar com ela. Numa briga, o marido a expulsou com os filhos. Como se o calvário de Estamira não tivesse fim ainda teve de lidar com a doença mental da mãe, a quem internou no Engenho de Dentro e quando a retirou de lá já não havia mais recuperação, o que fez Estamira sentir-se bastante culpada e passar a ter horror de qualquer instituição manicomial. Seu filho tentou interná-la num hospício, mas diante das condições atrozes em que viu a mãe, a filha a tirou dali. Esta sabendo do que a mãe sentia em relação ao que fez com a avó, não concordava com a idéia deste internamento. Tentou sim tirá-la do trabalho no lixão, arrumando-lhe um emprego. A mãe foi duas vezes estuprada e voltou ao trabalho anterior onde só tinha amigos.

Sem entender, nem cogitar a noção de karma, o que ninguém quis impor-lhe desta forma, Estamira revolta-se com toda força contra a idéia de Deus que os que a cercam querem lhe incutir. O neto pergunta-lhe porque ela não gosta de Deus e ela se transtorna e vocifera suas convicções de que ele está equivocado, comentando de forma pesada como essas idéias teriam chegado à cabeça do menino. Em outra oportunidade o filho insiste em falar em Deus, ela lembra sem papas na língua que a casa foi construída com seu esforço e que deve ser respeitada. Chega a expulsar o filho com um trato poderoso e original de uma expressão chula e corriqueira, que na ira santa de Estamira se torna contundente: “Vá tomar no cu da sua desgraça”.

Estamira diz: "Perversa eu não sou, mas ruim eu sou" e "Já tive dó de Jesus e de escravo". O Deus de que lhe fala o filho não evitou as desgraças por quais passou. Assim não há porque reverenciá-lo. Mas paradoxalmente sua veemente condenação de um Deus burocratizado que querem que aceite passivamente a faz a ser dotada de uma aura mítica poderosa, ser uma criatura plena de tragicidade e transformadora do profano em sagrado, mas sem deixar de ser bastante humana. Para o que passou e está vivendo não há espaço para se comover com a crucificação de Cristo nem com a dor dos escravos.

Se há momentos em que Marcos Prado nos mostra Estamira falando com suas peculiaridades e familiares estranhezas, outros em que há seu rosto ou outras cenas com sua voz em off, há também algumas seqüências silenciosas em que nos defrontamos com Esmira solitária na agudeza de seu sofrimento. Ou seja, Prado por mais que se encante pelos sortilégios verbais dessa divina bruxa, não deixa de enxergar e nos mostrar sua plena humanidade, feita de carne e sangue, conforme ela gosta de enfatizar. Os seres encarnados são “os visíveis”. Há um filho que morreu, ”invisível” que estaria mais próximo dela.

Um dos achados mais surpreendentes de Estamira é a idéia de que o ensino oficial é cópia. Seu netinho estaria livre deste mal, pois não tendo ido ainda à escola não era uma cópia. Já a médica, alguém que não julgava ser uma má pessoa, mas deu-lhe remédios que abomina e marcou-lhe uma próxima consulta só dali a 40 dias, era uma cópia. Com muita argúcia Estamira denuncia um ensino que quer formar mecanicamente classes dominantes e não se envolver com um aprendizado genuíno propriamente dito. Ela chega ao requinte de mostrar sua visão particular do comunismo, o qual não seria uma mera uniformização das pessoas como também comenta que a Princesa Isabel libertou os escravos, mas jogou-os ao mundo, sem lhes dar trabalho.

Quando vemos imagens de um manicômio onde as pessoas estão jogadas pelo chão e contrastamos estas cenas com as do lixão, entendemos melhor o quanto há de nobre e heróico na resistência de Estamira em seu trabalho. Aquilo ali não lhe traz apenas seu sustento. É também uma forma de terapia. É a salvação possível que encontrou onde não vive de forma autista e desenvolve laços de amizade. É um micro-cosmos onde é soberana, compartilha seu reino e de onde extrai dignidade como principal elemento.

O filho de Estamira freqüenta a Igreja Adventista do Sétimo Dia. Num relato tranqüilo, mas bastante incômodo, diz que a mãe não tem simplesmente problemas de ordem psiquiátrica, mas sim que está possuída pelo demônio. Diz que reza muito para Deus e que se Ele perdoar a mãe, voltará a visitá-la. Se realmente há o que se pode chamar de loucura neste filme está nesta atitude do filho ao querer este aval divino para o exercício da generosidade e afetividade filial.

Estamira teve uma filha que chegou a levar pequena para trabalho no lixão. O filho promove uma adoção para a pequena irmã, com a futura madrasta fingindo ser uma assistente social para que a mãe se dobre a esta situação. A jovem crescida visita a mãe, recebe carinhos dela e lamenta que não tenha podido ser criada por Estamira. Sabe que não consegue mais deixar a madrasta, mas questiona se foi realmente acertada a idéia de ter sido afastada dali. São estas encruzilhadas afetivas que dão certa razão ao canto de Estamira que parodia uma canção popular: “Eu hoje estou tão triste, eu queria tanto falar com o capeta”.

Quando Estamira sente dor no corpo afirma que está sentindo “um controle remoto”. De onde virá este controle? Do “Trocadilo” do qual tanto fala? Para ela, numa de suas veredas de seu pensamento mágico, com constantes ecos de Riobaldo de Guimarães Rosa, “Tudo que é imaginário,existe, é, tem”. A pedido dela (conforme declarou o diretor e assistimos num trecho do site do filme), com mais imagens surpreendentes, temos o encontro destas duas grandes forças da natureza: um mar bastante revolto e Estamira.

Responsável pela co-produção de um dos melhores documentários da História do Cinema Brasileiro que é o impressionante “Ônibus 174”, de José Padilha, “uma outra janela aberta para onde as pessoas não querem mais olhar”( expressão muito feliz manifesta pelo cineasta Tim Robbins sobre o cinema que gosta de fazer), Marcos Prado agora reinscreve seu nome neste gênero dentro desta História, com este filme extraordinário que é “Estamira”, que já recebeu até agora 25 prêmios em festivais nacionais e internacionais. Em muitos momentos é difícil de assistir? Sim. Muitas vezes doloroso? Sim. Mas é uma obra impossível de esquecer. “Estamira” não é apenas Cinema. É uma grande experiência de vida. É um choque de civilizações: a dela, sem hipocrisias e a nossa, que somos “espertos-ao-contrário”.


Ps1. A cidade do Rio de Janeiro há algumas semanas está tomada por anúncios de “Estamira” das mais variadas formas. Perfeito! Não há porque ser inocente num mundo de hegemonia do marketing ostensivo. Quando lançado na sexta-feira 28 de julho, passou a ocupar apenas 4 cinemas na cidade, sendo que na Zona Sul está em apenas três horários do Arteplex 5 e dois do Instituto Moreira Sales. Este descompasso gritante também é uma forma de desgoverno e ainda há aqueles que ao assistirem o filme julguem que “Estamira” é que é uma das loucas de nossa sociedade....

Ps2. De acordo com entrevista ao O Globo de 27 de julho de 2006, numa matéria de Suzana Velasco, quando Estamira viu o filme, considerou sua missão cumprida. O diretor a sustenta e paga seus tratamentos num médico particular, agora adequados, a pedido dela, aonde ela vai semanalmente. Hoje os arroubos e arrebatamentos, sua criatividade diminuíram. Assim se manifesta o diretor: “Mas, se ela quer e busca estes remédios, é ela quem sabe. Será que ela não era mais feliz gritando no lixão? Não sei. Tem de perguntar para ela.”

Ps3- Este texto foi publicado originariamente no jornal Montblãat em 2006, tendo sido feitas algumas modificações

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Nelson Rodrigues de Souza