domingo, 8 de março de 2009

A Astúcia Maior do Demônio em nos Fazer Crer Que Ele Não Existe


Em 1974 eclodiu nos EUA o escândalo Watergate, onde no Edifício do mesmo nome em Washington, na sede do Comitê Nacional do Partido Democrata, ex-agentes da CIA, numa invasão mal-sucedida, tentaram fazer espionagens, obter documentos, para depois comprometer democratas. Richard Nixon foi o mentor desta gravíssima transgressão e tentou desobstruir na justiça o julgamento dos responsáveis. Curiosamente não queimou fitas que o incriminavam. O caso foi mais aprofundado pelos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein (vividos por Robert Redford e Dustin Hoffman no eletrizante “Todos os Homens do Presidente” de Alan Pakula) que contaram com um informante fundamental, Garganta Profunda, de identidade só há pouco tempo revelada (era um ex-membro do FBI). Nixon renunciou sem assumir a culpa para não sofrer impeachment e acabou por ser perdoado/anistiado pelo próximo presidente Gerald Ford, o que fez que não sofresse merecido processo na Justiça americana. Durante três anos Nixon se isolou e não deu entrevistas.

Em “Frost/Nixon” (EUA/2008) de Ron Roward, capta-se o momento em que em 1977 o apresentador de televisão inglês David Frost ( Michael Sheen, o Tony Blair de “A Rainha” de Stephen Frears), que estava no limbo fazendo programas vulgares na Austrália, tem uma idéia que lhe ressoa como salvífica na profissão em decadência e de fato é: entrevistar Nixon ( Frank Langella) e obter dele as confissões públicas que não fez em relação ao caso Watergate.

Frost usa seu próprio dinheiro e de alguns poucos patrocinadores, passa a ter como assessores Bob (Oliver Platt) e James Reston Jr.(Sam Rockweel ), este mais impulsivo pois fica encantado com a idéia de fazer Nixon ter o julgamento que nunca recebeu. O plano do grupo é gravar horas de entrevistas, obter confissões definitivas para depois vender para transmissão em várias redes, que de início não quiseram se envolver com esta epopéia particular.

Nixon acata a sugestão de um assessor e aceita a oferta de Frost para as entrevistas, pois além da oportunidade de ganhar 600 mil dólares mais 10% dos lucros de transmissão, terá sua grande chance de reconstruir sua imagem junto ao publico americano. Jack (Kevin Bacon) é o assessor que melhor cuida de Nixon no plano tático, chegando até a um gesto extremo na defesa do patrão. Quatro entrevistas são realizadas com altos e baixos, como se fossem uma luta de boxe, onde volta e meia Frost e Nixon recorrem aos seus assessores para melhor redimensionarem as suas estratégias. O que está em jogo mais do que tudo, como em muitos casos da sociedade americana, é um circo midiático. Mais do que a verdade procura-se o que mais aparenta ser a verdade e aí o bom filme que é “Frost/Nixon” começa a mostrar suas limitações que não permitem que ele atinja um patamar de grandeza.

O que o filme tem de melhor em sua estrutura é o jogo dramático simples, mas forte, esboçado: Nixon quer limpar seu nome da História da podridão política americana; se Nixon conseguir o feito, a carreira de Frost, já declinante, redundará num desastre até mesmo pelo fato de que há dinheiro dele investido no projeto.

Frank Langella tem um desempenho extraordinário, pois mesmo não sendo nada parecido com o Nixon real, se vale de pequenos gestos, modulações sibilinas de voz e contrações expressivas no rosto para sugerir o presidente. O roteirista do filme Peter Morgan adaptou para o cinema sua peça de sucesso de mesmo nome e com os mesmos atores. A questão é que se Peter é bom roteirista como também vimos em “A Rainha” (sobre a relação da Rainha Elizabeth com Tony Blair e suas reações no período que sucede à morte de Lady Di, sua desafeta, por seus despojamentos sociais) e “O Último Rei da Escócia” de Kevin Macdonald (um episódio da vida de Idi Amin Dada em Uganda, quando se enternece por um jovem branco médico escocês, mas depois mostra suas garras), não é um roteirista que saia do campo da boa competência para ser brilhante. E isto acaba se refletindo nos resultados.

Nixon derrota Frost nos primeiros “rounds”, mas bêbado faz uma ligação para Frost onde mostra toda sua fragilidade ( algo que aconteceu segundo o autor mas no filme é inserido com as manhas necessárias da ficção; aqui nenhum problema). Assim, encurralado, Nixon admite que tentou obstruir a Justiça, que sabia e autorizou as invasões do Partido Democrata e se sai com uma grande pérola “Estou dizendo que quando o presidente faz não é ilegal”. Nixon que para “consumo de massa ligeira” havia se saído bem ao justificar a invasão do Cambodja e a necessidade do aprofundamento da herança maldita que era a Guerra do Vietnã ( herança maldita?..Já ouvimos isto em outro país,não?), quanto ao caso Watergate confirma suas responsabilidades. Mas num resumo da ópera: o que se vê é um homem mostrando seu lado humano demasiadamente humano, sem cinismo. Observam-se fraquezas fortes onde haveria uma arrogância poderosa e grande desvio de caráter mais entranhados. Inácio Aráujo de quem discordo veementemente de sua crítica feroz a “Quem Quer Ser Um Milinionário?”, vai com precisão ao calcanhar de Aquiles do filme em sua crítica na Folha de São Paulo de sexta-feira, 6 de março : Nixon nos é mostrado como uma pessoa simpática, o que pelo que sei/acompanhei está longe de ser verdade.
Há ainda uma questão bastante inquietante a ser ressaltada: se Nixon no caso Watergate foi capaz de tanta patifaria, o que foi descoberto, o que não poderia haver de tão grave ou mais ainda que não chegou à tona, por falta de pertinácia da imprensa? Não é toda hora que temos jornalistas do calibre de Woodward e Bernstein em ação investigativa paciente e meticulosa.

Em “A Rainha” mesmo com as brilhantes atuações e direção de Frears tudo era construído para que todos acabassem por fim ficando bem na foto. Helen Mirren ( Elizabeth) e Frank Langella( Nixon) estão soberbos mas os filmes em que trabalham seriam realmente admiráveis se fossem obras estritamente de ficção. Escudados na História que são, mesmo com todas as liberdades que a ficção deve se permitir, acabam por resultar em filmes longe de serem chapa-branca mas também de apresentar uma verdade humana contraditória mais conseqüente. Forest Whitaker constrói em “O Último Rei da Escócia” um Idi Amin Dada pleno em sua monstruosidade por mais que sua fachada humana e descontraída chegue aqui e ali a ser insinuada. Pena que o filme se perca um tanto em lances rocambolescos de aventura no final e na ingenuidade excessiva do médico.

Um dos supra-sumos de grandes filmes com personagens históricos captados em momentos de intimidade e humanismo é “A Queda-Os Últimos Dias de Hitler”( Alemanha/2004) de Oliver Hirschbiegel, onde temos um Bruno Ganz em estado de graça, mostrando-nos todo o horror e monstruosidade de um Hitler que mesmo nos estertores do regime nazista, quer a todo custo manter sua falida máquina de guerra funcionando, custe o que custar, sem nenhuma preocupação nem com a integridade de seus comandados. Mas espantosamente há também um patético humano que é bem captado.

Charles Baudelaire numa de suas boutades definitivas escreveu que “A maior astúcia do demônio está em nos fazer crer que ele não existe”. Encaremos a palavra demônio metaforicamente. Os processos de roteiro de Peter Morgan tanto em “Frost/Nixon” como em “A Rainha” aliados às inegáveis grandes interpretações de Langella e Mirren escondem o rabo de “demônios históricos”. Nixon e Elizabeth são “demônios, cada um ao seu modo, que nos passam a impressão de não existirem. O que existiria seriam fortes imperfeições humanas. Claro que este processo de suavização é mais forte em “Frost/Nixon”, onde a simpatia e quase ternura que Nixon acaba nos inspirando tem razoável distância do cinismo, oportunismo, gravidade e brutal falta de honestidade de um presidente que, por ironia da História, depois que surge um George W. Bush, relativamente, passa a ser apenas uma criança travessa... Em “A Rainha” acabamos por ter simpatia pela rainha e Tony Blair, quando não é difícil imaginar que na chamada “vida real” há muitas misérias e mesquinharias escondidas debaixo do tapete que não vem à tona.

“Frost/Nixon” concorreu a cinco Oscars (filme, diretor, ator, roteiro adaptado e montagem). Por mais magnífico que esteja Langella, seu trabalho não supera o de Seann Penn em “Milk-A Voz da Igualdade” nem o de Mickey Rourke em “O Lutador”. Nos demais quesitos o filme é bom mas nada superlativo. O diretor Ron Roward assinou trabalhos bons e competentes como “Appolo 13- Do Desastre ao Triunfo”(1995), “Uma Mente Brilhante”( 2001/ que recebeu o Oscar de melhor filme) e “A Luta pela Esperança”(2005). São todos filmes respeitáveis e bons mas que “não ultrapassam a barreira do som” para se tornarem grandiosos. É o caso também deste fascinante, envolvente, bem realizado e recomendável sem entusiasmo considerável, “Frost/Nixon”, que com justiça não recebeu nenhum Oscar e com exceção do desempenho de Langella deveria ter cedido suas indicações para os extraordinários “A Troca” de Clint Eastwood ou “Foi Apenas Um Sonho” de Sam Mendes. Neste último temos um subestimado grande trabalho de Leonardo Di Caprio como um homem que foge da mediocridade para cair na tragédia, que a rigor também rivaliza com o de Langella.

As mulheres em “Frost/Nixon” são apenas esboços e pano de fundo para um mundo dos homens. Rebecca Hall (excelente em “Vick Cristina Barcelona”) aqui está apagada e é uma mera sombra como a namorada de Frost. Patty McCormack (Pat Nixon) se limita a uma mera figuração cosmética.

Um filme que merece ser visto/revisto/descoberto é “Nixon” (EUA/1995) de Oliver Stone com trabalhos notáveis de Anthony Hopkins (Nixon) e Joan Allen ( Pat). Numa entrevista bem rápida, com uma multidão de repórteres ansiosos que cercam o presidente, uma jornalista capta Nixon mencionar estar comandando uma superestrutura, um monstro sobre o qual não tem controle. Isto é mais assustador e revelador do que o que nos mostra “Frost/Nixon”. A estigmatização de Oliver Stone na mídia pelas suas visões audaciosas e ambição de seus projetos, nos impede de lhe dar o devido valor, mesmo com suas falhas. Seu “JFK-A Pergunta que Não Quer Calar” levanta questões bastante pertinentes que a sociedade americana e outros rincões não querem encarar. É de uma pulsação cinematográfica extraordinária. O fracasso de “W.” (EUA/2008), sobre a vida de Bush filho, seu último filme, pode ser mais um sintoma da má vontade midiática do que de falta de qualidade. É uma obra, que apesar de ter passado em branco no circuito americano merece ser exibida no Brasil para conferirmos por nossa conta e risco.

Nelson Rodrigues de Souza

sábado, 7 de março de 2009

"O Belo e as Feras"- Um Conto Homenagem a Visconti a moda brasileira




O Belo e as Feras

Quem diria que aquele quadro hiper-famoso que o industrial aposentado Visconti arrematou num audacioso lance há alguns anos num célebre leilão pudesse lhe trazer tais contratempos? No começo daquela tarde memorável de quinta-feira, ele não poderia supor que na sua preciosa pinacoteca particular, surgisse inesperadamente, sem pedir licença, um inefável e invulgar amante das artes, mascarado como um Robin-Hood moderno e mecenas, apontando um revólver, um tanto trêmulo, delicadamente ameaçador:

- Se o senhor se comportar direitinho conforme eu lhe ditar, nem mesmo o seu abominável cachorro que está desfalecido lá fora com o dardo que lhe lancei, sofrerá o menor arranhão...

- O que o senhor deseja de mim?

- Eu não sou o que o senhor está pensando. O que me traz aqui é um sentimento de nobreza, coisa que o senhor me parece não ter, apesar de todo o dinheiro!

- Mas o que é então?

- Eu vim para que o senhor possa se redimir do seu nefando egoísmo...

- Como assim?

- O senhor nesta tarde ensolarada de quinta-feira vai cometer uma ação desprendida, extraordinária: vai doar este “Luz nas Trevas” de Bertold Fricht, este que está deslocadamente pendurado aí nesta profana parede para o Museu do Estado!

- O senhor está louco! É o meu quadro mais belo!

- O mais belo ou o mais valioso, Comendador?

- É o mais valioso porque é o mais belo!

- Pois então, com o seu generoso gesto, todos poderão apreciar este belo e valioso quadro junto ao acervo do Museu do Estado!

- O senhor pode levar qualquer outro quadro, menos este!

- O senhor não está entendendo direito Sir, eu não vou levar nada, nem este nem outro quadro. Estou aqui em missão de paz. O senhor vai telefonar ao Museu, dará a notícia da doação e um funcionário aqui virá, acompanhado de um escrivão juramentado para realizar a transferência. O pessoal do Museu é suficientemente graúdo para desatravancar a burocracia e tudo ser feito com o máximo de prontidão hoje à tarde mesmo. E eu estarei atrás desta cortina ali lhe apontando a arma para que o senhor não me apronte nenhuma!... Ah! Sim!Quero que faça constar de modo bem explícito que o senhor de modo algum está sendo coagido a tal atitude. Quero que fique bem claro que são os imperativos da consciência que o movem a tal arroubo magnânimo. O senhor vai ditar o texto por telefone, eles virão com tudo pronto e bastará ao senhor assinar!

- Eu nunca conheci alguém tão petulante!

- Petulante não meu senhor! Altruísta! Estou aqui defendendo uma causa nobre!

- Que nobreza é essa que se respalda no cano de um revólver?

- O revólver é apenas em instrumento, uma ferramenta para podermos construir um mundo mais justo!

- Que justiça é essa que se escora na violência?

- É só o senhor se comportar direitinho que não haverá nenhuma violência!

- Como não? Já está havendo! Há um bom tempo o senhor vem me torturando psicologicamente, quer me constranger a entregar algo que até já faz parte de mim! Onde está a sua sensibilidade? O senhor não deve sentir nada diante deste quadro!

- Olha aqui Comendador, este é um momento necessário de endurecimento da minha parte. Mas se eu tivesse perdido a sensibilidade, a ternura, o senhor acha que eu estava aqui tendo toda essa paciência? Se fosse outro já teria dado mostras do que é capaz! Mas se essa linguagem que estou usando o senhor não entende, eu posso começar a endurecer mais um pouquinho. Eu tenho a consciência tranqüila: eu não estou aqui em causa própria. Eu gostaria que as consciências despertassem por si mesmo, mas como tal não acontece, a gente precisa acender uma centelhazinha.

- O senhor não teria a audácia de praticar nenhuma violência comigo!... Afinal pelo menos temos alguma coisa em comum: a fixação neste quadro. Eu não acredito que o senhor seja capaz de matar-me!

Lembre-se Sir, que Van Gogh desesperado, dentre outras amarguras, por se sentir abandonado por Gauguin, cortou a orelha! Só que eu não tenho a generosidade, loucura e gênio do mestre! A agressão no meu caso dirigir-se-á à fonte do meu incômodo!

- O senhor está blefando!

- Então o senhor paga para ver?

O cavalheiro mascarado aproximou-se de Visconti, com o revólver apontado em uma das têmporas dele, o olhar fulminante!

- O senhor está louco!

- Que seja! Que o furor e loucura criativa de todos os grandes mestres me possuam agora!

- Está bem! O senhor venceu! Mas saiba que o senhor é indigno da beleza! O senhor jamais poderá contemplar algo belo, de um quadro a um ente amado, sem que isto não lhe cause repulsa, sem que os seus olhos não se sintam queimados, não vertam sangue!

- O senhor vem me falar de beleza! Com toda esta soberba e egoísmo, esse elitismo crônico, esse horror e desprezo pelas pessoas comuns, essa desconsideração toda para os que vivem fora dessa redoma, vivendo junto a essa corriola fútil, interesseira e novidadeira que o cerca! Esses especialistas de primeira-viagem, esses levianos e dissimulados hedonistas que só sabem o que é ter suor no rosto quando se estendem pachorrentamente na beira de suas piscinas! Esses pseudos-amantes da Arte que amam isto sim, os valores em dólares e euros associados a essas telas! Mas tudo bem! Diga o que quiser, mas cumpra o que lhe determinei. Eu já estou a ponto de perder a classe e me igualar aos seus!

- O que determina realmente a classe de uma pessoa são as concessões que ela faz à violência!

- O senhor fala como se todos esses seus bens lhe houvessem caído como uma dádiva dos céus! O senhor não me engana! Por trás de cada souvenir, bibelozinho desta pinacoteca (os quadros para o senhor não passam de eloqüentes souvenires...), por trás de cada pecinha deste masturbatório museu particular, existe uma cadeia de insensibilidades atrelada, pequenas e grandes omissões, simples e complexas violências. Violências que podem até ser não ser sanguinárias, mas sem nenhuma grandeza!

- Vamos acabar logo com isso! O cavalheiro já passou dos limites! Eu nunca fui tão insultado! E ainda na minha própria mansão! Vamos, seu sórdido vândalo, o que eu preciso fazer para ver-me livre da sua ignóbil presença?

E tudo transcorreu conforme o cavalheiro mascarado havia previsto. O diretor comercial do Museu do Estado compareceu com a máxima presteza e estava tão eufórico que não deu maior importância a algumas piscadelas que o senhor Visconti lhe lançava. Eu mesmo, confesso, estava emocionado, com receio de me fazer notar. Afinal tudo acabava da melhor maneira possível, sem sangue e violência maior.

Levei um grande susto quando com tantas cortinas na pinacoteca o cavalheiro mascarado quase que se dirigiu a onde eu estava escondido já há algum tempo. Quando ouvi o latido do cão, abandonei o repouso merecido depois de uma noite inteira como guarda-noturno da mansão e me deparei com esse quadro: meu patrão sendo encurralado por um mascarado! Eu estava preparando o melhor momento para agir, mas a ousadia e o inusitado das razões que moviam esse homem foram suficientes para deixar-me alerta, mas irresistivelmente fascinado, estupefato e por que não, ouso dizer agora, um pouco vingado!

Pena que a minha admiração pela coragem, destreza e determinação daquele homem mascarado tenha se esmorecido logo depois. Foi só o escrivão se retirar, o diretor do Museu apossou-se da tela, despediu-se sorridente, agradeceu a doação seguidas vezes e saiu. O Robin-Hood das Artes saiu do seu esconderijo e lançou ainda algumas ironias a mais ao patrão, à guisa de encerramento ( “saiba que agora, graças à sua bondade, todos terão direito de contemplar essa obra-prima universal , “Luz nas Trevas”!).Foi-se logo em seguida, não sem antes lançar um novo dardo no cachorro já acordado e delicadamente pedir ao patrão que depois de uma tarde tão atropelada por emoções fortes, tomasse um calmante ligeiro, espontaneamente...“Fará bem aos seus nervos!”

Sorrateiramente, segui-lhe os passos e minha vontade foi atirar nos pneus quando o vi entrar no carro do diretor comercial do Museu que o esperava uma rua adiante. Contive-me e apenas guardei o número da chapa branca e a fisionomia marcante do ex-mascarado: cabelos negros levemente encaracolados, os olhos perturbados por olheiras, as maçãs do rosto brancas e carnudas, o sorriso metálico próprio dos dentes excessivamente obturados. Meus compromissos com o patrão são à noite e um tanto pela manhã. Aproveitei o resto da tarde bebendo cerveja na esquina e filosofando sobre o acontecido.

Eu fiquei mais tranqüilo quando já no dia seguinte os jornais todos noticiaram a doação. Foram incontáveis os repórteres que tive de despachar no dia seguinte, pois o patrão não queria receber ninguém. Nada teria a declarar. Teve vontade de assim agir e ponto final. O que me surpreendeu foi que quando os amigos, parentes e filhos chegaram à mansão deste homem que sempre quis viver só, depararam-se com o patrão imperturbável, não querendo recebê-los, quanto mais discutir o assunto. Disse que estava numa fase de crise espiritual, que só se sentia bem junto às lembranças da falecida esposa e que respeitassem o seu desejo de solidão.

A mansão permaneceu vazia, com exceção dos criados, até que quinze dias depois voltou o diretor comercial do Museu, em ponto de bala, o dedo em riste, acusando o patrão:

- O quadro que o senhor nos doou é falso! Peritos examinaram, a imitação é quase idêntica ao original com exceção de alguns pequeninos detalhes grosseiros só percebidos por especialistas! Como o senhor teve coragem de comprometer o nome do nosso Museu assim! A cidade inteira está indo visitá-lo!

- Eu não sabia! Isso pra mim é uma autêntica surpresa! Eu o arrematei no leilão em Berlim a peso de ouro! Eu tenho todos os documentos!

O diretor pediu-lhe então o mais estrito silêncio porque caso contrário o nome de ambos seria maculado pela imprensa sensacionalista. Os peritos do Museu agilizariam uma investigação sigilosa mais aprofundada para descobrirem o real paradeiro do quadro original. Enquanto isto o quadro falso seria exposto sem alarde.

Se eu sei desses detalhes todos e outros mais, é porque o patrão quando já mais idoso ainda, desprestigiado, tornou-me seu confidente. Eu realmente senti o quanto sua sublimada amizade para comigo era forte, quando me contou um segredo que só ousou revelar a alguns raros e selecionados amigos e à sua filha mais ou menos dileta: ele tinha guardado num de seus inúmeros cofres espalhados na cidade, o quadro original: durante esses anos todos ele tinha exposto no seu acervo um quadro falso que tinha comprado, em suas andanças na Europa, de um falsário genial. Sua obsessão com este quadro era tanta que não tinha coragem de expô-lo livremente. Os admiradores que curtissem este tempo todo esta cópia eficiente que arranjara!

As reações dos amigos e da filha, de tão próximas pareciam combinadas: lançavam piscadelas uns aos outros como se insinuassem: “Perdoai esse velho senil que ele não sabe mais o que diz!”. Como ele se recusava terminantemente a mostrar-lhes o quadro original, o tinham por um velho ardiloso que criara um álibi para a dor e o desatino sofrido com o ladrão. Tudo que disse teria sido um mito que criara.

Realmente, não é fácil entender uma pessoa que obsessivamente preparou o legado desse bem supremo – a contemplação de uma grande obra – para apenas depois da sua morte. Pelo menos, era essa a sua intenção, segundo declarou a mim e às pessoas, incrédulas, mais chegadas. Mas havia mudado de idéia, o que confidenciou só a mim:

- O mundo anda tão falso hoje em dia que ele, realmente, só é digno daquele quadro que está lá no Museu! O verdadeiro irá é para onde eu for. Eu não acredito em mais ninguém. A não ser em você, meu fiel companheiro! O Criador de todas as obras-primas deste mundo irá me compreender e perdoar. Breve irei beijar a sua paleta de pincéis com as mais belas cores. Guarde bem este papel. Aqui tem o Banco, o número do cofre grande que aluguei e a combinação do segredo. Para os outros eu darei um endereço falso. Eu quero que você queime o quadro, espalhe as cinzas do “Luz nas Trevas” no jardim da mansão, poucos dias depois de espalharem as minhas. Não vá me decepcionar, eu confio em você!

Para mostrar-lhe como era digno das suas confidências, eu quase lhe contei o que sabia do audacioso mascarado. Mas tive medo de que ele não confiasse mais em mim se soubesse que eu poderia ter evitado tudo e me omiti.

O venerável senhor Visconti morreu sem saber que o desprendido ladrão mascarado, conforme investiguei, já não é mais um modesto funcionário do Museu. Hoje ele é o atual diretor-comercial do Museu Estadual. O anterior exerce o mesmo cargo, agora no Museu da República de Alecrim.

As cinzas do patrão já foram espalhadas no jardim há três dias e eu estou com esse quadro nas mãos sem saber ainda o que fazer! Ele pode representar um grande salto de qualidade de vida pra mim!....Reparando bem: um quadro sombrio? Será que há mesmo luz nestas trevas? Posso pelo menos iluminar a minha vida....

Nelson Rodrigues de Souza




quinta-feira, 5 de março de 2009

Ecos da psicopatia de um clássico no nosso mundo


Um dos grandes filmes políticos e policiais em qualquer tempo é “Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita” (Itália/1970) de Elio Petri. O trabalho conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o Prêmio Especial do Júri em Cannes e junto com “A Classe Operária Vai ao Paraíso” (1971), Palma de Ouro em Cannes, do mesmo Petri, forma um dos mais brilhantes duetos do Cinema, que sem nenhum pudor se assume como cinema político, o que hoje pode soar como heresia, limitação e fraqueza estética para muitos. Tal fato diz muito mais sobre o estado de entorpecimento que vivemos, do que sobre supostas possibilidades destes filmes estarem datados.

Em “Investigação.....” um chefe de polícia de uma seção de homicídios, o Doutor, sem nome explicitado (Gian Maria Volante, ator maior, ícone do cinema político italiano nos anos 60 e 70) mata sua amante Augusta (Florinda Bolkan) e deixa vários tipos de pistas de seu assassinato por todo o apartamento, espalhando vinis sobre o corpo da vítima com requinte, imprimindo propositadamente impressões digitais suas em vários lugares do espaço. Liga para seu departamento, avisa que aconteceu um crime no endereço onde esteve com Augusta e ao chegar ao trabalho, recebendo a notícia de mais um caso de homicídio, vai junto com seus subordinados investigar o que aconteceu...

Em seu delírio para se mostrar acima de qualquer suspeita e da lei, gozando com isto, o Doutor tenta também incriminar um amante esquerdista de Augusta. Mas o auge do fascismo assumido e introjetado nas veias se dá quando ele confessa a um homem comum das ruas que cometeu um crime, o faz ir à delegacia e quando este lá chega para a denúncia vai encontrar justamente como delegado chefe, o que se dizia assassino. Não haverá coragem do cidadão comum para mais nada além de dizer que se equivocou. Poucas seqüencias do Cinema nos passaram de uma forma tão contundente e atordoante o que é abuso de poder. O policial é nitidamente um psicopata e mesmo descoberto como criminoso, depois de muitas relutâncias de seus subordinados, vai ser convidado a desfrutar de uma licença para se recuperar do stress de que estaria acometido.

Tanto no Brasil como nos demais países deste tabuleiro intrincado de jogo de poderes e crises generalizadas em que se transformou o planeta, encontram-se ecos em maior ou menor grau desta psicopatia que observamos em estado agudo e bem objetivo no assustador clássico de Elio Petri.

Se fizermos nos jornais e revistas semanais brasileiros, no que se chama “grande imprensa”, uma boa pesquisa sobre o que editorialistas e outros jornalistas pensavam e escreviam sobra a falta de controle dos Estados em relação às tramas econômicas do sistema financeiro, antes da crise eclodir em setembro de 2008, vamos encontrar em muitos deles, textos caudatários da máxima de que o Estado deve ser mínimo e não intervencionista. Agora diante da catástrofe ocorrida surgem os profetas de fatos consumados, dando sugestões, palpites, apontando caminhos como se por omissão e ideologia não tivessem sido também responsáveis pelo que aconteceu.

Não posso afirmar categoricamente, pois não sou leitor aplicado da grande imprensa internacional (apenas recebo seus ecos aqui), mas desconfio que o mesmo se deu em outros países, principalmente no epicentro da crise que é os EUA. Personalidades como Paul Krugman, Noam Chomsky, Viviane Forrester e outros no plano internacional seriam exceções que confirmam a regra. No Brasil sempre tivemos as visões críticas e lúcidas de Jânio de Freitas, Elio Gaspari, Fritz Utzeri, Mino Carta, Emir Sader, Mauro Santayana, Clovis Rossi, Cristovam Buarque, dentre outros. Mas constituem minoria. num quadro bem mais geral. Não acontece nesta crise de valores ( em todos os sentidos desta palavra) um tanto da síndrome “Cidadão Acima de Qualquer Suspeita”? Ou seja, “criminosos” não estão agora investigando o “crime” que cometeram? É bom ressaltar que inclui a expressão “dentre outros”. Quem quiser vestir a carapuça do outro lado, ao meu ver majoritário, que vista.

Parte dos que estão discutindo e tomando soluções intervencionistas do Estado para salvar grandes bancos e empresas, em vários países, principalmente nos EUA, são os mesmos que incentivaram esta farra especulativa no passado. Aqui temos uma versão “pós-moderna” das intrigas de “Investigação sobre....”.

As milícias em algumas favelas cariocas expulsaram os traficantes ou os mantém a certa distância. Entretanto o que seria um fator de segurança para a população destes lugares acaba se transformando numa nova grande forma de tirania, com benfeitorias impostas, cobranças e ameaças a quem não se submeter. Mais uma vez “o criminoso” está destacado para cuidar do próprio “crime”.

Mesmo em 2009 ainda temos a questão de bambambans do tráfico ou das milícias presos que controlam seus negócios de dentro das prisões com mordomias e celulares. O que dizer das autoridades que deveriam cuidar para que isto não mais aconteça? Se estiverem investigando mesmo o problema a sério e propondo soluções eficazes eles também não fazem parte deste problema?

A imprensa deu destaque esta semana à questão da superlotação nos centros de triagem de animais apreendidos em tráficos ilegais pelo Ibama e que estão sendo bastante maltratados. Um dos diretores vem a público para dizer que isto também acontece com os hospitais e prisões, como se fosse um atenuante. Talvez fosse melhor estes bichinhos, mesmo que ilegalmente, caírem nas mãos de europeus para serem mais bem cuidados ou melhor, sobreviverem...O que temos aqui? “Criminosos” cuidando de “crimes” que cometem.

O senador Jarbas Vasconcelos dá entrevista bombástica à suspeita Veja sobre ampla corrupção no PMDB. Mas não dá nome aos bois como deveria, o que compromete seu depoimento e que sugere uma campanha sub-reptícia para apoiar o PSDB. Agora participa de um grupo parlamentar anti-corrupção. Não é estranha esta história toda?

Aqueles que não moveram de forma incisiva e consistente uma palha sequer para acabar com o massacre de palestinos na Faixa de Gaza em janeiro, agora se reúnem para dar uma boa quantia ( provavelmente insuficiente) para remediar os estragos espetaculares materiais e de saúde humana ocorridos, mas não darão vida aos mortos inocentes, dentre eles muitas crianças, velhos, mulheres, homens adultos, fora o pessoal do Hamas tão odiado. Não teria sido melhor cortar o mal pela raiz e terem sido enérgicos com os assassinatos israelenses enquanto estes ocorriam? Do jeito que as coisas estão se processando temos mais uma vez “criminosos” cuidando de “crimes” que indiretamente cometeram.

No Brasil, os hospitais superlotados muitas vezes estão cuidando de doenças agravadas e de contágio que eles mesmos acabam criando. Os presídios superlotados são fábricas de criminosos. Entra-se delinqüente menor para se sair um bandidão, isto quando se sobrevive. Não existe alto grau de psicopatia “eliopetriana” nestes casos?

Até hoje não surgiu entre nós uma reforma agrária realmente poderosa, ampla e séria como já aconteceu em outros países há mais de um século. Surge o MST que é uma reação possível a este estado de coisas e comete grandes excessos. Investigar isto no fundo é investigar a si mesmo, é adentrar no terreno de omissões graves e seculares. Se o necessário e urgente tivesse sido feito não haveria necessidade de termos um MST. Será necessário enfatizar mais uma analogia com a situação básica do filme?

Há auditores brasileiros que são afastados por corrupção que são reintegrados para continuar com seus trabalhos de auditores. Precisa acrescentar algo mais?

Não há nenhum esforço realmente hercúleo para lidar com as carências históricas de um ensino de grande qualidade no país, em todos os níveis e atividades. Os artigos sucessivos de Cristovam Buarque são extraordinários em seus diagnósticos e propostas para o estado da educação no país. Surge então o provão, para avaliar a qualidade do ensino....

Luis Inácio da Silva foi blindado em relação a todos os escândalos que ocorreram em sua era e culminaram com a saída de José Serra, Antônio Palocci e José Genoíno do governo. Este esquema de blindagem cuja abrangência e agentes nos é desconhecido, que condições têm de investigar estes escândalos mais a fundo?

Fernando Henrique Cardoso aprofundou o desmonte do Estado iniciado por Collor, promoveu a privataria, cujo caso mais emblemático é a entrega da Companhia Vale do Rio do Doce de mão beijada à iniciativa privada. Com se não bastasse promoveu a compra de votos para reeleição. Com que sinceridade e boa vontade podemos encarar suas palestras e artigos agora, para discutir alternativas para o país sair da crise em que se eterniza?

No trânsito do Rio de Janeiro o governo Eduardo Paes está promovendo um esquema de mudanças de sentido no trânsito em certos horários em que se despe um santo para vestir outro, ajudando uns e prejudicando outros. Já cheguei a ver aqui no Humaitá uma pista dividida em três, sendo que em dois terços se vai numa direção e num terço bem apertado na outra. Criam-se problemas para depois ter de resolvê-los. No Joá um carro bateu em duas motos que vinham em sentido contrário e matou um dos motoqueiros. No Humaitá um homem foi atropelado por um carro, ainda bem que sem maiores escoriações, que vinha num sentido que ele não esperava. Dado a boa vontade da CET-Rio de melhorar o trânsito pode-se considerar este caso, relativamente, algo mais light?

José Sarney, Renan Calheiros e até Fernando Collor de Mello voltam com maiores poderes. Que Deus nos proteja!...

Claro que mais casos não faltam. Sobre a Itália poderíamos comentar a nova reeleição de Berlusconi e seus atos. Quais você incluiria?

Resumo da Ópera (Bufa): quem ainda acredita que “Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita” é uma obra circunscrita a certo período do século XX e que esteja datada deve, no mínimo, tomar um banho de jornais e revistas, pois para tudo o que foi dito aqui não há necessidade de grandes pesquisas. Basta ter um mínimo de contato com todas estas extravagâncias (nos valendo de uma palavra mais elegante), com que somos bombardeados todos os dias.

Nelson Rodrigues de Souza


Ps Tenho me permitido fazer algumas correções pontuais nos posts anteriores. Se você notar alguma mudança não estranhe. Como exemplos, no “Conto Erótico do Cinéfilo” lembrei-me de dois filmes que não poderiam faltar e os inclui; descobri um cartaz maior e melhor de “Pai Patrão” e o troquei; percebi que num post fiz num trecho o que não queria que era dar nome a um analista que tive e o tirei.

terça-feira, 3 de março de 2009

No Vazio Da Garrafa do Náufrago- Um Conto


Quem ler/leu meus post anterior, vai entender melhor as motivações deste conto.
Nelson


No Vazio Da Garrafa do Náufrago

Quando a Junta Militar Argentina, para perpetuar-se no poder, lançou a nação numa das mais, senão a mais absurda e tola das guerras já vistas e me vi na iminência de ser convocado a lutar nas ilhas Malvinas, o meu primeiro impulso foi fugir. Eu me sentia igual a quando criança recusei-me terminantemente a ir ao “primeiro dia de aula” do curso primário, me segurando com todas as forças num dos pés da mesa da sala, pois pressentia que talvez a minha infância, a minha liberdade de aprender e brincar fosse terminar ali e eu passaria então a ser mais um a ser adestrado para uma engrenagem infernal, como essa agora que pretendia dar cabo do jovem que preenche os contornos desse espanto chamado “eu”.

Por mais atormentado que fosse pela idéia, não tive a coragem de fugir. Não é fácil tomar uma decisão dessas, quando até mesmo a família, que teoricamente deveria ter o maior apreço pelas nossas vidas, nos incita, empurra, encurrala:

- Você não pode envergonhar o nome dos Borges! Além do mais pode ser morto, preso por traição. O mínimo que pode acontecer é não poder mais trabalhar. Ninguém daria um emprego a um desertor! Você não pode jogar fora tudo o que conquistamos até agora, com o maior sacrifício!

Eu já nem posso mais distinguir exatamente quem disse o que. Ainda agora ressoa no meu ouvido um coro de vozes implacáveis: papai, mamãe, titio, os Sanches e Heloisa, você Heloisa que não disse uma palavra o tempo todo, mas o seu olhar cúmplice fulminava-me com a implacabilidade de um raio, como que insinuando “Que vergonha! Que vergonha!”.

Não me restou nenhuma alternativa, senão ir a essas inóspitas ilhas lutar. Só que antes de embarcar no “navio negreiro moderno”, eu encasquetei uma idéia definitiva, vital: aqui chegando faria tudo para sobreviver. Na primeira oportunidade eu me destacaria dos demais, embrenhar-me-ia matagal adentro e me valeria do meu aprendizado de acampamento para resistir, enquanto durassem esses horrores todos. Eu não mataria nenhum suposto inimigo nem morreria gratuitamente, lutaria apenas para preservar aquilo que para mim é o fenômeno mais importante de todos os tempos, algo irrepetível, único e inalienável, algo que nem a mim caberia o direito de colocar em risco: minha vida!

Na primeira noite em que passamos numa das ilhas, eu cuidadosamente juntei todos os apetrechos possíveis e sorrateiro, como quem dá um passeio par fumar, afastei-me o mais rápido que pude do acampamento, com a alma possuída, o coração disparado, os nervos cintilando e um desespero que de tão intenso transubstanciava-se em esperança.

Esse estado de assombro-encantamento em que eu me senti o mais solitário dos homens, o mais isolado de todos, o marginal dos marginais, é inenarrável!(”O homem mais forte é aquele que está mais só”- escreveu Ibsen). Só experimentando!... Mas não durou muito essa minha heróica solidão: o soldado Carlos sem que eu tivesse dado conta, notou os gestos suspeitos, seguiu a minha trilha, alcançou-me a quatro quilômetros do acampamento e me fez levantar sobressaltado de um irresponsável e fatal descanso que me permiti fazer, com uma metralhadora impiedosamente apontada na minha fronte.

A batalha que se travou dali então, acredito, não pode ter tido precedentes:

- Eu gostaria de adiantar-me ao pelotão e fuzilá-lo com o maior número de rajadas possíveis! O seu gesto é não só vergonhoso, como imperdoável! Seu traidor...

- Vamos, me mate! Não é para isso que nos mandaram aqui? Para exercermos a nossa sanha assassina liquidando os inimigos da pátria?!

Eu sabia que Carlos não teria coragem de justiçar-me ali naquele momento. Eu já o conhecia da viagem. Já tínhamos inclusive esboçado uma discussão antes, mas agora ela se tornava ironicamente real, vital: a prática zombando da teoria!

- Você acha que nós todos viemos aqui porque gostamos, somos uns lunáticos inconseqüentes? Olha, nós estamos todos nessa guerra porque a soberania do nosso país está ameaçada!

- O que está ameaçado é a soberania desta Junta Militar. Você não entende que eles nos lançaram a essa tragédia, como um último e desesperado recurso, como uma maneira de desviar as nossas atenções da corrupção desenfreada, dos crimes perpetrados contra esses jovens que se revoltaram contra o descalabro político, social, econômico e porque não dizer moral? Como se não bastasse os milhares de desaparecidos, eles querem nos fazer desaparecer também!

- Você está confundindo as coisas! Um erro não justifica outro! Justamente porque o nosso país andou perdendo terreno no seu desenvolvimento, agora é que não podemos entregar de mão beijada uma terra que nos pertence!

- Fomos nós que atacamos essas ilhas, simplesmente porque não tivemos a sensatez de canalizar as nossas energias reprimidas para derrubar essa ditadura atroz que nos tortura até a alma! Esses estúpidos ingleses vieram aqui defender essa porção de terra, não tanto pelo valor (não é uma ilhota dessas que vai remendar um império falido!), mas pelas mesmas razões que nos impingiram a danarmos neste inferno: aquele macho da Inglaterra (macho no pior sentido) chamado Margareth Thatcher também deseja a permanência no poder, inventou essa balela, império ameaçado, para poder sair só embalsamada daquele parlamento! E esse “lords” vieram aqui lutar porque estavam cansados do tédio matinal dos “pubs”, onde se embebedavam na ausência de algo mais digno para fazer!

- O seu medo, a sua covardia está criando-lhe os mais disparatados fantasmas! O que uma pessoa não inventa para fugir ao dever! Olhe aqui rapaz, se esses caras são uns bêbados incompetentes nós vamos descobrir isso é na raça, no peito! Enfrentando-os com coragem, com dignidade! Não vai ser aqui escondido, procurando a chupeta da mamãe que as coisas irão se resolver. Enquanto nós estamos aqui discutindo o sexo dos anjos, eles estão avançando e daí para perdermos as nossas ilhas e as nossas vidas não custa nada!

- Mas você não entende que nós estamos sendo tratados como marionetes? Enquanto estamos aqui sofrendo, os tiranos maiores que nos lançaram a essa desgraça estão em seus gabinetes refrigerados, preparados para computar o número de baixas e dispostos a sacrificar mais pessoas se necessário...

- Você está indo contra a idéia básica de qualquer sociedade em qualquer tempo: a obrigação dos cidadões de defenderem a sua nação quando necessário, quando de uma ameaça externa.

- A ameaça maior à nossa soberania, à nossa existência , é interna mesmo! Um Estado que não dá as condições mínimas para que o seu povo viva com dignidade, que é capaz de prender, torturar, matar os seus próprios cidadões, não tem o menor direito de exigir-nos que nos sacrifiquemos por ele. Quando uma guerra é realmente justa (se é que tal fenômeno já aconteceu...), digamos , o caso de uma nítida invasão, não há a menor necessidade de obrigar, constranger os cidadões a lutar, pegar em armas. As pessoas iriam naturalmente, espontaneamente à luta!

- Para você até a luta dos aliados contra o Nazi-Fascismo deve ter sido um fiasco, não? Uma bravata apenas...

- Olha, essa é uma história muito mal contada! De qualquer modo ninguém me tira da cabeça que a verdadeira causa da Segunda Guerra Mundial foi a Primeira Guerra Mundial, a desta foram as guerras travadas anteriormente e que a causa desse colapso internacional que estamos vivendo (essa Terceira Guerra Mundial não declarada) é a Segunda Guerra Mundial! Não foi para ver o mundo dividido em duas fatias, uma dos Estados Unidos, outra da Rússia, que nossos pais se sacrificaram! Por falar em americanos, onde andam os nossos aliados nesse momento?

- Quanta sandice meu Deus! Quanta sandice meu Deus!

- Olha essa tal de guerra nuclear que pode estourar a qualquer momento, pelo menos um mérito tem em meio a tanto nojo: a possibilidade de tudo se esboroar numa explosão torna a nossa guerrinha aqui, uma coisa mais do que anacrônica, uma tragédia ridícula, uma brincadeira de crianças!

- Esse palavrório todo com o qual você tenta me engambelar é uma máscara, um disfarce! Você quer é esconder por trás de toda essa capa intelectual, a sua covardia, o seu medo, a sua vileza!

- Você tem razão! Essas razões todas que eu levantei são muito fortes, mas o que me dá a maior força para lutar (para não lutar) é o medo! O medo de morrer. O medo de matar. O medo de matar e morrer em vida, carregando cadáveres fantasmas pela vida afora que sobrar, o medo de me arrepender, me punir por ter sobrevivido, ser eternamente infeliz porque não morri também e não me aliviei dessas culpas!... Você tem toda a razão! Eu não me sinto nem um pouco à vontade nessa nossa atividade. Isto tudo vai contra as minhas mais recônditas convicções. Eu desconfio, não aprovo, “não gosto e tenho raiva de quem gosta” daqueles que acreditam que a vida pode engendrar uma situação tal em que seja construtivo, seja racional, seja a melhor saída, matar alguém. A única violência admissível para mim é a da fera encurralada, porque sem saída, em legítima defesa, sem racionalização, completamente instintiva, compreensível porque em nome da vida! Que mundo é este que nós vivemos? Um mundo em que as direitas querem nos matar, querem que matemos! Um mundo em que as esquerdas querem que nos matemos, querem que matemos também! Estão todos a serviço da morte e não da vida!

- Você é uma pessoa vazia, não tem mais nenhum ideal, se você vivesse (não vão deixá-lo viver, depois do que você fez) sua vida seria mísera. Não valeria um peso sequer!

- Você mais uma vez tem razão, eu não acredito em mais nada! Ou melhor, em quase nada, a não ser duas coisas. Primeiro, o ser humano é uma ilha cercada de mentiras por todos os lados! Segundo: só um valor tem realmente consistência para mim: a vida humana. Essa ilha não tem preço!

- A essa altura devem estar achando que eu fugi também. Vamos embora!

- Essa sua capa de desprendimento e heroísmo também não seria uma maneira (um tanto perigosa, admito) de se esconder dos seus sentimentos mais profundos: a atração pela morte, o medo da rejeição social, uma última e patética tentativa de dar um sentido à vida, arriscando-a e comprometendo a vida alheia?

-Você já foi longe demais com sua loucura. Vamos!

-No angustiante caminho de volta o soldado Carlos ainda perguntou-me se eu tinha planejado receber as medalhas também, quando voltássemos, são e salvos, vitoriosos. Senti vontade de responder-lhe que as receberia sim, mas as daria par meu sobrinho jogar botão... Mas me contive, não aceitando a provocação.

Não, as coisas não aconteceram, exatamente, “ipsis-litteri”, como aqui relatei. Mas a essência da guerra espiritual que travamos, está toda aqui. O leitor que me desculpe se aqui ou ali, a memória, que é muito imaginativa, falhou. Mas francamente, como último esforço de alguém que pela manhã será fuzilado por um implacável pelotão, até que o texto não está dos piores.

Os primeiros raios de sol já surgiram há algum tempo e eu aproveito segundo a segundo para desfrutar dessa belíssima paisagem. Lá embaixo as ondas erodindo as pedras, aqui neste despenhadeiro o álcool erodindo as minhas entranhas. E eu que sempre fui abstêmio!Mas Carlos não se negou a atender esse meu ultimo pedido, dando-me caneta, papel e essa garrafa de aguardente. Eu pretendia despedir-me de Heloisa, para depois encher a cara, mas preferi beber apenas o suficiente par espantar um pouco o medo (se é que está sendo possível...)

Daqui a pouco todos estarão de pé e a primeira missão será dar um fim neste que lhes aturde com as suas insanidades. Mas essa corrente que me prende à árvore, apesar de humildemente curta, não é o suficiente par impedir-me de realizar um ousado e último gesto. Esses meus algozes devem vir logo, logo fazer-me companhia no lado de lá. Que pelo menos a minha desgraça não tenha sido em vão.

Vai minha garrafa, cuide bem desse misterioso e perigoso papel com este sofrido texto, essa bomba que como uma vingança, lanço ao mar numa (vã?) tentativa de que um dia ela possa explodir cabeças viciadas.

“Vai buscar quem mora longe, sonho meu”... – conforme cantam nossos vizinhos brasileiros...

Falkvinas, abril de 1982.


Nelson Rodrigues de Souza

Lina, aquela que “roubou” um argumento meu




Nas minhas fantasias de cineasta como adolescente/jovem adulto imaginava fazer um filme sobre um indivíduo que faria tudo para sobreviver numa guerra. Esta idéia me perseguia mesmo tendo visto, me emocionado e gostado muito de “Giordano Bruno”( Itália/1973) de Giuliano Montaldo, onde Gian Maria Volanté na pele do monge dominicano, filósofo, astrônomo e matemático, considerado um perigoso herege, é julgado pelo clero e declara de uma forma inesquecível: “Tendes mais medo vós de proferirdes a sentença contra mim do que eu em recebê-la”. E assim como tantos na História da Igreja Católica foi queimado nas fogueiras da Santa Inquisição, um braço direito que ganhou hoje outros contornos, mas que metaforicamente e com alguns efeitos práticos bem danosos, ainda continua existindo.

A grandeza de Giordano em afirmar suas idéias me comovia. Sua humanidade ao tomar porres que o tirassem de sua lucidez também. Mas na realidade me sentia muito distante dele e me identificava mais com o homem comum que tinha na minha cabeça enquanto um argumento, mas cuja história ainda não havia sido encontrada e construída.

Em 1975, pouco tempo depois dos meus primeiros devaneios neste sentido, surge então o memorável e espetacular “Pasqualino Sete Belezas” (Itália/1975) de Lina Wertmüller. Ora, o argumento desta obra-prima do Cinema Italiano, desta ex-assistente de Federico Fellini em “Fellini 8 e Meio”, era o mesmo que acalentei desenvolver durante anos! A danada chegou na frente! É nisto que dá procrastinar as coisas! Uma arte bem brasileira....

Pasqualino ( Giancarlo Giannini, fenomenal) tem sete irmãs feias (daí o título) e acaba matando acidentalmente o amante de uma delas. Chega a esquartejar o corpo, desesperado, colocando-o em malas. Preso, confessa o crime e depois de algumas peripécias se alista no exército italiano em plena Segunda Guerra Mundial. Por cuidados com a própria vida acaba desertando. Mas é preso pelos nazistas e levado para um campo de concentração.

Por mais canalha que seja o personagem, sua humanidade é desconcertante. Sua única ideologia num tempo em grande colapso é sobreviver. Chega até mesmo a paquerar uma carrasca nazista bem gorda e arrogante para obter ganhos na prisão, enquanto um companheiro se joga numa fossa por não suportar mais o mundo fétido em que foi mergulhado.

“Pasqualino Sete Belezas”, com mais uma extraordinária fotografia de Tonino Delli Colli, de tantos clássicos, foi a mais politicamente incorreta incursão de Lina Wertmüller no cinema que chegou aos cinemas brasileiros. Ela nos deu filmes tragicômicos fantásticos como “Mimi, o Metalúrgico”(1972), “Por Um Destino Insólito”(1974), “Amor e Anarquia”(1973), “Dois na Cama Numa Noite de Chuva”(1978), “Tudo Certo... Mas Nada em Ordem”(1974), etc. Neste último temos uma de suas cenas mais impagáveis e emblemáticas da captura da fragilidade humana em seus limites extremos, sem nenhuma hipocrisia: num edifício cabeça-de-porco uma mulher está para ser estuprada, sua televisão começa a cair devido ao corpo a corpo com que resiste e chega a apoiar com uma perna o aparelho; ela agora tem duas opções, ou salva sua preciosa televisão ou se deixa ser estuprada; opta então por salvar a televisão....

O sarcasmo e humanismo de Lina com filmes de títulos quilométricos, bastante atenuados nas versões brasileiras, eram quase que insuperáveis. Durante anos acalentou o projeto de filmar no Brasil, “Tieta do Agreste” de Jorge Amado com Sophia Loren, o que acabou sendo feito por Cacá Diegues. No festival do Rio de poucos anos atrás foi exibido o belo “Francesco e Nunziata (2001), último contato que tive com sua apaixonante obra.

Não sendo esquerda nada convencional, mas muito menos de direita, nem feminista óbvia e xiita, Lina representou um grande sopro criativo no Cinema Italiano mesmo com tantos grandes mestres, com uma visão de mundo iconoclasta bastante peculiar. Infelizmente ainda que tenha continuado filmando, a exibição de seus filmes foi abortada do mercado exibidor brasileiro, mesmo tendo dirigido uma versão para a TV e cinema do clássico da dramaturgia italiana de Eduardo de Filippo, “Sábado, Domingo e Segunda” (1990) que ganhou nos palcos brasileiros estupenda montagem no Teatro dos Quatro do Rio de Janeiro, nos seus áureos tempos.

Lina de uma forma sensacional “roubou” meu argumento. Toda gana de viver de Pasqualino, alheio a ideologias e idéias nobres, ao seu modo, é uma eloqüente resposta particular a todos os conformismos e automatismos ideológicos que geraram o fascismo, o nazismo, o stalinismo, o castrismo, o neoliberalismo com sua ditadura do mercado, o sionismo sem limites e assassino, os fundamentalismos islâmicos, as ações policiais inconseqüentes, etc.

Numa época em que vários destes vestígios de falta de civilização ainda mostram a sua cara, em que a vida e a morte estão completamente banalizadas de uma forma mais generalizada (extrapolando a outros rincões os horrores da Segunda Guerra Mundial), a visão/revisão deste filme seria muito oportuna. Com toda loucura e obstinação de Pasqualino, ele, ao seu modo, com seu grande apego a este mundo tal como o conhecemos (sem deixar-se entregar a um “atrás da porta” sobre o qual quem disser que tem alguma certeza de como será, estará mentindo), com todas as suas misérias e pequenez sensata, mesmo muito longe da dignidade de um Giordano Bruno, tem muito a nos ensinar. Esta é a grande força do filme e a razão dele ter me exercido tanto impacto e fascínio, tornando-se um daqueles que são fundamentais e formadores, o que me fez perdoar o “roubo” da idéia básica.


Ps. Claude Lelouch filmou uma seqüência inesquecível que está num filme que vi na televisão há anos e do qual não me lembro do nome nem da história. O que me marcou profundamente é que ao contrário de muitos filmes em que condenados à morte acabam se conformando e caminham para o fim, um tanto apaziguados, nesta obra de Lelouch acontecia justamente o contrário: há uma longa cena em que o condenado esperneia, é contido, reage de novo, fazendo tudo o que lhe é possível para que não chegue ao fim de linha da vida. É fantástica a seqüencia toda. Neste sentido inconformista, só anos depois, Lars Von Trier com seu essencial “Dançando no Escuro” lograria efeito equivalente ao final, com grande força, mostrando os últimos momentos de vida da protagonista Selma (Björk) de forma arrepiantemente bela.


Nelson Rodrigues de Souza

segunda-feira, 2 de março de 2009

Cesse Tudo que o Grande Cinema Canta/Conta que um Valor Tão Alto se Alevanta




Fui ver a exposição de Vik Muniz no MAM-RJ e saí completamente chapado. Há anos uma individual no Brasil não me deixava tão encantado. Pode-se sem nenhum favor dizer que se trata de um trabalho de gênio. Gênio sim, mesmo que esta palavra esteja um tanto gasta. Mas o fato é que temos a obra de um artista com grande sensibilidade, originalidade e criatividade e de grande comunicação com o público por mais sofisticado que seja seu trabalho.

Vik se vale dos mais diferentes materiais perecíveis, permanentes, recicláveis ou não, forma suas composições e as fotografa, imortalizando-as e eternizando-as em outro suporte. Os resultados são deslumbrantemente belos: ícones de terror construídos com caviar; divas de Hollywood evocadas com diamantes; personagens da coleta de lixo de Gramacho em belíssimas composições (há uma instalação onde pessoas correm trazendo materiais que formam figuras humanas que é atordoantemente bela); rostos de meninos que ganham nova dimensão quando pulverizados com açúcar; paisagens feitas com linhas; um mapa-múndi construído com computadores e outros gadgets que é uma grande expressão do mundo frio, globalizado, belo e “tecnologicizado” que vivemos; recortes de um quebra-cabeças que evocam “O Jardim das Delícias” de Bosch; duas bandeiras americanas construídas com flores; paisagem de guerra feitas com soldadinhos de brinquedo; nuvens feitas de algodão que remetem a animais; uma Medusa construída num prato de macarrão e muitas outras maravilhas mais com outras técnicas e posturas.

Com Vik o efêmero ganha permanência e transcendência e conforme uma frase sua da entrada tudo o que faz é só metade do trabalho, que fica “no escuro de um museu”; a outra é feita pelo público que freqüenta a exposição. Vik dialoga com vários ícones da História da Arte como Duchamps, Warhol, Bosch, artistas renascentistas, etc. Mas sempre mantendo uma grande marca pessoal e sem hermetismos. Sua exposição no domingo,1 de março, à tarde, estava sendo fruída por um enorme e heterogêneo público.

Moderno? Contemporâneo? Pós-Moderno? Vanguarda? Trans-Vanguarda? Vick escapa a qualquer rótulo nesta época de tantas empulhações de falsas “grande arte”. O que ressalta é um trabalho de grande impacto e beleza que com toda justeza tem transcendido em sucesso as nossas fronteiras e nos faz sentir orgulho de termos nascido no mesmo país que ele. Como o baiano Glauber no Cinema, este paulista nascido em 1961, é uma das nossas forças que o mundo admira e que veio para permanecer no nosso imaginário, no “museu” eterno que construímos em nossa cabeça.

Nelson Rodrigues de Souza

domingo, 1 de março de 2009

Teatro Completo- Um Conto


Teatro Completo

Eu não diria que o estudo da História não serve para nada. Não é uma certeza minha, mas também não posso esconder que tenho esta desconfiança. Afinal de que adiantou tanto escarcéu em torno dos horrores e atrocidades da Alemanha nazista se volta e meia tragédias correlatas surgem à tona? O povo americano tem caído em tantos contos-do-vigário fatais! O povo argentino, dentre outros célebres, no das Malvinas, agora neste 14 de junho de 1982, em que vivo, onde capitula depois de mais de 700 mortos (o povo inglês no das Falklands, por que não? Morreram uns 250 ingleses!) e outras loucuras mais.

Será porque a História é sempre contada por aqueles que sobrevivem e estes, no mínimo, carregam o pecado da omissão? Não foi um renascentista que taxou a antiga era de Idade-Média? Não estaria ele sim mergulhado numa era de trevas sutis em que as cores vivas mascaram um negror fugidio, mas com uma presença ainda mais marcante? Será que se todos soubessem quem realmente afundou os navios brasileiros no litoral Nordeste e nos conduziu ao palco europeu da Segunda Guerra Mundial, frustrando a nossa condição de platéia perplexa e colaboracionista, os acontecimentos decorrentes, para nós, teriam sido os mesmos?

Não sei... A História é uma coisa muito complicada. Eu, aliás, nem sei contar direito a minha própria história, que estranhos desígnios fizeram-se estar aqui agora em 1982 divagando assim sobre estas questões. A História: o Teatro Completo de Deus!... Só sei que estou entretido nesta maldita tarefa mecânica de copiar documentos antigos (será que um dia isto será mais fácil?) e minha mente ociosa, fica patinando no vazio, tentando desesperadamente dar sentido ao tempo que se esvai sem que nada realmente importante aconteça.

É... Não é nada confortável assistir a aulas de História surradas à noitinha, discutindo o sexo dos anjos e passar o dia estagiando neste Arquivo do Estado que é um tugúrio, manuseando esses alérgicos papéis amarelados que colecionam poeiras de outras eras. Meus dentes precipitam-se uns sobre os outros, tilintando, quando toco essas soturnas folhas centenárias, mesmo com a ponta dos dedos.

Ah! Que vontade de espalhar estes papéis todos pelos ares, assustar estes companheiros “artistas” que estão aqui abúlicos, comendo com os olhos, docilmente, essa papelada toda e alheios ao meu sofrimento, crentes que estão fazendo um trabalho da mais alta relevância!

Oh! Que ironia do destino! Quando entrei para aquela Faculdade e pensei que estudaria confortavelmente na Varanda o eterno conflito da Senzala com a Casa Grande, eu não imaginei que na prática do aprendizado eu vivenciaria isto sim a condição de escravo! Escravo privilegiado sim, mas que não deixa de ser escravo!

Quando aquele professor gosmento... (Sim, procurei que procurei um adjetivo para qualificá-lo e só encontrei este, definitivo, que lhe cai como uma luva!). Quando aquele professor gosmento pelo qual a princípio eu nutria certa simpatia, convidou-me para este trabalho, dizendo-me que eu aprenderia bastante com a cópia de documentos antigos imprescindíveis, os quais serviriam de alicerce para sua inquestionável tese de doutoramento, eu imaginei que teria de ter, dali então, muita paciência. Eu precisava e preciso de dinheiro e aceitei o trabalho de imediato. Mas a extensão do tédio que esta atividade me provocaria, isto estava fora do alcance da mais pessimista das minhas expectativas.

Duzentos e vinte e três arrobas de café transportadas... Nossa! Estou com mania de grandeza! Não é que eu acabei lendo dois dois? É apenas um! Essa paralaxe me mata! São vinte e três arroubas! Vamos conferir o resto...

Pronto, esse foi meu único deslize. Essa tarefa é medíocre demais para que eu me dê ao luxo de errar.

Ah!... Hoje não vou à aula, tenho de fazer uma coisa diferente. Não agüento mais chá-de-cadeira durante o dia e à noite para variar, também. Meu corpo tem de funcionar. Não posso ficar simplesmente, eternamente passivo, um depósito dócil do lixo cultural acumulado pela humanidade nestas eras todas: “A constituição é como as virgens, foi feita para ser violada”; “Quando ouço falar em Cultura, tenho vontade de puxar o revólver”; “Os orientais não dão valor à vida como nós”; “O país vai bem, ainda que o povo vá mal”; “O que aconteceu no Natal de 800? – A coroação do Rei Carlos Magno...” etc... etc... Quem sobreviverá incólume a tal lúgubre coquetel de sandices?

Hoje vou é procurar Tereza, convidá-la para irmos ao cinema, levá-la sem que se dê conta a um poeira desses por aí que exibe um pornô e depois quando estivermos motivados... Mas tem de ser um pornô decente, íntegro, verdadeiro! Chega de mentiras! Quero cenas de sexo explícito mesmo! Que pelo menos as histórias marginais sejam reais!

Tereza... Tereza... Tereza que se distrai com a Psicologia esperando marido... Será que este infeliz serei eu? Não sei! Se as coisas assim continuarem, eu não vou corresponder aos sonhos desta menina! Ela vai se enjoar de mim! Já não agüenta mais ouvir-me queixar da insegurança que tenho em relação ao futuro. Com essa barra econômica violenta, tendo de humilhar-me neste inferno daqui, com a pressão da família que me queria médico, engenheiro e não cantador de cordel de luxo como tendo a ser como professor de História, o que farão de mim? Em que me transformarei? Na melhor das hipóteses um professor de meias-verdades? Mas com essa concorrência e esse salário de fome que recebem conseguirei uma boca e conseguirei sustentar as bocas que dependerem de mim?

Tereza eu te amo! Eu juro, você ainda vai se orgulhar de mim! Você verá! Eu não só vou contar a Historia como vou fazer a História! E não vai ser copiando ou mandando alguém copiar esses documentos que eu vou fazer uma boa História. Que garantia temos de que o que está escrito nestes volumes é verdadeiro? Se um historiador do ano 2982 (se esse planeta ainda existir naturalmente) for estudar o atentado do Riocentro no ano passado e se baseasse nos laudos oficiais a que conclusões chegaria? Esse trabalho que me consome, além de chato, irritante, é inútil. Sísifo foi condenado a carregar uma enorme pedra ao alto de uma montanha e deixá-la rolar para em seguida carregá-la novamente, eternamente, mas pelo menos teve a grandeza de desafiar os deuses. E eu o que faço? Carrego enorme pedra simplesmente pela razão mais torpe possível: preciso de uma granazinha! Ah! Mas isto não pode nem deve ficar assim! Eu vou começar agora, já, neste momento, a mudar o destino que para mim traçaram! Como é que eu não pensei nisto antes?

Matar uma velhinha usurária para ficar com os seus penhores como fez aquele desvairado personagem do Dostoievski em “Crime e Castigo? Não!... Isto é coisa do século passado! Eu sou um Raskólnikov moderno! Eu não me atrevo a sujar as mãos de sangue! Este ato eu reservo para os tolos! Agirei de modo bastante sutil.Antes de qualquer coisa lerei esses documentos de cabo a rabo e depois irei reescrevê-los com paciência, muita paciência, mantendo o estilo e fazendo mudanças significativas, mas de tal maneira que não torne o texto grotesco porque senão chamarei a atenção. Infelizmente não poderei contar os fatos exatamente como acho que devem ter acontecido pois o choque ideológico do professor quando da leitura me denunciaria instantaneamente.Mas se as mudanças forem feitas de maneira bem discreta, com bastante elegância, leveza e tato, ele vai cair que nem patinho!Vai ser um trabalho de artista! De ourivesaria!Depois que o professor Epaminondas acabar sua tese, eu procurarei outros. Oferecer-me-ei para trabalhar até por menos! Esses meus coleguinhas alienados, que estão apenas em compasso de espera do titulo de doutor, não merecem esse trabalho! Tomarei o lugar deles! Eu farei e acontecerei na História deste país! Sacudirei a sua memória! Eu sou a fênix que renasce das poeiras!

Tereza, minha adorada musa, saio desta vidinha inglória, para entrar na História!

Nelson Rodrigues de Souza